Tempos de desconforto

Por a 19 de Março de 2020
Manuela Botelho, secretária-geral da Associação Portuguesa de Anunciantes

Manuela Botelho, secretária-geral da Associação Portuguesa de Anunciantes

A pandemia de Covid-19 está a alterar de forma significativa a vida de todos nós. Seja em família ou em trabalho.

Não há dúvida que esta é uma crise global, sem precedentes e impossível prever ou antecipar. Não sabemos como e quando vai terminar, mas sabemos que afectará a vida das marcas, dos negócios e das pessoas. Sabemos também que traz consigo novos comportamentos de compra, no consumo de media e na forma como utilizamos as plataformas digitais no dia-a-dia. E, acredito, sairemos diferentes desta experiência, acima de tudo com um renovado sentido da nossa humanidade comum.

Não é de estranhar que a primeira preocupação das empresas seja cuidar e proteger os seus colaboradores, facilitar condições de trabalho em segurança e garantir que todos estão bem informados e seguem na mesma direcção. É um período em que é fundamental comunicar com clareza e transparência, mesmo quando as noticias não são as melhores, garantindo suporte adicional sempre que necessário.

Depois dos colaboradores vêm os clientes. E sim, esta crise vai passar e não passará de uma memória traumática colectiva, pelo que é desejável que as marcas não desapareçam da vida das pessoas. Além de que as pessoas precisam de orientação, segurança e informação e contam (como sempre contaram) com as marcas e com as empresas.

A incerteza e as mudanças de comportamento no contexto desta crise estão a levar as marcas a interromper grande parte das iniciativas de marketing que tinham previstas, a adiar investimentos e a cancelar eventos. Faz sentido porque, sejamos claros, não há nesta crise nenhuma oportunidade de marketing.

Esta é antes uma oportunidade para as marcas mostrarem com clareza como as pessoas são importantes para elas. É altura de evitarem campanhas promocionais ou de venda e se concentrarem na construção de marca e em dar às pessoas aquilo que elas mais precisam: atenção, confiança e entretenimento.

É altura para reunirem os seus melhores talentos e pensar como é que podem ser verdadeiramente relevantes e fazer a diferença na vida dos clientes. E não tenho dúvidas que esse talento existe em Portugal e existe em larga escala nesta indústria, que sempre foi criativa e com grande capacidade de se reinventar e aproveitar as novas circunstâncias para criar valor. Não podemos esquecer que, como alguém já disse, por vezes é no mais sombrio dos tempos que a luz da bondade e da criatividade humanas brilha mais.

A construção de comunidades é uma boa forma de interagir com as pessoas e de manter a ligação com estas. É fundamental ouvir as pessoas e utilizar esses “insights” para preparar o plano de acções e de comunicação. Cada empresa, melhor que ninguém saberá encontrar a forma mais adequada de estar presente neste momento difícil da vida de todos. Sejamos ágeis, construamos conteúdos para diferentes plataformas e afinemos o tom da comunicação. O nosso desconforto pode ser o conforto dos nossos clientes.

*Por Manuela Botelho, secretária-geral da Associação Portuguesa dos Anunciantes

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