De “Manual de Sobrevivência” para um “Manual de Mudança”

Por a 18 de Março de 2020
Luis Mergulhão, CEO Omnicom Media Group

Luis Mergulhão, CEO Omnicom Media Group

(Da vertigem a todo o tempo do mundo. De um novo mundo. Também na Comunicação.)

24 horas vertiginosas, as últimas que vivemos. Os 2 primeiros casos de morte por Covid-19 em Portugal, os portugueses a assumirem verdadeiramente o risco de contágio, o refúgio em casa nos casos em que tal se torna possível, muitas empresas (nomeadamente as de serviços) a passarem a um regime de teletrabalho, um plano de crise em que do Estado de Alerta se poderá passar para algo semelhante ao Estado de Emergência, a proximidade de muitos de nós a casos de possíveis contaminados, a crescer. E centenas, milhares ou milhões de milhões de euros anunciados para serem injectados na economia dos diversos países (Portugal, Espanha, França, Itália, Reino Unido, EUA).

No meio disto tudo, perguntava-me ontem uma jornalista o que eu achava do impacto do adiamento do Euro 2020 no mercado publicitário acabado de ser anunciado. A minha resposta deixo-a, confessou, perplexa: “o impacto é e será irrelevante”, tive-o de repetir 2 vezes.

De facto é assim. Os tempos extraordinários que começamos a viver, têm de ser percebidos (na forma em que o consigamos fazer, por não termos na nossa memória colectiva tempos iguais nas actuais e anteriores gerações recentes) como mudando tudo, excepto o fundamental: a nossa condição humana, que o ser humano é por natureza gregário, que nesse sentido a comunicação faz parte das nossas características e pulsões, e que o nosso sentido de sobrevivência convive muitas vezes com a necessidade de termos estados de alegria e de esperança, e para muitos Fé.

No sector da comunicação, como em muitos outros, irá passar-se não um tsunami (após o qual se reconstrói o que desabou) mas o partir para um novo paradigma, novos tipos de propósitos, organizações diferentes. Mas, se para isso teremos todo o tempo do mundo, importa atalhar agora de forma serena mas firme, actuar com consistência, e agir de forma solidária e altruísta. O sector da Comunicação (incluindo aqui tanto Meios como Marcas) faz parte deste mundo, e tem a capacidade, como já o demonstrou noutras crises, de assumir o seu papel cívico e o seu valor social.

Deixo algumas reflexões, a que chamaria Manual de Sobrevivência, ou antes, Manual de Mudança.

. O que estamos a viver não é uma corrida de 100, 1500, ou 10.000 metros. É uma Maratona, e esta maratona talvez tenha uma distância superior aos 42,195 km da original grega. Como tal não podemos começar este novo período como se estivéssemos a correr para os 1.500 metros, pois desta forma nem conseguiríamos acabar os 5.000 metros, quanto mais a maratona;

. A defesa da saúde e da segurança das nossas equipas, que constituiu o nosso focus deve agora ser acompanhada por lideranças que assegurem processos e metodologias de trabalho que zelem pelo equilíbrio dos nossos colegas, a enfrentar momentos difíceis, com o volume de negócio a esboroar-se e confinados a uma clausura voluntária mas não desejada;

. Muita da comunicação no ar, ou prevista para estar no ar, deixou de ter sentido para as marcas: ou porque a oferta se limitou, ou porque a procura diminuiu, mas principalmente porque as mensagens aspiracionais com convite às emoções ou experiências que a criatividade continha podem ser despropositadas face ao actual contexto, e talvez consideradas mesmo estranhas ou desajustadas pelo consumidor/cidadão;

. Os grupos de media, broadcasters, publishers e outros meios, os seus jornalistas e colaboradores são hoje, mais do que nunca, meios de comunicação com grande valor social. Eles também fazem parte do nosso grupo de heróis, que mantêm, a par dos profissionais de saúde, de segurança, dos abastecimentos, o país a funcionar e devidamente informado e precavido. Como tal merecem o nosso respeito e deverão merecer o nosso apoio também, do Estado, das empresas, das Marcas, da nossa indústria.

. As empresas, como as Marcas, devem ter também, e muitas delas têm, um propósito social. Este é um dos momentos próprios para esse propósito ser afirmado, através da comunicação, da comunicação publicitária, e da associação a produtos e eventos desenhados pelos media a esse propósito.

Quem conseguir, de alguma forma, perceber já a mudança porque passaremos, e antecipar a sua actividade, as suas estratégias, a comunicação das marcas, a activação dessa nova comunicação quanto antes, estará não apenas a exercer um dever cívico mas, também, a posicionar-se competitivamente para o novo normal que aí virá. Se teremos todo o tempo do mundo, temos também de saber que o novo mundo pode surgir tão inesperadamente como o anterior está a acabar.

Ao trabalho. Como sempre, ao trabalho, com resiliência, criatividade e alegria.

*Luís Mergulhão
Alcoitão, 18 de Março de 2020

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