A fuga

Por a 5 de Fevereiro de 2020
Vítor Cunha, administrador da JLM& Associados

Vítor Cunha, administrador da JLM& Associados

“Pai, ligou um Micael Pereira, acho que é jornalista do Expresso. Disse que vai ligar mais tarde”. Ou, “pai, o Luís Rosa enviou um e-mail com perguntas”.

É esse o momento definidor e arrasador por que estou à espera. Neste pesadelo nunca há aquele momento em que o alarme das 6:28am toca e acordamos felizes pela interrupção. Micael, do consórcio internacional de jornalistas e do Expresso; Luís Rosa, o detective do Observador: tenho obsessões nocturnas e diurnas constantes com eles, com as perguntas sem resposta, com os suores frios da vergonha.

Comecei a ensaiar uma resposta formal para quando o Dia do Juízo chegar: “À data dos factos alegados pelo senhor jornalista a previsão legal do alegado crime era substancialmente diferente. Sobre as demais questões informo que são matérias privadas e sujeitas a sigilo profissional. Reservo-me o direito de agir judicialmente contra quem atentar contra a minha honra e bom nome, mas reafirmo acreditar na Justiça e nas autoridades”. Pode ser que uma sucessão de lugares comuns funcione e impressione os Sherlock do Expresso e do Observador – em desespero acreditamos em tudo.

A informática é a nossa perdição. O e-mail e a mensagem de texto uma ameaça. O mundo está feito de fugas de informação e o Mal vive no inbox, no servidor, na cloud. Caminhamos num tempo em que o pirata informático é o herói Robin Hood e o jornalista um agente dessa missão planetária de nivelamento. Robin e Madre Teresa juntos. Há, contudo, uma perguntinha muito interessante que queria deixar no ar (sim, no ar, porque em terra só os criminosos e os seus advogados se têm interessado pelo tema): até quando se poderá continuar a fazer investigação jornalística e criminal pela via do acesso a dados ilegalmente adquiridos ou obtidos? Ou este é o novo normal e eu não consigo acompanhar a revolução?

Em tempos escolhi a password “putaserra1900MS” (uma homenagem singela e discreta à prostituição feminina legalizada, à prática ancestral de ski na Serra da Estrela, ao filme “1900”, e a um grande realizador, Martin Scorsese).

É evidente que esta palavra-passe dizia alguma coisa sobre mim, sobre a minha mente desequilibrada e sobre os meus interesses (falo do cinema, claro), pelo que Rui Pinto, com as suas geringonças digitais e sem muito esforço acederia facilmente à minha caixa de e-mail – e à minha vida. O pirata-ladrão poderia de seguida ameaçar revelar-me através de agente autorizado; eu não pagaria o imposto revolucionário por falta de fundos; Ana Gomes faria uma manif e o “Cunha leaks” acabaria em menos de uma semana com todo o meu pequeno universo, inclusivamente com aquela conta em Malta que ando a esconder há anos do fisco e da família. Longe vão os dias de paz e sossego do criminoso moderno. Se a tecnologia em tempos nos ajudou a montar todo o tipo de aldrabice – as contas numeradas em ilhas paradisíacas, a justificação para chegar a casa atrasado 12 horas –, hoje é uma ameaça sem dono nem roque.

Agora muito a sério: a intromissão informática, seja nas eleições americanas, seja no Carcavelos Leaks, é um sinal e ameaça de um certo tempo feito de justicialistas sem nojo. Quando já nada vale, vale tudo.

É este o mundo em queremos viver?

E quem da imprensa, ou da polícia, pede desculpa à família do antigo quadro do EuroBIC que apareceu morto?

E quem impõe limites à falta de limite, à barbárie, à devassa?

 

 

A mini-série The Loudest Voice está disponível no HBO e conta uma história contemporânea de sucesso: a criação do canal de notícias norte-americano Fox News por Roger Ailes. Independentemente dos critérios artísticos e das asserções morais sobre as pessoas envolvidas, fica boa parte da explicação de um sucesso e uma homenagem à América esquecida.

Habituámo-nos a pensar nos esquecidos como minorias, até ao dia em que essas minorias já representam metade do nosso universo. Ailes interpretou bem o mercado televisivo e eleitoral e criou um produto alternativo para todos aqueles que não se reviam na leitura “liberal” do mundo, oferecida pelos canais de informação tradicionais do cabo, como a CNN.

A Fox News é um sucesso: em 2019 terá batido todos os seus recordes com uma média diária de 2,5 milhões de espectadores no prime time. A ESPN ficou em segundo com 1,78 milhões e a CNN”em 22º lugar com uma média de 972 mil espectadores por noite.

É esta América – e não outra – que elegerá Trump em Novembro. Ignorar os esquecidos é ignorar metade do mundo – e é muito difícil viver sem essa metade.

 

*Por Vítor Cunha, administrador da JLM& Associados

 

 

 

 

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