TV 20 2.0

Por a 31 de Janeiro de 2020
Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Estamos todos preparados. Já começámos a adaptar-nos aos novos comandos sem 37 botões. Comando de voz. Ligações wi-fi pelo televisor com bastantes apps. E, nelas, por entre música e a meteorologia, o que realmente importa: aplicações de conteúdos – as nossas favoritas. A década de 20 trará a real TV 2.0. Estão preparados?

Depois de nos primeiros três anos do milénio termos experimentado a TV interactiva incluindo boxs Microsoft para termos uma experiência a-la computador, com quizzs, info adicional do programa e até câmaras adicionais, vieram depois as apps secondscreen no início da década de 10: para votar, aceder ao chat, ver mais, decidir sobre o conteúdo, etc.

No remate para a nova década, entre 2017 e 2019, percebemos que havia chegado a hora de a transformação ir além do que estava à volta dos conteúdos, mas sim na distribuição e monetização dos conteúdos.

 

  1. os novos players não estão aqui para brincar

Depois do Netflix, Amazon Prime Video, HBO Go&Max, Disney+, Apple TV+ , eis brevemente o Peacock, o serviço da NBC (pertença da Comcast). Este último veio inclusive colocar à luz que o movimento não se trata de um experimentalismo, mas de uma transformação similar à que afectou a oferta televisiva quando passou a ter a long-tail dos canais temáticos do cabo a conciliarem-se com os generalistas. Na apresentação aos jornalistas a NBC Universal revelou que até 2024 não espera que o serviço de streaming tenha um ARPU melhor do que aquele que obtém hoje – comparando, o streaming conseguirá entre 6 e 7 dólares por mês por utilizador, ao invés dos 10 dólares que hoje conseguem na combinação de licenças para o cabo e alguns desportivos locais pagos.

Também a Disney já comunicou aos investidores que 2024 deverá ser o ano apenas do break-even. A par disto, os analistas da BMO Capital Markets trouxeram à luz o investimento estimado da Netflix em conteúdos: 15,3 mil milhões de dólares em 2019, 17,3 mil milhões em 2020 e por alturas de 2028 estará mesmo nos 28 mil milhões. Pouca coisa…

Tudo isto significa apenas que estes serviços não vieram senão para ficar. Tal como Facebook e Google, não jogam sequer pelo plano dos cinco anos. Nada abaixo de 10 está na mira do negócio. O futuro passa pelo streaming no ecossistema. Não há plataformas grandes demais que correm o risco de falhar. Têm de ser grandes demais precisamente para não falhar.

 

2.O ecossistema do streaming afectará tudo, inclusive a publicidade – mas o alvo será o cabo e menos os generalistas

Estes últimos vão manter-se relevantes. Apesar de os vermos como os mais ameaçados é, contudo, o cabo o visado. Desde logo pelo fecho do acesso do conteúdo. Cada vez mais canais (sobretudo os que estão fora da alçada dos grandes estúdios produtores) começam a sofrer na pele o menor acesso a filmes, séries, documentários e formatos de entretenimento. As janelas de emissão para cativar (e habituar) os utilizadores ao streaming faz retirar do mercado da venda para cabo muitos títulos, o que começa a obrigar o cabo (sobretudo os que não derivam dos grandes estúdios) a unir-se e encetar co-produções ou compras noutros fornecedores – mas com um problema: os títulos que até hoje emitem vêm já promovidos (entenda-se, são de popularidade conhecida por via do marketing já feito pelos grandes estúdios na altura do seu lançamento no cinema ou estreia em TV); ao invés, as novas produções são desconhecidas e necessitam de muita promoção, vide mais custos, vide menores margens. Todo este enquadramento traz ao cabo maior pressão:

— Em primeiro, nos contratos com os operadores de telecomunicações, que ao ver as audiências caírem, trarão pressão sobre o preço que pagam pela distribuição e, até, nas posições relevantes de grelha ou nos futuros home-screens das boxs.

 

— Em segundo, pressão pela já hoje relativa dimensão no mercado publicitário; sendo interessantes pela segmentação mas de diminuta escala, esta fonte de receita reduzir-se-á ainda mais, com o público a optar e habituar-se cada vez mais ao streaming e aos canais TV generalistas -e pior, a ofertas OTT sem custos e suportadas pela publicidade (p.ex PlutoTV e NBC/Peacock); a publicidade addressable, endereçada na TV como hoje na web, ainda que solução técnica viável na próxima década, precisa sempre de volume de consumo, e será este o grande problema a enfrentar pelo cabo, onde mesmo alargando o catch-up de 7 para 30 dias, terá nessa altura já perdido a relevância para o streaming.

 

— Em terceiro, pressão porque o espectador não consegue e não quer vidas complicadas. E, neste capítulo, os simplificadores serão três: os poucos generalistas (garante de uma oferta curada e alargada de massas, de impacto social forte, e sobretudo cunho local), os canais de cabo de nicho cuja oferta seja única e rica (mais com foco no desporto) e, em terceiro, as plataformas de streaming (a dividirem-se entre as generalistas actuais e outras de nicho – do surf ao yoga à WWE ou à F1, etc.)

 

— Em quarto e último, pressão pelo ecossistema de plataformas de distribuição e monetização: dos operadores de hoje e suas boxs, às smart TV da Samsung, LG, Android TV, ROKU, PlutoTV, Amazon Fire, Apple TV e outras, onde na fragmentação se procurará sobreviver e onde a Google espreita para ter forte quota de mercado como solução de publicidade.

 

A TV 2.0 já está por cá. Aos profissionais cabe prepararmo-nos.

Como se viu, não para 2020, mas para uma década inteira. Aos espectadores: o melhor que podem – recostarem-se no sofá, escolher e desfrutar.

*Por Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

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