Desinformação e “fake news”. A educação como meio de combate

Por a 20 de Janeiro de 2020

Luis Paulop RodriguesComo vivemos na sociedade da comunicação, em que estamos todos conectados em rede, imersos num espaço sem fronteiras em que todos comunicam com todos à escala global, torna-se fundamental, nas escolas de todo o mundo, adoptar uma estratégia contra a desinformação e as “fake news” baseada numa aposta séria e determinada no ensino da educação mediática (“educação para os media”, na era anterior à Internet).

Para além da formação de cidadãos melhores e mais participativos, está em causa o objectivo nobre de combater a iliteracia digital (que é o analfabetismo do nosso tempo) e preparar os cidadãos para a realidade complexa em que vivem, tornando-os mais informados, esclarecidos e conscientes, quer seja na sua relação com o poder político, no mundo dos negócios digitais ou na vida quotidiana.

No passado, a iliteracia não se notava muito porque era preciso ir ao quiosque e pagar para ler o jornal ou a revista. A televisão, com escassas opções de canais, era consumida de forma passiva. Mas hoje, com os telemóveis baratos e praticamente indispensáveis, a informação está disponível a todos, chegando até nós sem pedir licença em doses gigantescas. A informação e, também, a desinformação…

Aliás, muitos políticos valem-se precisamente da informação falsa – as “fake news” – ou da imagem adulterada em computador não só como estratégia de comunicação política para ganhar eleições como para governar. Obviamente, “fake news” e adulteração de fotografias houve sempre. Agora, a capacidade de difusão em grande escala transforma uma notícia falsa num problema potencialmente sério. E a produção de falsidades é de tal ordem que os novos meios de jornalismo de verificação de factos (“fact-checking, em inglês) não têm mãos a medir. Em Portugal, o “Polígrafo” é um bom exemplo.

O recurso às “fake news” e ao ataque pessoal como arma de arremesso político, explorando o lado mais negro dos adversários, tornou-se uma prática de comunicação banal que intoxica o espaço público mediático. Assim como a comunicação directa com os eleitores, em que políticos e governantes fogem aos debates e ao filtro do jornalismo e falam directamente aos eleitores, através das redes sociais. Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, são dois mestres desta nova arte proporcionada pelo ambiente digital. Porque eles sabem que os públicos estão cada vez mais nas redes sociais e cada vez menos na televisão.

Num livro ainda sem edição portuguesa que acaba de ser lançado em França, justamente intitulado “A Era do Choque”, Christian Salmon, um investigador sobre o discurso político contemporâneo, aborda o fenómeno da comunicação política e da sua transformação em função das novas possibilidades proporcionadas pela Internet e pelas redes sociais.

Face a este quadro, considero que só a educação pode ajudar a formar cidadãos melhores, que saibam consumir informação sabendo distinguir entre fontes falsas e fontes verdadeiras ou entre ataque político ou ataque meramente pessoal. Só a educação pode ajudar a distinguir a capacidade manipuladora de um texto, um som ou uma imagem. A questão é simples: se a classe política eliminou a capacidade filtradora do jornalismo, ao comunicar pelas redes sociais, torna-se necessário transferir essa capacidade de filtrar para os cidadãos.

A produção de informação em quantidades gigantescas está a causar problemas na recepção, por causa do excesso de informação e da necessidade de filtrar o que interessa, ignorando o que não interessa ou que é falso.

Assim, num futuro cada vez mais próximo, uma nova profissão deverá emergir para dar a emprego a pessoas que filtrem a informação que o cliente deve ler. Porque as máquinas ainda não fazem tudo. Obviamente, terá acesso a esse serviço quem tiver interesse e capacidade financeira para o adquirir.

Antigamente, só era necessário ter uma assessoria de imprensa para emitir a informação e as mensagens do político, da empresa ou da organização. Os meios de comunicação de massa faziam a difusão para muita gente ao mesmo tempo, através do jornal, da rádio, da televisão ou da revista.

Nesse tempo, que não foi há muito tempo, eram muito poucos a produzir e a difundir informação. Havia muito mais receptores do que emissores de informação. Agora, todos nós podemos produzir e emitir a nossa própria informação. E podemos dar opiniões que são capazes de influenciar a nossa rede de ligações pessoais.

O espaço público mediático está, portanto, cada vez maior e cada vez mais complexo. Importa, por isso, formar cidadãos informados e conscientes. Porque quanto mais informados e conscientes forem mais liberdade e mais capacidade terão para escolher o que precisam.

Artigo de opinião de Luís Paulo Rodrigues, consultor de comunicação e autor do blogue Comunicação Integrada (www.luispaulorodrigues.com)

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