A crise somos nós

Por a 2 de Dezembro de 2019
Vitor Cunha, administrador da JLM & Associados

Vitor Cunha, administrador da JLM & Associados

Breve preliminar

Chovia e fazia sol e fazia vento. A directora tinha ligado e eu não ouvi por razão atendível. Ó diabo, mas que falta de consideração pela directora. Liguei de volta. Disse logo que sim, porque nunca se diz não.

Aqui estou. Anos depois do maçador exercício pretérito (escrever sobre política em jornais estimulantes como o O Independente e revistas fascinantes como a Atlântico), passo a escrever aqui sobre o que me apetecer: só não me deixam partilhar assuntos íntimos, logo aqueles que conheço melhor.

Aceitar o desafio da directora pressupõe (além de não poder falar de clientes e de matérias onde haja conflito de interesses, o que é uma injustiça, mas compreendo as injustiças do mundo) um enorme sentido de responsabilidade, conhecimento e saber apenas alcançáveis a deuses, santos e aspirantes. Mas a santidade é um caminho e nunca se pode desistir.

 

A crise

Tive a sorte de ter nascido no melhor e pior século da história da humanidade, até agora. Ao longo destes anos, quase todos foram assombrados pela palavra “crise”.

Crise é coisa de pobre – talvez por isso, mesmo quando não estamos em crise, vivemos, pensamos e actuamos como se estivéssemos em crise. A nossa pobreza tem decorrido em parte da nossa condição geográfica, espírito insular, ignorância e falta de escala.

Por outras palavras, tenho vivido nas últimas décadas num táxi e na companhia de um senhor vetusto, fumador inveterado, salazarista, benfiquista e rabugento. É o Portugal taxista e facebookiano que, mesmo quando o sol brilha em todo o seu esplendor, apenas vê nuvens e copos meio vazios. Provavelmente porque já bebeu a outra metade e não se lembra. A minha condição – a de viver com um taxista – é imprópria e não traz saúde e felicidade.

Vem a tudo isto a propósito da mundialmente conhecida “crise dos media” (foram esbanjadas 300 palavras vãs para chegar finalmente a um tema relacionado com o M&P!).

A crise dos media é, acima de tudo, a crise de alguns media. Entretenimento, informação, ficção e desporto nunca foram tão consumidos, desde que há mulher e homem, como agora. Em 2019 o investimento total em publicidade deverá andar pelos 550 a 600 mil milhões de dólares; há dez anos foram 400 mil milhões. Outra grande diferença: nos mercados mais sofisticados a receita da publicidade digital já ultrapassa metade do bolo total.

A oferta tem aumentado e hoje qualquer miúdo de 15 anos vê um filme no smartphone sem precisar de ir ao Nimas (ou ao Cinebolso). O negócio do streaming pago gera já, anualmente, dezenas de milhar de milhão de receita e em 2025 pode atingir 125 mil milhões de dólares; a Netflix, que em 1997 começou como empresa de aluguer de filmes em DVD, investe o que tem (e principalmente o que não tem) para ser o primeiro operador mundial, num negócio de escala que ninguém sabe como vai acabar – e pode acabar mal.

Estou a misturar deliberadamente entretenimento com informação porque são indissociáveis neste contexto.

A pergunta: mas se há mais consumo, mais investimento, mais publicidade, onde está a crise?

As revoluções estruturais, como a agrícola ou a industrial, provocam sempre danos, vítimas – e novos vencedores. Nos media e no entretenimento também tem sido assim: o teatro foi ameaçado pela telefonia sem fios e ainda está vivo; a televisão também não matou a rádio (“Video killed the radio star”, lembram-se?); e as plataformas digitais não vão fazer evaporar a necessidade de existência de boa informação, bom entretenimento e boas transmissões live de desporto, por exemplo. E um bom jornal ou revista será sempre um bom jornal ou revista.

O negócio não acabou, apenas mudou. Quem mais ganha, agora, são os mega canais distribuidores de publicidade (Facebook, Google, etc.) e as produtoras, e não os donos dos conteúdos, porque os donos dos conteúdos abdicaram em determinado momento dessa receita em troca de circulação digital. Esta opção tem custado muito caro, os públicos viciaram-se no acesso gratuito e vai ser difícil mudar estes maus hábitos.

Caminho possível: apostar na qualidade e na exclusividade. Haverá sempre procura para o que é único e bem feito. A industrialização do processo produtivo não pode deixar de ser feita à custa da qualidade. A qualidade com persistência é um antídoto para a crise. Há banalidades que resultam.

 

*Por Vítor Cunha, administrador da JLM & Associados

 

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