B.R.E.X.I.T

Por a 17 de Outubro de 2019

Andre MoreiraTodos sabemos o significado da palavra Brexit: Britain + Exit. Os britânicos são especialistas em sintetizar e comunicar — é também por isso que são bons publicitários. Mas o impacto desta decisão, aparentemente tão simples, é infinitamente mais profundo no que toca à publicidade e indústrias criativas. Por forma a revelar essa complexidade, sugiro regressar novamente à palavra Brexit. Mas desta vez de forma mais criativa e atenta…

Barato: Desde o fatídico voto que a libra está mais baixa. Mas o talento e a experiência ainda aqui andam. Resultado? Um recorde de investimento estrangeiro, especificamente na área de produção. Até aqui tudo bem.

Reputação: Do Stormzy ao Shakespeare as exportações criativas britânicas são reconhecidas mundialmente, e desempenham um papel fundamental no soft power que o Reino Unido ainda possui — mas garanto que até essa reputação está a ter dificuldade em resistir aos trejeitos capilares do Boris, aos ridículos passos de dança da May ou aos gritos estridentes de ‘Ooooorderrrr’ do Bercow.

Expansão: No que toca à publicidade, Londres era o destino predilecto para quem queria criar uma ‘base’ europeia. Veja-se o caso específico da Toyota com a qual eu trabalho. A sede oficial é em Bruxelas, mas é em Londres que criamos para toda a Europa (‘culpa’ da reputação acima referida). No entanto, as restrições e imposições decorrentes do Brexit (visas, tarifas, etc.) já fazem com que muitas dessas empresas comecem a olhar com atenção redobrada para outras cidades europeias tais como Paris, Amesterdão ou até Lisboa.

X2: As indústrias criativas britânicas têm vindo a crescer ao dobro da velocidade da economia inglesa e, neste momento, empregam mais 700 mil pessoas do que os serviços financeiros (quem diria…). No entanto, cerca de 30 por cento dessa mão-de-obra fantástica é originária da União Europeia. É preciso dizer mais?

Investimento: Grande parte do investimento na áreas culturais e criativas por terras de Sua Majestade vem da Europa. Em tempo de crise, como é hábito, essa foi uma das áreas em que o governo conservador primeiro cortou. É, portanto, uma das áreas que mais preocupa a quem se preocupa com estas coisas. Ironicamente, vão ser justamente as zonas que mais votaram ‘leave’ a ser mais afectadas — há quem chame a estas coincidências de ‘Karma’-

Talento: No fim de contas, as indústrias criativas dependem de uma coisa acima de todas as outras — talento. A língua, a acessibilidade e a (aparente) aceitação cultural deram ao Reino Unido acesso desmesurado ao melhor que há no mundo. Com o Brexit, quer se queira quer não, isso vai diminuir. No fundo, esta é a grande questão.
Um bom ponto de comparação, para acabar, é a primeira liga de futebol inglesa versus a sua selecção nacional — enquanto os primeiros dominam todas as competições em que entram, os segundos… bem, assunto para outra oportunidade.

Artigo de opinião de André Moreira, director criativo executivo da Team Toyota, na The&Partnership, em Londres. Esteve seis anos e meio na Havas Worldwide London e três anos e meio na Albion London, onde assumiu funções de director criativo

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