A comunicação dos líderes políticos para além das palavras

Por a 30 de Setembro de 2019

António SacavémEm liderança política, a gestão de impressões é fundamental para se ganhar eleições, para se gerir dinâmicas de poder e para se influenciar o eleitorado. Ainda que o conteúdo das mensagens que os candidatos transmitem seja relevante, a ciência tem vindo a descobrir que, mais do que seria desejável, os candidatos ganham eleições, sobretudo, tendo em conta a gestão da imagem que conseguem fazer junto do grande público. A gestão da imagem é conseguida, maioritariamente, através da comunicação não-verbal, isto é, a linguagem corporal, as expressões faciais, a expressividade da voz, o vestuário que utilizam, etc. É importante, ainda, que o candidato consiga ajustar todos estes ingredientes ao contexto onde está a comunicar. Por exemplo, a escolha de um vestuário formal pode ser mais adequada num debate televisivo e a escolha de uma roupa mais informal, numa visita a uma feira e num comício. Sabemos que a fase inicial e final dos debates políticos, são momentos muito importantes para influenciar o eleitorado através do processo de gestão de impressões. No caso em concreto do último debate a seis, veja como os candidatos se comportaram nas alegações iniciais.

1. O repto foi dado por Assunção Cristas que começou por cumprimentar os adversários, dirigiu-se aos potenciais eleitores olhando para a câmara, o que é positivo, mas, logo de seguida, não só utilizou vícios de linguagem (hamm), repetidamente, o que distrai as pessoas da mensagem principal, como revelou falta de ajuste à pergunta da jornalista. Foi-lhe perguntado o que destacava pela positiva relativamente à última legislatura e Assunção Cristas decidiu ignorar a questão e começar com um tom critico relativamente ao governo, que pode ter conduzido, nesta fase inicial do debate, de aquecimento, a algum afastamento dos eleitores ainda indecisos. Por outro lado, motivou a jornalista a interrompê-la, na tentativa de que respondesse à pergunta e, nesse momento, voltou a não revelar flexibilidade e insistiu em responder àquilo que tinha planeado e não àquilo que lhe estava a ser perguntado. Gerou, portanto, uma crispação inicial desnecessária. É de recordar que o jornalista, nestes casos, é frequentemente associado ao observador imparcial, que representa as preocupações das pessoas que estão a assistir lá em casa, pelo que uma quebra do flow inicial, gerada pelo desentendimento que teve com o entrevistador, não foi positiva para a candidata. Mais valia ter destacado, logo de início, o tema da estabilidade como factor positivo da governação, como depois acabou por fazer, e desta forma teria criado a oportunidade para, de seguida, ter apontado aquilo que considerava serem os pontos menos positivos.

2. Rui Rio, tendo-lhe sido colocada a mesma questão, começou por cumprimentar todos, e ninguém ao mesmo tempo, a analisar pelos movimentos algo descontrolados da cabeça e, de seguida, esqueceu-se de focar a câmara, ou seja, de olhar directamente para o grande público, perdendo a oportunidade, logo desde o inicio, de se ligar emocionalmente às pessoas que estavam lá em casa a assistir ao debate. Inicialmente, olhou excessivamente para baixo, enquanto respondia à pergunta, o que pode levar à percepção de que está pouco confiante relativamente àquilo que está a dizer. A certa altura, dirige-se desnecessariamente a António Costa, voltando-se e olhando para ele, dando destaque ao actual primeiro ministro de forma desnecessária. Pela positiva destacam-se os gestos, na generalidade, dinâmicos e ajustados ao discurso. Depois, ao nível do conteúdo, talvez não houvesse necessidade de ir tão longe naquilo que estava bem. Em vez de referir o cumprimento das metas de Bruxelas como sendo algo positivo, poderia ter sido mais comedido, bastando, para isso, ter referido a segundo parte da sua frase, ou seja, (o governo fez bem) não ter cedido às exigências do partido comunista e do bloco de esquerda.

3. Catarina Martins começou por saudar os adversários, no entanto, como no caso de Rui Rio, também se esqueceu de estabelecer contacto visual com os potenciais eleitores através da câmara. Depois, começou a resposta à jornalista com “mas Flor”, ou seja, relevando alguma resistência à pergunta, na tentativa de dirigir a resposta para aquilo que desejava. Esta fuga às questões, numa fase inicial do debate, tende a não beneficiar os candidatos. Seria mais ajustado que Catarina Martins tivesse respondido à pergunta, ainda que de forma superficial, referindo que nem sempre foi fácil obter-se um entendimento entre os parceiros da coligação, acrescentando um exemplo de baixo impacto já conhecido do grande público, o que teria aberto espaço para a criação de uma ponte, para aquilo que de positivo tinha sido realizado. Como assim não foi, e tal como aconteceu com Assunção Cristas, foi interrompida pela jornalista e, nesse momento, de forma assertiva, apresentou uma lista temas que não correram bem, revelando um excessivo distanciamento dos seus parceiros de coligação, nesta fase introdutória. Este comportamento pode ter gerado a percepção de que a necessidade de gerir o seu espaço político se sobrepôs ao espírito de equipa que é necessário existir entre parceiros. Um ponto que se destaca da comunicação de Catarina Martins é a sua expressividade, que facilita a aproximação do grande público.

4. André Silva, iniciou o seu discurso com pouca energia na voz e com um tom algo formal, que não está muito em sintonia com as expectativas do seu eleitorado. De seguida, congratulou, com um pouco mais de ênfase, os seus eleitores, mas esquece-se de olhar para a câmara, ou seja, não potenciou o estabelecimento de um vínculo afectivo, com as pessoas que o estavam a ver lá em casa. Revelou, por outro lado, uma ausência de expressividade na face, nesta fase do debate, que pode ter dificultado o processo de influência. Gesticulou, porém, de forma relativamente harmoniosa.

5. Jerónimo de Sousa, decidiu responder directamente à pergunta da jornalista, o que é positivo, ainda que não tenha optado por saudar os seus adversários e os telespectadores. Começou a sua narrativa a olhar para baixo, e revelou uma voz monocórdica, com pouco contraste, e uma face excessivamente fechada, que não facilita o estabelecimento de uma ligação afectiva com as pessoas que estão ainda indecisas. Não procurou criar uma ponte para o que de positivo aconteceu na governação do País. Faltou, por isso, trazer para a sua comunicação, um certo equilíbrio entre os elementos mais e menos positivos da governação. A sua postura, no início do debate, algo curvada, com baixa gesticulação, passou a sensação de que carregava um peso excessivo nos seus ombros, gerando uma percepção junto do eleitorado, que lhe pode ter sido menos favorável.

6. António Costa, começou a sua narrativa com dinâmica na voz, boa gesticulação, estabelecendo contacto visual com o grande público e, por isso, trouxe um ar fresco ao debate. Respondeu directamente à questão da jornalista, que lhe perguntou o que correu mal na sua governação, sendo que o tema que escolheu pode ser atribuível, mais a circunstâncias externas, do que ter sido fruto da sua acção governativa. Relevou, assim, sagacidade na resposta, pois evitou uma colagem negativa inicial. O facto de não ter fugido à pergunta da jornalista, conferiu-lhe o espaço necessário para estabelecer, de seguida, uma ponte para aquilo que correu bem. Revelou uma baixa expressividade na face, factor que seria desejável corrigir como forma de se ligar mais eficazmente aos potenciais eleitores. Por fim, é de salientar que é portador de um tom de voz grave e pujante, do qual mais uma vez se valeu, para criar uma percepção de autoridade junto do eleitorado.

Artigo de opinião de António Sacavém, professor da Universidade Europeia e IPAM

Deixe aqui o seu comentário