Borja Echevarría: Não há um modelo único na transição dos jornais para o digital

Por a 11 de Novembro de 2013

O editor executivo-adjunto do El País, que trabalha no processo de transição deste jornal espanhol para o digital, afirmou este sábado que não há um modelo único para esta mudança, defendendo que a solução deve encontrar-se dentro de cada meio. O jornalista Borja Echevarría falava este sábado em Lisboa, no segundo dia da conferência internacional “O Regresso do Jornalismo”, que termina no domingo, na Escola Superior de Comunicação Social.

Em declarações à agência Lusa, Echevarría defendeu que “não há um modelo único” de transição dos jornais para a Internet, mas antes “múltiplos modelos de organização de redacções, de modelos de negócio”, nos quais, considera, os jornalistas devem participar. “A solução deve encontrar-se dentro de cada meio, de acordo com o mercado, com a personalidade do meio, com aquilo que quer ser o título”, defendeu.

Para este jornalista – que foi, durante o último ano, bolseiro da Nieman Foundation for Journalism, em Harvard (EUA), onde estudou a problemática da rentabilidade do jornalismo ‘online’ – “é um problema que um meio tente reconverter-se sem recursos”. Isto, explicou, “porque estão em causa conteúdos de valor, que é o que mais custa – criar boas histórias, ter bons jornalistas”. Se o meio não tem recursos para sustentar esses conteúdos de valor, e se a isso se junta um mercado publicitário em queda, a par da queda das vendas do título, acrescentou, o processo “é muito complicado”.

“É importante que as empresas se dêem conta de que têm de investir em conteúdos, no jornalismo. É fundamental para torná-las viáveis. Porque, em caso contrário, todos os meios vão fazer o mesmo, um produto de um valor medíocre, e disso há muito na Internet, à distância de um clique, sem custos”, acrescentou. Borja Echevarría considerou ainda que “é muito complicado que os jornais de publicação diária tenham uma vida muito longa nesta era da Internet”, lembrando que “a publicação diária de um jornal tem custos elevadíssimos”, que se agravam com a quebra na venda de exemplares: “Ou se imprime acima de determinado nível, ou vai chegar um momento em que já não compensa”, disse. Contudo, referiu também, “há determinados modelos nos quais o papel continua a funcionar”, nomeadamente em revistas: “Em Espanha estão a surgir publicações em papel interessantes. Se vão ou não ter vida depende do modelo de negócio que se construa”, acrescentou.

Durante a sua intervenção, Echevarría falou do seu falido projeto de notícias – Soitu.es – que, embora tenha recebido dois prémios da Online News Association, acabou por não resultar porque, explicou, a equipa se lançou no digital com demasiados pressupostos do modelo de negócio tradicional dos média: uma equipa que, para uma empresa em nascimento, estava sobredimensionada, uma exclusiva dependência das receitas da publicidade, e um único accionista.

O jornalista deixou ainda 10 ideias para a mudança do papel para o digital: transformar a cultura da redacção, mudar processos, colocar o leitor no centro da equação, abrir portas a novos talentos digitais, colocar a inovação e a tecnologia como prioridade da redação e criar múltiplas fontes de rendimento. Mudar as dimensões, potenciar as marcas individuais (nomes dos jornalistas e dos bloggers), apresentar um conteúdo diferenciado e comunicar permanentemente aos leitores e aos jornalistas que caminhos se estão a seguir, completam a lista de ideias. A intervenção do jornalista Borja Echevarría, que desde 2010 trabalha no processo de transição do El País para o digital, intitulou-se “Pode o jornalismo digital ser rentável? À procura de modelos que funcionem”. (Lusa)

 

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