Carta a um estudante de comunicação

Por a 14 de Outubro de 2013

Diogo Madeira da Silva

Jovem, lamento informar mas vais ter uma vida profissional difícil. E quanto mais cedo encarares a realidade, melhor.

Podem ser várias as motivações que te levaram a um curso de Comunicação. Podes estar aqui porque pensas que as Relações Públicas são uma coisa engraçada, queres fazer anúncios espectaculares, pensas que isto se faz sem esforço ou porque são cursos com miúdas giras. Destes quatro exemplos a boa notícia é que o último é verdade, a má é que os outros não são bem assim.

Vais perceber que há diferenças entre as relações públicas das festas ou discotecas e a Comunicação Empresarial. Que Comunicação e Marketing são coisas diferentes, ainda que várias empresas chamem Marketing a Departamentos que apenas fazem Comunicação (ou nem isso). Vais perceber que nem todos os trabalhos passam por fazer campanhas inspiradoras ou gerir patrocínios a eventos de alto perfil e que nem todas as empresas são a EDP, a Vodafone ou a Red Bull.

A tua carreira pode seguir vários rumos, mas o princípio será duro. Até pode ser fácil arranjar um primeiro estágio, com sorte remunerado. Se estiveres apto para um estágio do IEFP será mais fácil ainda (tal como se tiveres amigos ou família que ajudem a desbloquear contactos). Podem-se seguir outros estágios, até, com sorte, começares a saltar de contrato em contrato. Vais perceber que há empresas que alimentam as áreas de Comunicação à base de estagiários. Vão-te pedir, exigir até, que sejas um super-homem. Que escrevas bem, sejas criativo, domines várias línguas para fazer traduções, sejas bom a gerir clientes, tenhas conhecimentos de design, web design, redes sociais, bases de dados, HTML, CSS, PHP, SEO, e por aí fora… Que sejas quatro funções numa só, uma espécie de tudo-em-um-pelo-preço-de-meio.

Podes chegar a pensar que se vendesses electrodomésticos num centro comercial ganhavas o mesmo, sem metade do stress. Mas vais ter a cenoura das oportunidades de evolução e do potencial de crescimento da área ou empresa onde trabalhas. As perspectivas de futuro estarão sempre lá e “se as coisas correrem bem serás premiado, só tens é que acreditar”.

Vais também reparar que há muita gente convencida que percebe muito do teu trabalho, mesmo que a sua função não tenha nada a ver com o tema. Também pode acontecer que desvalorizem o que fazes porque, no seu entender, não decides nada de importante para o negócio.

Entre as tuas armas estará a tua capacidade de juntar a competência técnica ao conhecimento do sector da tua empresa ou dos teus clientes. Consumirás informação diariamente – e se não gostas de o fazer muda de área, já – porque a cultura e o conhecimento não se disfarçam com jogo de cintura ou jeito para falar.

Acima de tudo tens de perceber isto: a comunicação é instrumental e não está no core business da maioria das empresas. Por isso é algo enquadrado nas áreas de suporte, o que faz com que seja fácil externalizar ou complementar estas funções através de agências ou consultores.

As empresas não vendem comunicação, vendem outra coisa qualquer. Precisam de comunicar bem porque têm necessidade e ambição de vender mais e melhor, sejam parafusos, carros, desodorizantes, serviços financeiros ou outra coisa qualquer. O que nos leva para o grande desafio da tua vida profissional: provar de forma tangível o valor e o retorno do teu trabalho.

O facto de não estares no centro da actividade da empresa – mas antes do lado em que se gasta dinheiro, aos olhos de muitos – fará com que dificilmente chegues ao topo, mesmo que chegues perto dos centros de poder, por exemplo trabalhando próximo do CEO.

Não estou a dizer que não é uma área interessante. Mas o ajuste das expectativas à realidade é o primeiro passo para ter sucesso no mundo do trabalho. No entanto e como disse Daniel Webster: “se me tirassem tudo excepto uma coisa, escolheria manter o poder de comunicar, porque com ele cedo recuperaria tudo o resto”.

Artigo de Diogo Madeira da Silva (consultor)

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