«Muitos media com conteúdos medíocres não resistirão a fazer-se pagar por eles»

Por a 21 de Dezembro de 2010

António Granado, coordenador das redacções online da RTP, docente de jornalismo e autor do blogue Ciberjornalismo, faz um retrato das ‘promessas’ que não se cumpriram no digital e traça 10 tendências de evolução para o sector.

Meios & Publicidade (M&P): Que tendências foram apontadas como potencialmente transformadoras no digital/online e que acabaram por ou não se concretizar ou não ter a implementação prevista em 2010?

António Granado (AG): Alguns analistas previram que, em 2010, o investimento na área online cresceria para os níveis equivalentes ao seu peso nos orçamentos dos diversos órgãos de comunicação social. Apesar das expectativas, o sector online continua a ser o parente pobre dos diversos media, ainda que contribua já com cerca de dez por cento dos proveitos das empresas. A maioria das redacções online portuguesas continua a funcionar com poucos jornalistas, mal pagos, sem acesso a formação e materiais adequados.

A procura do modelo de negócio para o online continuou a ocupar, em 2010, a maioria das conversas e das conferências sobre o ciberjornalismo. Os próprios jornalistas e as direcções editoriais envolveram-se nessas discussões, como se essa fosse a sua função primordial. Passou para segundo plano a procura e o exercício do bom jornalismo, sem o qual nenhum modelo de negócio sobreviverá.

M&P: Que tendências vão emergir no próximo ano?

AG: Sem pretensões de tentar adivinhar o futuro (um dom que infelizmente não possuo), aponto dez tendências para 2011 que me parecem estar já a desenhar-se no horizonte:

1. Os media mais atentos apostarão definitivamente nos conteúdos móveis. Criarão aplicações para todas as plataformas e ganharão visibilidade e audiência.

2. Muitos media com conteúdos medíocres não resistirão a fazer-se pagar por eles, como se fosse possível enganar os utilizadores. Perderão em influência e em publicidade.

3. Os serviços informativos geolocalizados arrancarão definitivamente, fazendo uso das capacidades cada vez maiores dos telemóveis que já aí estão.

4. A continuada redução do tamanho das redacções fará surgir projectos jornalísticos de nicho e hiperlocais que, em última instância, ameaçarão a sobrevivência dos próprios media tradicionais.

5. Os conteúdos jornalísticos de qualidade continuarão a ser a tábua de salvação dos media. Quem não for capaz de os produzir, e continuar a insistir no marketing pelo marketing, afundar-se-á muito depressa.

6. O iPad e os outros tablets não serão por si só a salvação dos jornais. Produzir para estas plataformas exige recursos, imaginação e conteúdos de muita qualidade. A concorrência será feroz, e só os mais capazes sobreviverão.

7. O vídeo continuará a sua escalada como o conteúdo mais procurado pelos utilizadores. Os media terão de saber lidar com esta tendência e preparar conteúdos na área, recorrendo a profissionais especializados, se é que ainda os não têm.

8. As redes sociais continuarão a ser uma plataforma privilegiada para a divulgação dos conteúdos dos media. As novas narrativas que estas redes proporcionam poderão ser exploradas com êxito por aqueles que se prepararem para o desafio.

9. A venda de produtos e serviços poderá ser uma das principais actividades dos media durante o próximo ano. Mais do que simples conteúdo noticioso, os utilizadores querem informação útil às suas vidas e estão dispostos a pagar por isso.

10. A utilização de conteúdos gerados pelos utilizadores continuará a aumentar. Assim como aumentará o chamado jornalismo de bases de dados, ou “data journalism”, permitindo o tratamento noticioso de enormes quantidades de informação.

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