Especial Gráficas – As máquinas estão a parar?

Por a 16 de Julho de 2010

“Temos um verdadeiro cocktail que obriga a muita imaginação e esforço para ultrapassar esta caminhada que, na minha opinião, não tem retorno e será antes a nova forma de se encarar e lidar com os negócios.” A afirmação que de certa forma resume o clima de dificuldades que se vive no sector das empresas gráficas da área da comunicação e publicidade pertence a Pedro Jacques de Sousa, administrador da Impression Portugal, empresa que tem assegurado, entre outros trabalhos, a decoração dos Cannes Lions. Por cocktail, o administrador refere-se ao momento actual do sector, que “ultrapassa fortes desafios com o aumento dos custos e a redução dos proveitos, seja pela diminuição de volume, seja pela redução do preço comercial do mercado, ao que se junta o constrangimento financeiro dos investimentos e de tesouraria”. “O momento actual da indústria gráfica não foge ao do restante tecido empresarial português, está em crise”, considera também Pedro Santos, administrador da Ocyan, que aponta um estudo recentemente apresentado pela associação do sector, a Apigraf, para referir que esta crise não é de agora. Segundo o estudo, com base em dados de 2007 em comparação com 2005, “já nessa altura se notava uma diminuição do número de empresas gráficas, menos 700 em dois anos, uma forte diminuição de postos de trabalho (-9,91 por cento) e uma quebra no volume de negócios cifrada em 1,8 por cento”. “Temos por isso um sector em crise, ainda antes da crise”, sublinha Pedro Santos. Recessão que se intensificou nos últimos dois anos, já que “existe uma quebra generalizada na procura e o excesso de oferta tem obrigado os players a adaptarem-se a um mercado cada vez mais influenciado pelo critério preço”, afirma Vasco Leite, responsável da Power House, empresa gráfica do grupo Ativism, que alerta para o facto de este ser “um momento decisivo para o sector, uma vez que as empresas que se focarem apenas no preço e não apresentarem serviço integrado e sobretudo inovação, dificilmente conseguirão sobreviver”. José Augusto Constâncio, director-geral da Eurodois, diz também notar-se “uma grande retracção no sector gráfico. Por outro lado, a capacidade instalada não foi reajustada em relação às reais necessidades do mercado, o que provoca uma oferta largamente superior à procura e um abaixamento sucessivo dos preços”.

O impacto da crise

Apesar de todos os players contactados pelo M&P reconhecerem a gravidade da crise no sector, a verdade é que poucos admitem ter sofrido quebras, sendo que alguns revelam mesmo estar a crescer. “Não estamos a ter quebra, estamos a ter um crescimento significativo face ao mesmo período do ano passado”, assegura Vasco Leite. Questionado sobre valores de facturação e volume de negócios, o responsável da Power House escusa-se a adiantar números concretos. “A única coisa que posso acrescentar é que felizmente existiu, no primeiro semestre, um aumento de facturação face ao mesmo período do último ano”, diz. O mesmo se passa do lado da Ocyan, cujo administrador, Pedro Santos, garante que “não houve quebra no volume de facturação, antes pelo contrário já que além da Gpi e da Prodigit, criámos a Gio, uma nova unidade de negócio dedicada à impressão offset, que veio incrementar em cerca de 40 por cento o volume de negócios do grupo”. “No nosso caso estamos a crescer, embora com valores inferiores a anos anteriores, mas a conquista de novas contas e alguns clientes com aumento de investimento permitem superar aqueles que reduziram volume”, explica Pedro Jacques de Sousa. Também Samuel Henriques, responsável da Global Imagem, assegura não ter sofrido “quebras significativas. Devido ao facto de a crise já estar instalada no ano passado e as empresas já terem começado a fazer cortes, pode dizer-se que de um ano para o outro não há grande diferença”, justifica.

No entanto, contra a corrente surge José Augusto Constâncio, que não se mostra relutante em assumir as quebras: “Estamos, neste fim do primeiro semestre, com uma quebra muito significativa comparativamente com o mesmo período do ano anterior. Nota-se em todas as áreas, mas penso que a área da impressão será seguramente uma das mais afectadas”. O director-geral da Eurodois detalha que “pelos nossos registos estamos com uma quebra na ordem dos 30 por cento”. Posição partilhada por Paulo Pousão Silva, responsável de marketing da B2R, que revela que “os últimos meses de 2009 já não foram positivos e essa tendência tem-se verificado também no início de 2010, onde os valores de facturação, comparativamente a períodos homólogos, têm sido inferiores”.

Onde estão os cortes?

Mesmo com vários operadores do sector a sacudir o impacto da crise e a garantir não ter quebras, todos conseguem apontar o dedo aos segmentos e aspectos em que os cortes do lado dos clientes têm sido mais evidentes. “O que mais temos sentido nos casos de corte é a redução do número de acções, mas todas as técnicas são válidas para reduzir os custos. Não menos importante é a tentativa de negociação do preço, o que leva à forte redução do valor do produto”, sublinha Pedro Jacques de Sousa. Esta diminuição do volume é, aliás, ponto comum às preocupações de quase todos os players. Os cortes verificam-se “nas quantidades, mas temos tido sempre o cuidado de explorar novos formatos e novas soluções para continuar a acrescentar valor e marcar a diferenciação do produto final”, aponta Vasco Leite, frisando, contudo, que “a impressão vai ser sempre necessária, diminuem as quantidades mas aumenta a procura pela diversidade de soluções e de peças”. Além da “redução das tiragens”, Pedro Santos, da Ocyan, destaca ainda outro aspecto: “O maior impacto é, sem dúvida, a ainda maior dificuldade em receber dentro dos prazos acordados, um verdadeiro flagelo”, lamenta. “Os cortes notam-se em todas as rubricas, no entanto, acho que a mais sacrificada tem sido a redução drástica das quantidades no número de exemplares dos trabalhos impressos”, refere também José Augusto Constâncio.

No que se refere a segmentos, Pedro Santos considera que é “a área dos grandes formatos que está a ser mais afectada, porque neste momento a oferta é superior à procura. Muitos equipamentos instalados e menos produção levam a que se cometam autênticas loucuras”. “Entendo que o grande formato e o ponto de venda possam sofrer menos do que o pequeno formato”, acredita, por seu turno, Pedro Jacques de Sousa, explicando que “uma situação de mercado mais competitiva e com redução de procura, leva a que as marcas procurem manter a sua comunicação exterior e o contacto directo com o consumidor no ponto de venda”. “No seio das empresas e na sua organização, por não serem visíveis, podem fazer-se cortes que não são possíveis no exterior ou na relação com o cliente, como é o caso da banca, onde se pode fazer cortes no back-office mas não no balcão. A área do out-of-home deverá sofrer menos do que outros sectores ou áreas com menos impacto directo na relação com o consumidor”, considera o responsável da Impression.

A resposta do sector

Perante as dificuldades, as empresas do sector tentam adaptar-se e responder às expectativas dos clientes que, também eles em crise, procuram as melhores soluções financeiro e técnicas e tornam-se cada vez mais exigentes com a relação qualidade/preço. Ainda assim, questionados sobre a necessidade de avançar com medidas relativamente a políticas de preço, nenhum dos players responde positivamente a soluções que envolvam revisão de preços, pacotes promocionais ou descontos, preferindo focar-se noutros aspectos. Afinal, qual é o caminho a seguir? “Inovação. Continuamos a apresentar aos actuais e novos clientes soluções inovadoras, a envolver os clientes nas soluções e no produto final”, indica Vasco Leite. Do lado de Pedro Jacques de Sousa, a opinião mantém-se: “É preciso inovar, melhorar os serviços e a competitividade para sobreviver nesta difícil maratona”, aponta, referindo ainda que “quando o mercado não cresce, é preciso ganhar quota, pelo que temos de usar as técnicas dos nossos clientes para conquistar mercado chegando ao ponto de criar a necessidade do produto”. Para Pedro Santos, a crise só poderá ser enfrentada “através de um acompanhamento personalizado de forma a dar aos clientes a melhor solução qualidade/preço para cada situação. A vantagem de termos um portfólio diversificado de tecnologias e equipamentos permite-nos optar por aquela que mais se enquadra com as necessidades dos clientes”.

Ao nível de iniciativas concertadas do sector, José Eduardo Carragosela, secretário-geral da Apigraf (Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas, de Comunicação Visual e Transformadoras do Papel), destaca “duas iniciativas de relevo, assumidas a nível nacional e integradas numa acção pan-europeia, nas quais participamos juntamente com os editores, o Print Power e a Two Sides”. “A campanha portuguesa do Print Power conta com a colaboração das diversas entidades da cadeia de valor do papel e gráfica, evidenciando em particular junto dos clientes do sector por que razão a impressão é uma excelente opção para, isoladamente ou em conjunto com outros meios de comunicação, obter o melhor retorno do investimento e estabelecer um contacto eficaz e duradouro com o consumidores”, explica. Já a campanha Two Sides, que se enquadra no mesmo projecto, tem como objectivo “evidenciar junto de todos quantos contactam com a actividade do sector, o facto de o papel, suporte primordial da impressão, ser uma opção ambientalmente sustentável, desmistificando conceitos errados, destacando o facto de o papel e a impressão serem dos poucos materiais que podem ser completamente reciclados”. No entanto, apesar de todos os esforços no sentido de inovar e dar novas soluções aos clientes, José Augusto Constâncio, da Eurodois, admite que é o preço que está no centro das atenções no momento que atravessamos e deixa um alerta, referindo que “apesar de termos tomado algumas medidas que passam por diversificar e acrescentar mais valor ao produto e por soluções completas, com introdução de equipamentos de acabamento e impressão digital, a grande guerra neste momento passa por oferecer o preço mais baixo do mercado, o que a nível futuro não pode ser a solução”.

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