Um acordo a meio gás

Por a 25 de Junho de 2010

Entre “um disparate”, um acordo “sem pés nem cabeça” e que “sempre foi justificado politicamente” e não por questões de ciência e uma “grande oportunidade para abraçar um mercado de 250 milhões de leitores” as opiniões sobre o novo acordo ortográfico dividem-se. Até 2014 o acordo terá de estar implementado em Portugal, o que significa que, desde manuais escolares a jornais, e tudo o que seja comunicação escrita terá de sofrer alterações para acomodar as modificações decorrentes do acordo que visa unificar em termos de ortografia a língua portuguesa nos diversos territórios PALOP. Aprovado na Assembleia da República em Maio de 2008 e promulgado pelo Presidente da República em Julho do mesmo ano, o acordo tem tido um ritmo de implementação nos media nacionais, no mínimo, lento. O Record foi dos títulos pioneiros, tendo avançado em Janeiro do ano passado com este processo. “Assim que o Presidente da República promulgou o diploma aprovado pela Assembleia da República, a aplicação da lei tornou-se uma inevitabilidade em Portugal. Íamos ficar à espera de quê?”, justifica Alexandre Pais, director do desportivo da Cofina. “Gostamos que o leitor saiba que o Record procura ser, em tudo, o primeiro. O deixa-andar nunca é um bom sinal para o mercado. Seja no que for”, acrescenta quando questionado sobre o que motivou este avançar tão imediato na adopção do acordo. “A aceitação foi muito boa, com excepção dos que vivem na permanente ilusão de fazer com que os rios não corram para o mar. Mas com a adopção progressiva do acordo por parte dos outros títulos, talvez já tenham começado a desconfiar que vão perder mais uma vez…”, diz o responsável sobre a aceitação do processo junto dos leitores. Seis meses depois o título ainda é caso único nos desportivos. N’ O Jogo a mudança para a nova ortografia ainda não aconteceu e “não temos qualquer previsão sobre isso”, admite ao M&P Manuel Tavares, director do desportivo da Controlinveste. “Achamos que é uma questão prematura”, afirma, acrescentando que aguardam uma definição do grupo sobre esta matéria. “Se for caso disso apressamos o processo”, mas “não é uma questão que nos preocupe”. “Temos um colaborador brasileiro no jornal e ele próprio não adoptou [o novo acordo]”, comenta o director de O Jogo. O novo acordo entrou em vigor no Brasil no início de 2009, tendo o mesmo já sido ratificado por Timor-Leste, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Angola e Moçambique ainda não ratificaram o mesmo.

O lento ritmo da adopção na imprensa e na TV

“Em 2012 temos de lá estar”, afirma João Marcelino, director do Diário de Notícias e director-geral editorial da Controlinveste. “Sentimos que este não é o momento certo para o fazer”, acrescenta o responsável. João Marcelino relembra que há um prazo alargado para a implementação do acordo, de que “há um período de aprendizagem” que tem de ser acautelado, não só do lado dos media, mas também do próprio público, além de que o processo implica “a compra de licenças”, custo que também tem de ser ponderado. “Não é um tema fundamental para os órgãos de comunicação social: está para os media como o casamento de pessoas do mesmo sexo estava para Cavaco Silva”, ironiza o director do Diário de Notícias.

Na Cofina, apesar de apenas o Record e o Correio da Manhã (com alguns conteúdos, mais concretamente artigos de opinião) terem posto em prática o novo acordo, Luís Santana garante que “todos os meios do grupo Cofina Media vão adoptar o acordo até à sua plena entrada em vigor”. A decisão sobre o momento da mudança, diz o administrador, “depende da direcção de cada publicação”, pois os meios “têm independência editorial”. “As direcções dos títulos dotarão as suas equipas e jornalistas dos meios que considerarem ser necessários para o efeito. Os custos adicionais decorrentes da transição não serão significativos, estando ligados principalmente à actualização de software e à necessidade de adaptação dos colaboradores às novas regras de escrita”, precisa o responsável.

Na unidade de imprensa do grupo de Francisco Pinto Balsemão a decisão de avançar foi em bloco, atingindo toda a área administrativa e os títulos da Impresa Publishing. O processo de implementação teve início no passado dia 8, estando prevista a sua conclusão no próximo dia 28, tendo envolvido a distribuição de manuais/prontuários pelas diferentes áreas do grupo, a substituição dos dicionários, a instalação de novos correctores ortográficos, tendo ainda sido ministrados em Maio cursos de formação sobre o novo acordo ortográfico. A aplicação do acordo teve ainda impacto na grafia do suplemento de cultura do Expresso que vai deixar cair o C até apresentar-se como Atual. O mesmo não vai ocorrer com a revista Activa, já que a direcção editorial da revista feminina “optou para já não alterar a ortografia do nome”, justificou na altura a empresa em comunicado.

Fora da decisão do grupo Impresa está a área de televisão. Na SIC, diz Luís Marques, ainda não há uma data para a implementação do novo acordo ortográfico nas diversas plataformas onde a marca está presente, nem esse assunto foi ainda discutido com os outros canais generalistas em sinal aberto. Avançar para esta adopção não implica “dificuldade nenhuma. O que é necessário é um entendimento entre os operadores. Quanto aos custos, não têm peso na decisão”, afiança o director-geral da SIC. O M&P tentou obter um comentário da TVI e da RTP sobre esta matéria, mas tal não foi possível em tempo útil. Na Fox International Channels o tema ainda não chegou aos canais que a empresa distribui em Portugal, não havendo ainda data para a nova ortografia ficar visível nos canais Fox, Fox Life, Fox Crime, Fox X, Fox Net e National Geographic, diz fonte oficial da empresa ao M&P. Havendo uma data “a actualização será feita à medida que haja novos conteúdos”. “Tudo o que haja de conteúdos para trás irá manter-se [com a antiga ortografia]”, afirma.

Abrir novos mercados

Na Lusa, os takes da agência noticiosa já apresentam a nova ortografia desde 30 de Janeiro. “Enquanto produtores de conteúdos noticiosos [o acordo] dá-nos a oportunidade de alargar a outros mercados noticiosos”, defende Luís Miguel Viana, director de informação da Lusa. Esta decisão, que o responsável da agência noticiosa classifica de “estratégica”, permite que “o nosso mercado salte de repente dos 10 a 14 milhões [contando com as comunidades emigrantes] para um mercado de 250 milhões”, diz, o que classifica de uma “grande oportunidade”. A agência, que no Brasil trabalhava com a PrimaPágina para a adaptação dos takes da Lusa do português de Portugal ao do Brasil – “o que era uma barreira efectiva à percepção dos conteúdos portugueses” -, deixou de o fazer desde Dezembro, desaparecendo esse custo, descreve Luís Miguel Viana. Na Lusa o processo de adaptação começou a ganhar forma em Abril do ano passado com acções de formação para os jornalistas da agência, seguida de sessões de workshops mais intensivas em Outubro/Dezembro, processo no qual contaram com a colaboração do Ciberdúvidas e com os profissionais do Instituto de Linguística Teórica e Computacional, organismo a quem o Governo entregou a elaboração de um Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Mais de 300 colaboradores (entre funcionários da Lusa e colaboradores externos à peça) de Norte, a Sul do país, bem como ilhas e correspondentes internacionais passaram por este processo de formação. Em Janeiro, além de umas “acções de formação relâmpago”, foi também a altura de se instalar os novos correctores ortográficos, descreve Luís Miguel Viana. O investimento da agência neste processo foi “francamente baixo”. A Lusa pagou as acções de formação, tendo o software sido cedido pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional. Com o fim do acordo com a empresa PrimaPágina, “completado este ano, teremos recuperado as despesas realizadas com a formação”.

Passados menos de seis meses da aplicação deste acordo na agência noticiosa, Luís Miguel Viana faz um balanço positivo deste processo, destacando o facto de apesar das polémicas em torno da adopção do novo acordo – com escritores como José Saramago e Vasco Graça Moura a anunciarem recusar-se a adoptar este acordo (“o que só dá outra graça à sua escrita”), e abaixo-assinados a chegaram à Assembleia da República) – o “verdadeiramente interessante é o silêncio e a tranquilidade absoluta” sobre o assunto, garantindo que a Lusa não recebeu uma “única queixa” dos clientes, cuja grande maioria ainda não adoptou o acordo.

No Público as palavras ‘novo acordo ortográfico’ são non gratas. Em editorial datado de 30 de Dezembro, o jornal dizia-se incapaz de entender a necessidade e as vantagens de uma norma global para o português e, por conseguinte, decidiu não adoptar o acordo e, passados quase seis meses, mantém a sua oposição. “Enquanto for possível”, garante o director-adjunto Nuno Pacheco, o jornal não irá adoptar a nova ortografia que o responsável considera um “disparate” e um acordo político. No título apenas as crónicas de Vital Moreira e Rui Tavares, “dois defensores” do acordo, registam as novas regras, mas Nuno Pacheco questiona a própria necessidade de unificar a língua portuguesa: “A língua inglesa e francesa têm versões de ortografia diferentes e não os vê preocupados em fazer um acordo ortográfico”, além de que “as línguas tendem para a diversificação” e não para a unificação. Nuno Pacheco refere a “própria musicalidade das palavras” e da estrutura de escrita nos diferentes países lusófonos. “Não é por deixar de escrever acto e passar a escrever ato que isso vai mudar”, mais, argumenta, “a grafia não deve atraiçoar a forma como a língua foi evoluindo”. E a questão de abrir aos grupos de media portugueses a um novo mercado? “Isso é uma parvoíce. Se fizer uma comunicação nas Nações Unidas sobre cancro, fala em cancro ou câncer? E de comboios? Diz comboio ou trem? O acordo ortográfico resolve o quê aqui?”, questiona o director-adjunto do Público.

– “Mais um motivo de união em termos de língua”

A Associação Portuguesa das Empresas de Publicidade e Comunicação (APAP) não vai emitir nenhuma recomendação às agências associadas para a adopção do acordo ortográfico. “É do foro de cada uma das agências”, frisa Sofia Barros, secretária-geral da APAP. O acordo é algo “pacífico” e “vai ser mandatório para toda a gente”, relembra a responsável da APAP. Mais, argumenta Sofia Barros, a APAP é membro da Confederação da Publicidade dos Países de Língua Portuguesa e, como tal, o novo acordo é considerado como “mais um motivo de união em termos de língua”.

Deixe aqui o seu comentário