Luzes, câmara… Acção!

Por a 22 de Janeiro de 2010

O ano mudou, mas a crise parece não querer arredar pé. E como na quase generalidade dos sectores, também o mercado de aluguer de equipamentos e prestação de serviços audiovisuais já viu melhores dias. “A crise afectou o mercado do aluguer, com o corte de orçamento disponível para eventos, mas com o decorrer do ano de 2009, os decisores empresariais perceberam que não poderiam funcionar e motivar os seus funcionários sem abrir os cordões à bolsa.” Quem o diz é Manuel Salgado, director da Vilicri, empresa criada em 1994, que actua no mercado de aluguer de equipamentos audiovisuais, para reuniões, conferências, espectáculos, feiras e iluminação arquitectural. Este profissional admite que 2009 foi um ano de diminuição de facturação em relação a 2008, “mas também de novas ideias e investimentos, aumento da qualidade dos serviços e esforços redobrados para tudo correr bem”. Houve ainda, segundo descreve, mais cuidado com os recebimentos de modo a haver um equilíbrio dos cashflows.Vítor Marques, director de investigação e desenvolvimento da Duvideo, empresa criada há 25 anos, diz que a prova de que a crise está instalada é a “enorme pressão para baixar os orçamentos de produção”. Há pois uma desafio na ordem do dia para fazer mais depressa, mais barato e com melhor qualidade.

Salvador Sequeira, director comercial da Audiomeios, projecto nascido em 1994, corrobora que a crise se instalou neste sector. Este profissional argumenta que houve uma descida desenfreada de preços por parte de algumas empresas por forma a fazer frente a dívidas de curto prazo, “o que afecta bastante o sector, pois os preços descem sempre acompanhados de um serviço menos perfeito”. Salvador Sequeira não esquece também a falta de liquidez no mercado que “é outra das consequências da crise…” A Audiomeios, que nos primeiros tempos se dedicava ao aluguer de equipamento audiovisual, quase que um serviço “peça a peça”, com a evolução do sector passou a oferecer soluções audioviuais integradas adequadas a cada evento ou projecto. Essas soluções “são construídas em conjunto com os nossos parceiros em processos muito dinâmicos e muitas vezes executados num curto espaço de tempo”, garante Salvador Sequeira, que trabalha com três tipos de parceiros: clientes finais, organizadores/produtores de eventos e Estado. “Cada um com diferentes necessidades, sendo que todos se pautam pela exigência máxima”, acrescenta Salvador Sequeira. E apesar dos serviços terem crescido bastante para a área publicitária e das relações públicas, o director comercial não tem dúvidas em afirmar que o core business se mantém na área das soluções audiovisuais para congressos e eventos.

Mais casos

Na Etnorumos a crise económica é vista de um prisma diferente. Tiago Pombo, sócio gerente da Etnorumos, acredita que este sector tem passado mais ou menos ao lado da dita crise. Esta empresa, nascida em Novembro de 2005, move-se na área dos eventos e congressos, sendo ainda procurada para seminários e workshops. O seu principal alvo é a industria farmacêutica, geralmente para promover as suas descobertas e medicamentos.

Também ao lado da crise parece mover-se a Dubvideo que, segundo as palavras de João Carrilho, sócio-gerente/director criativo e executivo da empresa, não sente que os esteja a afectar, tendo a empresa continuado a crescer em 2009 embora a um ritmo inferior. “O meio é tão fresco que se permite conviver com a crise.” Mas sublinha que afirma-o por “gozar de um posicionamento que não tem praticamente concorrência em Portugal: atelier transversal de artes audiovisuais”. Este profissional salienta que a Dubvideo não é apenas uma empresa de equipamentos. “Somos também um atelier transversal que produz vídeos e usamos os nossos equipamentos para fornecer serviços completos, chave-na-mão”. De qualquer forma, admite “alugamos, vendemos e prestamos consultoria na área de equipamentos audiovisuais de forma independente”. A empresa tem a sua génese em 1998 quando um grupo de três criativos a trabalhar na área de VJ fez um show de música e vídeo no Jumbotron da Expo 98. VJ, filmes corporativos, design gráfico, motion design, projectos de visuais (instalação e conteúdos) para bandas de música e DJs, eventos corporativos, festivais, instalações permanentes de vídeo, som e luz são algumas das suas actuais áreas de actividade.

Outra das empresas deste sector é a EMAV – Empresa de Meios Audiovisuais, criada em Setembro de 2001 para funcionar como empresa de meios da actual Plural Entertainment, que actua desde então em todas as áreas do mercado audiovisual e que entre os seus equipamentos conta com carros de exteriores, vídeo, áudio, iluminação, maquinismos e geradores. “Dado que nosso principal cliente é a Plural Portugal e esta manteve o ritmo de produção de trabalhos que fornece para o mercado, em virtude de uma adesão consolidada dos espectadores portugueses principalmente à ficção por nós produzida, não temos sido grandemente afectados pela crise”, garante fonte da Plural ao M&P. A empresa refere que os seus equipamentos são em primeiro lugar solicitados pela Plural para fazer face às diferentes produções. “Por isso, e dado que o nosso know-how e equipamento têm sido orientados fundamentalmente para a área de ficção, somos muito solicitados também por todas as outras produtoras nacionais a trabalhar nesta área”. Nos últimos anos, e na sequência de uma modernização e reestruturação da Plural Entertainment, a EMAV começou também a explorar outros segmentos do mercado. Assim, junta aos eventos desportivos, religiosos ou políticos que já trabalhava, as áreas de espectáculos, entretenimento e publicidade.

“Nesta última, estamos mesmo a trabalhar com tecnologias de última geração, utilizando, por exemplo, câmaras RED para uma qualidade competitiva no mercado concorrente da publicidade”, garante fonte da Plural, acrescentando que o investimento tecnológico é acompanhado da formação dos profissionais. Entre os clientes desta empresa estão estações de televisão (gravações ou transmissões em directo de eventos desportivos, religiosos, políticos), produtoras (Valentim de Carvalho, SP Televisão, Grupo Nova Imagem, Mandala) que fazem o aluguer de equipamento ou carros de exteriores para gravação das suas produções, e empresas de aluguer de meios audiovisuais (Cinemate, Gripman, Medialuso, EPC) que fazem o aluguer de equipamento para complementar o equipamento próprio.

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Portugal bem apetrechado

Portugal tem tentado afirmar-se como um destino de excelência para a produção de eventos e são vários os exemplos de trabalhos bem sucedidos nesta área. Mas será que os players do mercado estão ao nível do que se faz na Europa e no resto do mundo? “Em nada ficamos atrás do que se faz no resto do mundo, quer em termos dos equipamentos quer em termos do serviço em si”, garante Salvador Sequeira, da Audiomeios. E vai mais longe ao afirmar que muitas vezes “fazemos melhor com menos budget”. Mas recorda que, para isso, há a ajuda dos “excelentes espaços para eventos que Portugal possui, bem como a qualidade das empresas organizadores que actuam neste sector”. E o director comercial identifica os quatro factores críticos de sucesso da Audiomeios. Primeiro a qualidade e experiência dos intervenientes técnico-comerciais que acompanham o cliente em todo o processo.

Em segundo, a qualidade dos equipamentos e o know-how para saber tirar deles o maior partido trabalhando sempre com a maior redundância e segurança. Salvador Sequeira refere ainda o conhecimento dos espaços para eventos existentes, sabendo exponenciar neles o melhor que têm e minimizar as suas fragilidades. Por último, saber adequar uma proposta audiovisual a um budget existente. E é esta noção que muitas vezes viabiliza a realização de um congresso ou de um evento.

Manuel Salgado, director da Vilicri, lembra que com a globalização e a internet tudo o que há lá fora está disponível no nosso país. E exemplifica com uma situação inversa, que aconteceu com a Vilicri perante um grupo francês, quando os responsáveis ficaram muito admirados com um projector de vídeo que na altura era do mais avançado e recente. Em França ainda não tinha sido lançado e cá já existia.

E há sempre a hipótese de quando não têm irem buscar fora determinados equipamentos. João Carrilho refere que no caso da Dubvideo, quando necessitam de equipamentos vídeo de grande formato (16K ou 20K) têm um parceiro em Espanha que supera o mercado português.

Apesar de concordar que Portugal está equiparado a outros mercados em termos de equipamento, Vítor Marques, da Dubvideo, alerta para o facto de Portugal não ter “uma indústria audiovisual digna desse nome o que pode levar a alguma falta de “tarimba” na completa utilização desses equipamentos e aplicações”. É como ter um smartphone e usá-lo apenas para fazer chamadas de voz.

Os espinhos da rosa

Mas nem tudo são maravilhas neste mundo de luzes e festa.

Os principais problemas são, na opinião de Manuel Salgado, director da Vilicri, a facilidade como, algumas pessoas vêem esta área como aquela em que “basta ligar uns fios, como faço lá em casa com o meu sistema de surround e TV”. Se tudo fosse assim, comenta, “seria uma maravilha”. A questão, explica Manuel Salgado, é que muitas vezes os clientes com menos conhecimentos, decidem os eventos pelo preço e não pela experiência e qualidade já demonstrados noutras ocasiões. O que na sua opinião “leva ao aparecimento das empresas pára-quedistas”. São empresas sem condições de segurança e de qualidade que se “desenrascam” até ao dia em que “acontece o impensável”.

Vítor Marques, o director de investigação e desenvolvimento da Duvideo, aponta para o facto de não existir uma indústria organizada e estratificada como tal neste sector, como um dos problemas existentes. E questiona: “Como distinguir uma pessoa que tem uma câmara de vídeo de baixa gama e um PC com uns programas de edição, “piratas” ou não, de uma empresa com anos de actividade, largo curriculum e provas dadas de responsabilidade e qualidade na sua produção? Qual a diferença entre produzir em 4:2:0, 4:2:2, ou 4:4:4? Quantos profissionais do mercado saberão o que isto quer dizer?”

A juntar a esta lista está, na opinião de João Carrilho, a falta de ligação entre cliente final e técnicos de audiovisuais. E este profissional explica que é para isso que lá estão. “Fazemos das ideias dos produtores de eventos uma realidade de ‘fácil’ execução e ajudamo-los com novas ideias, desde o primeiro brainstorming conceptual, ao guião do evento, até ao estudo mais viável dos meios técnicos para o concretizar e no final estamos lá com a nossa equipa e equipamentos a executar”, descreve.

Na área em que actua a EMAV, as estações de televisão têm vindo a adquirir a capacidade de produzir quase todos os programas internamente “o que deixa menos necessidade de recorrer a trabalhos a realizar pelos produtores e fornecedores independentes”, refere a Plural Entertainment, produtora da Media Capital, que detém a TVI. Daí que seja necessário explorarem outras vertentes além da produção para televisão.

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Afinal não são só umas luzes…

Vítor Marques, director de investigação e desenvolvimento da Duvideo, defende que a mais valia da sua empresa é o domínio do workflow HD nos seus múltiplos aspectos e formatos. E explica que a Duvideo já tem o seu workflow de produção, desde a aquisição de imagem até à entrega, baseado em ficheiros. “Mantemos a utilização de cassetes apenas para compatibilização com os sistemas mais antigos e o arquivo (10 mil horas em fase de digitalização)”, refere. “Utilizamos a tecnologia MXF, que nos permite associar dados nos mesmos ficheiros de media, facilitando muito a pesquisa. Utilizamos a importação em vez da digitalização, para os editores e compositores não lineares, reduzindo o tempo de ‘ingest’ para cerca de um terço a um quarto do tempo tradicional de digitalização.

Utilizamos um sistema de captação de imagem que ao mesmo tempo que gera a imagem broadcast gera ficheiros proxi, de muito menor peso em termos de megabytes, o que nos permite aceder e trabalhar com todo o material de media na rede Ethernet da casa”, descreve. Vítor Marques assegura ainda que conhecem bem as tecnologias com as quais trabalham, o que lhes permite diminuir custos de produção internos e dedicar mais tempo à criatividade e ao detalhe das produções.

A Vilicri tem como um dos seus porta-bandeiras, a disponibilização de equipamentos topo de gama de que o evento onde estão instaladas tenha o máximo impacto.

“Temos noção de que o cliente necessita sempre de dispor dos equipamentos mais recentes, e por isso fomos, por exemplo, uma das primeiras empresas a disponibilizar plasmas de 103 polegadas para aluguer, em toda a Europa, contando com um parceiro de longa data, a Prosonic, representante dos equipamentos profissionais da Panasonic”, refere Manuel Salgado.

Tuper, Brandcom, BCD Travel, Frontpage, United Criative, Unimagem e Imago são alguns dos clientes com que têm trabalhado ao longo dos anos, tendo em 2009 feito trabalhos no congresso da Sumol Compal, apresentação dos portáteis Asus, reunião europeia da Shering, desfile da Throttelman, tenda Zon de Natal, reunião do grupo Mello e apresentação do Leiria Shopping.

A Duvideo CRL começou a sua actividade com a produção institucional para empresas e alguns partidos políticos.

“Com a chegada das televisões privadas, o mercado audiovisual alargou e possibilitou que produtoras com alguma experiência pudessem afirmar-se também nesta área”, lembra João Nuno Martins, director de produção da Duvideo. Esta empresa desenvolveu projectos para a SIC e TVI. Mais recentemente passaram a desenvolver conteúdos internamente o que, na opinião deste profissional, “veio completar o círculo em termos de produção completamente autónoma”. Hoje a Duvideo actua nas áreas de produção e realização de vídeos institucionais, promocionais e de formação e de programas de televisão. Entre os clientes encontram-se, na produção institucional, a Fundação Vodafone, grupo Mello, CPLP, Ordem dos Engenheiros, Brisa, Liga Portuguesa de Futebol, Assembleia da República, Havas Entertainment, REFER, TAP, Câmara Municipal de Oeiras, Ministério da Saúde, Ministério dos Transportes e Obras Públicas, Associação de Turismo do Algarve, GALP. Na produção de programas, têm trabalhado com a RTP e SIC. Na área da televisão têm ainda tido como parceiros o Instituto de Turismo, a UNICER, o IEFP, a ANQ (Agência Nacional para a Qualificação), o POPH (Programa Operacional Potencial Humano).

João Carrilho admite que a Dubvideo não é procurada pelos equipamentos, mas sim pelos conteúdos vídeo e soluções de instalação e ambient design. “Temos os nossos próprios equipamentos ao serviço das nossas ideias e dos nossos clientes”, refere. E as áreas de maior interesse são eventos musicais, eventos corporativos e mais recentemente projecções em edifícios monumentais no conceito de video mapping. Têm ainda executado alguns congressos, segundo João Carrilho, que defende que a mais valia da empresa é não serem uma empresa de audiovisuais de raiz e serem um atelier de artes multimédia com um know-how de 12 anos. E explica porquê: “O nosso conhecimento ultrapassou a fasquia das empresas em Portugal na área de vídeo e por isso, gerindo nós esse sector, servimos melhor os nossos projectos de atelier, ou seja, o cliente que pretende fazer um evento (nós não criamos eventos, não concorremos com os nossos clientes que são empresas de eventos) comunica connosco e este é servido desde o momento criativo até à concepção técnica e de fornecimento de equipamentos.” João Carrilho refere ainda que estão habituados a poupar dinheiro já que vieram de um meio onde se usavam equipamentos domésticos para grandes efeitos visuais. “Por isso hoje, para nós é fácil colocar à disposição do cliente equipamentos de acordo com as necessidades apenas e não, como por vezes acontece, usar máquinas caríssimas que ficam sub aproveitadas”, refere o responsável da empresa que tem no seu portfolio clientes como o Lux (1998/2001), Casino Lisboa, Belém Bar Café, Nestlé, Festival Sudoeste, Energie Azurara, Red Bull, Buraka Som Sistema, Mafalda Veiga, Tiago Betencourt, Brand Builders, Ativism e XN.

Quais os desafios do sector?

– “A racionalização de equipas e equipamentos. Há que fazer o mesmo trabalho, com qualidade equivalente ao que melhor se faz em todos os mercados concorrentes (mesmo a nível mundial), mas com budgets mais reduzidos do que há três anos. É um desafio que puxa pela criatividade e pela racionalização de meios e que torna a empresa mais eficiente.” – Plural.

– “A redefinição dos meios de difusão audiovisual e multimédia. Com a diminuição dos investimentos publicitários nos meios de difusão tradicionais, e a crise económica, assiste-se a uma diminuição da procura e também a uma pressão muito grande para baixar os orçamentos. Por outro lado, as novas formas de difusão, os new media, ainda não encontraram ou solidificaram os seus modelos de negócio, o que leva a muita ponderação quando se trata de produzir para estes novos meios.” – Duvideo.

– “A constante actualização tecnológica. Todos os dias há avanços no campo da imagem e som, mas nem todas as tecnologias são eficientes, e escolher em quais se devem apostar, é muito difícil. Dados os investimentos necessários tudo tem de ser bem ponderado. A profissionalização cada vez mais elevada também será um desafio. Longe vai os tempos em que o electricista também era técnico de som e de luz.” – Vilicri.

– “Um dos principais desafios do sector é saber utilizar a rápida evolução tecnológica como uma aliada e como uma oportunidade de expansão de meios e de conhecimentos.

Outro desafio do dia-a-dia é o elevado grau de exigência dos clientes, mas acreditamos que o nosso sucesso se tem devido a isso mesmo… clientes exigentes tornam empresas eficientes!” – Audiomeios.

– “A complexidade tecnológica na área de integração técnica entre som, luz, vídeo e interacção destes com o público, ou seja, estamos a falar do mundo das interactividades: todas as ‘partículas’ de comunicação interligadas e interdependentes.” – Dubvideo.

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