‘A notoriedade morreu’

Por a 22 de Janeiro de 2010

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A Quintália é uma agência de soluções de comunicação”.

Quem o diz é a sua fundadora, acrescentando que a empresa é “fruto do período de pausa que merecia para limpar o disco de 18 anos de MPG”. Esta profissional diz que ao longo deste tempo apareceram algumas propostas, que recusou. “Referi que não queria parecer ingrata, mas precisava de tempo para pensar naquilo que queria fazer”, recorda, e acrescenta que é importante pensar nos balanços e no que queremos para o futuro.

Margarida Quinta sustenta que “nesta idade tinha que arriscar, era o meu momento”. Independentemente de “vir a correr bem ou menos bem”, acredita que “tinha que arriscar e pensar se encontrava uma área onde pudesse realmente escrever o livro de normas”.

No seu período de reflexão questionou-se sobre como é que vê a comunicação, como é que encara as marcas. “Continua a ser uma área que me apaixona, mas a forma como tenho vindo a ver que os mercados trabalham as marcas não faz qualquer sentido no meu projecto pessoal”. “O consumidor e o mundo mudaram e hoje em dia as marcas não podem viver da notoriedade. Para mim, a notoriedade morreu”, garante.

E acredita que isso pode parecer estranho vindo de uma pessoa que trabalhou numa agência de meios onde o rating é rei. “Mas acho que não é isso que constrói o valor das marcas”, afirma.

Toda essa reflexão fê-la colocar muitas perguntas: O que é que faz sentido? O que é que as pessoas querem? O que procuram? “Acho que hoje em dia as pessoas procuram valores, coisas que sejam realmente relevantes nas suas vidas. Porque as marcas dizem muitas coisas, fazem muitas propostas, umas são relevantes outras não, outras são só porque sim”, explica. Para Margarida Quinta o caminho das marcas não é esse, mas antes encontrar situações, projectos, abordagens que sejam relevantes para a vida das pessoas, do consumidor e da comunidade. Admite que isso pode não fazer sentido numa agência grande, mas sim numa agência com o perfil que a Quintália tem, que é trabalhar essas soluções, criar essas oportunidade e pôr os parceiros (sejam marcas, meios, instituições) a falar uns com os outros e a criar mecanismos de construção de valor. Esse é o cerne, acredita.

A área de actuação da Quintália poderá estar relacionada com uma autarquia, uma instituição ou o país. “Pode ter variadas dimensões consoante os casos”, garante.

“Trata-se de perceber o que faz falta ali, quais são as marcas que, do ponto de vista de valores e de contributos, podem fazer sentido ali, e depois em função disso encontrar nos meios os parceiros certos para reavivar o papel social dos próprios meios”, explica. E acrescenta que os meios têm vindo a usar menos a capacidade que têm de “levar coisas positivas às pessoas, levar soluções, caminhos, valores e ajudar a divulgar”. E esse, diz, é um papel social.

“O que nós queremos é, partindo de políticas sociais, transformar isso em marketing social, em soluções que têm contributo para as pessoas, para o consumidor final”, resume. Apesar de já ter algumas ideias a ser trabalhadas, Margarida Quinta diz que ainda não as pode revelar.

A empresa, que é detida em 95 por cento por Margarida Quinta e em 5 por cento pelo grupo Digifi de Pedro Tojal, acabou por adoptar a designação de Quintália, uma junção de Quinta (nome da fundadora) e Tália (“musa grega da comunicação, do humor e das artes cómicas”). A ideia inicial era ser Tália, mas por ser o nome de um grupo de comunicação com reserva para Portugal, não foi aprovado.

Além de Margarida Quinta, a Quintália conta nos seus quadros com Isabel Fernandes, que nos últimos dois anos esteve na Havas Digital e nos seis anos anteriores na MPG. Além disso, têm algumas colaborações nomeadamente em design. “Se chegarmos ao final do ano com cinco pessoas ficava contente. Era bom sinal”, comenta Margarida Quinta. Uma coisa é certa: os reforços não serão da área de agências de meios já que as duas profissionais já têm essa visão. “Pode fazer sentido a área de design, organização de eventos,… O resto faremos fora com parcerias, com outsourcing”, comenta. Na área de agência de meios a empresa trabalha com a Executive Media, e na área de comunicação com a Media Consulting. Margarida Quinta escusou-se a fazer comentários sobre expectativas de facturação e sobre o investimento nos projectos.

– “Faço um balanço muito positivo do que passei na MPG”

M&P: Como avalia os 18 anos na MPG?

MQ: Muito positivamente. Gostei muito de trabalhar na Media Planning. Foi um projecto que abracei desde o início. Entrei no mês menos 1. Foi fantástico porque era a grande mudança do mercado à época, em 90. Foi muito enriquecedor. Fizemos realmente coisas diferentes e de uma maneira diferente. Foi extremamente enriquecedor, aprendi imensas coisas, conheci pessoas interessantíssimas, tanto colegas, como clientes, como meios.

M&P: Do que aprendeu, o que lhe é mais útil na Quintália?

MQ: Tudo é útil. Umas coisas vão-me ser úteis para pôr em prática, no que respeita a trabalhar as marcas numa perspectiva integrada em termos das diferentes disciplinas. Uma coisa que a MPG fez muito bem feito.

Aprendi a trabalhar com pessoas muito diferentes, de culturas diferentes, o que os meios nos podem dar, de que maneira podemos trabalhar com eles e fazê-lo de maneira construtiva. Faço um balanço muito positivo do que passei na MPG. Dos bons e dos maus dias. Porque os dias que nos são mais difíceis são talvez aqueles que nos ensinam mais coisas se nós quisermos. E eu quis.

M&P: A última fase foi complicada?

MQ: Não diria complicada. Diria que foi dura. Tínhamos visões diferentes [diz, referindo-se a Gerardo Mariñas, CEO da Havas Media e director-geral da MPG].

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