As crianças, os livros e a leitura

Por a 7 de Agosto de 2009

Neste artigo, damos a conhecer como as crianças entre os seis e os 10 anos se relacionam com esta temática:hábitos, preferências e comportamentos relacionados com a leitura, resultado de um estudo realizado em Lisboa e no Porto, através de um inquérito a 194 crianças.

O que pensam as crianças dos livros e quais são os seus hábitos de leitura?

O desenvolvimento de interesses e hábitos permanentes de leitura constituem um processo constante, que se inicia no lar das crianças, aperfeiçoa-se sistematicamente na escola e tem continuidade ao longo de toda a vida.

Reconhecer a importância da literatura infantil e incentivar a formação do hábito de leitura na idade em que todos os hábitos se formam é uma obrigação de todos aqueles que influenciam o comportamento das crianças.

Nesta perspectiva e, não esquecendo o papel dos diferentes agentes de socialização das crianças desde os pais, a escola, os grupos de referência e a publicidade, é importante perceber como estes pequenos consumidores falam dos livros, dos seus hábitos de leitura, das suas preferências e dos seus locais de compra.

Apesar da grande importância que a literatura exerce na vida da criança, seja no desenvolvimento emocional ou na capacidade de expressar melhor as suas ideias, em geral, de acordo com Machado (2001), elas não gostam de ler e fazem-no por obrigação.

Será que as nossas crianças confirmam esta afirmação?

Em relação a esta questão, vamos deixar de lado o facto de cerca de 81% das crianças gostarem de ler e vamos realçar o facto de cerca de 19% das crianças em idade escolar do 1º ciclo assumirem que não gostam de ler, confirmando a perspectiva do autor Machado. Feita esta chamada de atenção, verificamos que, das crianças que gostam de ler, 82% consideram que lêem muito, sendo que destas, cerca de 47% dizem que lêem todos os dias.

E ler muito, será sinónimo de muito tempo de leitura?

Podemos dizer que sim. Verificamos que cerca de 40% das crianças que gostam de ler e que lêem todos os dias, o fazem por mais de 15 minutos. Apenas 23% destas crianças lêem menos de cinco minutos. Existem dois factores que contribuem para que a criança desperte o gosto pela leitura: a curiosidade e o exemplo. Neste sentido, o livro deveria ter a importância de uma televisão dentro do lar. Os pais devem ler mais para os filhos. E porquê?

Porque junto destas crianças, verificamos que quase todas elas gostam que lhes contem histórias. E quem é que lhes conta as histórias? Os pais (81%), os professores (64%), os avós (43%), os irmãos (22%) e as empregadas (8%).

Quando as crianças mais velhas ouvem as histórias, aprimoram a sua capacidade de imaginação, já que ouvi-las pode estimular o pensar, o desenhar, o escrever, o criar e o recriar. Num mundo actual tão cheio de tecnologia, onde a informação é imediata, a criança que não tiver a oportunidade de suscitar o seu imaginário, poderá no futuro ser um indivíduo pouco criativo, sem sensibilidade para compreender a sua própria realidade.

No entanto, desde muito cedo as crianças assumem determinadas preferências por determinados tipos de histórias. Mas quando questionadas sobre qual a sua história preferida, verificamos que existe uma forte fragmentação das preferências. As 194 crianças inquiridas referiram 96 histórias diferentes. Destacou-se a colecção Uma Aventura, seguida pelo Obelix e Asterix e do Gerónimo Stilton. Viver significa participar num diálogo:

interrogar, escutar, responder, concordar. Neste diálogo, o homem participa todo e com toda a sua vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, com o corpo todo, com as suas acções (Bakhtin, 1992, p.112). É partindo desta visão da interacção social e do diálogo, que se pretende compreender a relevância da literatura infantil, que segundo afirma Coelho (2001, p.17), “é um fenómeno de linguagem resultante de uma experiência existencial, social e cultural”.

Na realidade as crianças reforçam esta necessidade de experiência. Porquê?

Porque numa livraria consideram determinante poder mexer nos livros, ouvir música e serem atendidos por empregados simpáticos (ver gráfico).

Por outro lado, as crianças que vão à feira do livro (67%), gostam muito de lá ir e a maior parte delas vai a este evento com os pais (78%). Se pudessem, gostavam que a feira do livro se tornasse ainda mais atractiva, oferecendo insufláveis, que tivessem os escritores a contar histórias e oficinas de pintura e desenho.

Para terminar, duas questões: que características deverá ter o livro preferido pelas crianças? Onde gostam as crianças de comprar os livros?

Segundo Sandroni & Machado (2000, p.12) “a criança percebe desde muito cedo, que livro é uma coisa boa, que dá prazer”. As crianças bem pequenas interessam-se pelas cores, formas e figuras que os livros possuem e que mais tarde lhes darão significados, identificando-as e nomeando-as. É importante que o livro seja tocado pela criança e folheado de forma, a que esta tenha um contacto mais íntimo com o objecto do seu interesse. A partir daí, a criança começa a gostar dos livros, percebe que eles fazem parte de um mundo fascinante, onde a fantasia se apresenta por meio de palavras e desenhos. E na verdade, estes nossos pequenos leitores assim o expressam: o livro preferido tem muita cor e muitas imagens.

No que respeita ao local de compra, a Fnac destaca-se como o local preferido onde as crianças compram os livros na companhia dos seus pais (ver gráfico). Reforça-se mais uma vez a necessidade dos livros estarem associados a experiências.

Cabe a nós, no papel de agentes socializadores das crianças, tornar aquilo que aparentemente se esgota num livro, numa experiência única capaz de estimular todos os sentidos de uma criança.

Assim, as condições necessárias ao desenvolvimento de hábitos positivos de leitura, incluem oportunidades para ler de todas as formas possíveis. Frequentar livrarias, feiras de livros e bibliotecas são excelentes sugestões para tornar permanente o hábito de leitura.

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