O bom que é a crise

Por a 30 de Janeiro de 2009

pho_2423.jpgAprendi o que é a crise em 1984.

Tinha eu 14 anos quando fui pela primeira vez passar férias a São Martinho do Porto onde tinha amigos que iam para lá desde bebés, e que sempre me falaram das coisas boas da crise.

Aliás, os meus pais começaram a ir para lá (ainda namorados) exactamente por causa da crise.Como se pode depreender ninguém conhece a crise melhor do que eu e há tanto tempo como eu, afinal já a saboreio há quase 25 anos. Hoje em dia os meus três filhos também já adoram a crise. Passam a vida a pedir crises e mais crises. Posso mesmo dizer que eles passam férias no Algarve, na Comporta, e em mais alguns sítios que pouco têm a haver com a crise, …. mas o que eles gostam mesmo é de ir para São Martinho apenas e só, julgo eu, por causa da crise.

A verdade é que em são Martinho as pessoas estão sempre a falar da crise, a elogiar a crise e a pedirem crises todos os dias. A Rua dos Cafés (onde está o verdadeiro epicentro da crise) está sempre a abarrotar, há pessoas em pé que esperam horas e horas a fio pela crise, e posso até afirmar sem nenhum exagero que vêm pessoas de fora para experimentar o que é a crise.

Porque só experimentando a crise é que se pode saber verdadeiramente como ela é ; o bom que ela pode ser, o que tem de inesquecível, e claro aquilo que podemos saborerar com a crise. Uma coisa é certa, antes de a experimentarmos não podemos ter opinião, nem tão pouco falar dela, ou mesmo escrever como o estou a fazer aqui.
É que eu e mais 99 por cento das pessoas que já foram a são Martinho já experimentámos a crise! E todos os anos dizemos que a adoramos, choramos por mais, e voltamos outra vez para provar mais do mesmo. E o mais curioso é que cada pessoa tem uma maneira diferente de a descrever; uns porque é boa para os miudos, outros porque dizem que a crise faz bem à ressaca, e ainda outros porque dizem que a crise é a melhor forma de se investir uns trocos. Mas apesar das diferentes abordagens, ou explicações, todos encontram coisas boas na crise.

E com tantas outras atenções que aquela terra tem, a crise é de longe a mais conhecida e a mais desejada.
Eu pessoalmente adoro-a! É diferente de tudo o resto a que estou habituado e sabe-me bem. É claro que se a tivesse que ter todos os dias provavelmente ficaria farto dela e às tantas já nem a poderia ver à frente, mas eu adoro a crise, e digo-o mesmo em péssimo português eu “pelo-me por uma boa crise”.

Agora, tem que se saber fazer a crise, não pode ser uma crise qualquer. Uma crise feita às três pancadas, não obrigado, passo. Dêem a outro. Mas como tudo na vida a crise tem um segredo, e esse não é partilhado por dá cá aquela palha, é um segredo bem guardado e que deve valer bom dinheiro. Penso mesmo que em São Martinho uma pessoa que sabe fazer uma boa crise deve ser paga a peso de ouro, apesar da crise claro.

Em São Martinho sabemos bem que quando encontramos uma boa crise não a podemos largar, temos de a segurar mesmo que para isso tenhamos que abrir os cordões à bolsa, ou seja, mesmo que tenhamos que investir (mesmo que sejam uns trocos). Porque como já disse e repito, naquela terra uma boa crise faz feliz todos os dias centenas de pessoas.
E como não há dinheiro do mundo que pague isso, VIVA A CRISE.
P.S: É verdade. Antes que me esqueça, a crise em São Martinho é um prato vendido na Rua dos Cafés que consiste em 1 salsicha, 1 ovo estrelado e batatas fritas, tudo isto num prato de barro cheio de “molhanga” gordurosa. €2 é o preço da crise e é a melhor coisa do mundo. Experimentem.

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