“Aquilo que é hoje o negócio dos emissores vai terminar”

Por a 19 de Dezembro de 2008


 

Encontra no modelo da rádio mais ameaças do que oportunidades. Augura o fim das emissões analógicas e uma migração, obrigatória, para a internet. João Paulo Meneses, jornalista da TSF, defendeu na semana passada a sua tese de doutoramento na Universidade de Vigo e explicou ao M&P porque é que as próximas gerações já nem sequer vão saber o que é a rádio.

 

Meios e Publicidade (M&P): Na sua tese de doutoramento propõe fazer uma análise das oportunidades e ameaças da rádio musical. Que balanço pode ser feito?

 

João Paulo Meneses (JPM): Eu acho que são mais as ameaças do que as oportunidades. Existem também as oportunidades, não acho que a rádio musical em concreto esteja condenada a morrer, mas são mais as ameaças… Aqui falo especificamente da rádio musical, que tem hoje concorrentes ao nível da digitalização, nomeadamente internet e mp3, uma vez que a rádio de palavra e informação será muito mais difícil de substituir.

 

M&P: Considera, então, que a digitalização é não só a principal concorrente como a principal ameaça da rádio?

 

JPM: Sim.

 

M&P: E quanto às plataformas? Se considerarmos a internet, o telemóvel, o mp3, qual a que tem maior capacidade de competir com a rádio?

 

JPM: A que ameaça mais a rádio é a internet porque, concebendo o telemóvel isoladamente, através de um cartão de memória, não tem capacidade de ameaça. As memórias de um telemóvel ainda não são tão grandes como as de um mp3. O tempo dedicado ao consumo mediático não é elástico e eu tenho duas hipóteses: ou ouço na rádio ou no mp3, com músicas tiradas da internet. Quanto mais eu ouvir nas novas plataformas, menos ouço na rádio. Estamos a falar sobretudo de modelos. No modelo da rádio, outras pessoas decidem um produto para os ouvintes. No modelo da digitalização, eu posso construir as minhas playlist, seja no telemóvel, mp3 ou na internet.

 

M&P: Neste cenário, de que ferramentas se deverá a rádio dotar para competir com a possibilidade do utilizador construir o produto que deseja ouvir?

 

JPM: Não é muito fácil. Essa pergunta é a mais difícil de todas. Na verdade, a rádio pressupõe um determinado modelo: uma programação decidida por alguém. E essa programação não é compatível com personalizações. Há sempre aqui um problema que a rádio terá. Mas isso não significa que não possa, e não deva, abrir-se aos consumidores digitais. Há muitas formas de permitir essa personalização. Mesmo que não cheguemos ao ponto da emissão principal ser condicionada por um ouvinte, há várias maneiras para que a rádio aceite, finalmente, a interactividade. O que temos tido até agora é uma interactividade a brincar, mitigada. Agora estão reunidas as condições para que os órgãos de comunicação social, e a rádio em concreto, aceitem, incentivem e procurem a interactividade. O que a Rádio Cidade faz com o e-mail, o chat aberto, a possibilidade dos ouvintes interagirem com os animadores é um exemplo. Esse é um primeiro caminho. Não significa que esgote a forma como as coisas podem ser feitas mas os tempos são outros.

 

M&P: E os PodCast poderão ser uma ferramenta viável?

 

JPM: Eu distingo duas coisas, o fenómeno dos PodCast e o conceito PodCast. Os PodCast são uma técnica interessante mas não são uma invenção muito boa. São confusos, obrigam a fazer alguma gestão de informação: procurar, subscrever… Enquanto o PodCast não encontrar uma forma mais simples não vai pegar. Agora a ideia de PodCasting, a ideia de que eu não tenho de ouvir a emissão toda, pré-programada por alguém, é muito boa. O conceito do ‘posso ouvir só o que eu quero’ tem futuro. Não sei é se será com o tipo de formato que apresenta actualmente.

 

M&P: Mas é um formato que pode ser rentabilizado para angariar publicidade.

 

JPM: É verdade, eu acho que não existe nenhuma alternativa que não seja viabilizar os conteúdos que também estão em PodCast. Há cada vez mais pessoas a subscrevê-los e se eles não estiverem comercializados, então estaremos a perder receitas.

 

M&P: Ainda numa perspectiva comercial, o investimento publicitário na rádio tem vindo a decrescer. Qual é a alternativa?

 

JPM: Quando eu digo que há mais ameaças do que oportunidades, uma das ameaças é o problema do modelo de negócio que existe actualmente. A oferta musical na internet é gratuita. E aqui não falo dos downloads ilegais. Eu posso ter uma playlist no Cotonete com as mil músicas que gosto de ouvir, sem pagar nada e com muito menos publicidade. Portanto, as novas gerações tendem a considerar as publicidades tradicionais, os spots, como algo desagradável. Há, neste momento, o problema de alguma competição desleal entre a digitalização, que é de borla ou quase, e a rádio que chega a ter dez minutos e meio de publicidade por hora. A rádio tem de pensar uma nova maneira de se viabilizar, com um site na internet por exemplo, e não pode ter tanta publicidade porque a concorrência, a digitalização, não a tem.

 

M&P: Caracterizou esta geração como geração iPod. E a de amanhã, como será?

 

JPM: Vai estar ainda menos aberta à rádio. O impacto que terá na sociedade portuguesa o Magalhães – aliás podia-se passar de geração iPod para geração Magalhães – vai ser arrebatador. Os miúdos que têm hoje um Magalhães nunca mais conhecerão a rádio. Primeiro, porque não há programação para eles e, depois, porque podem procurar na net muitas outras coisas que lhes vão dar alternativas. Eu estou muito pessimista em relação àquilo que é a adesão das novas gerações face à rádio que temos actualmente. É pouco agressiva em relação ao comportamento das novas gerações. A minha experiência de professor diz-me que os jovens de 20 anos não conhecem a rádio. Mesmo os que estão em cursos de jornalismo. O que significa que se calhar a ouviram quando eram mais pequenos mas depois, quando tiveram alternativas, deixaram de a ouvir.

 

M&P: Diz, a sua tese, que mesmo sem a digitalização, havia já um descontentamento face aos modelos apresentados pela rádio. Falamos de uma necessidade de reinvenção?

 

JPM: Eu considero e apresento dados que mostram esse descontentamento. Mas tratava-se de um descontentamento latente. Se eu tiver dez anos o mesmo carro, gostava de ter um melhor mas se não tiver hipótese… Estou descontente mas todos os dias o uso. Nunca seriam postos em causa os modelos da rádio se não houvesse uma alternativa. O problema é que a alternativa surgiu. Agora já não é possível pensar em soluções que não passem pela digitalização.

 

M&P: Falamos de uma rádio com emissão exclusiva na internet?

 

JPM: Estaremos certamente a falar de uma rádio com emissão unicamente na Internet, porque mais cedo ou mais tarde, a emissão analógica vai ser desligada. Aliás, é uma coisa sobre a qual já se fala de datas. Entre 2012 e 2015 aquilo que é hoje o negócio dos emissores vai terminar.

 

M&P: Tendo em conta o panorama nacional, quais as rádios que melhor se conseguirão adaptar a esta nova realidade?

 

JPM: As rádios de informação terão mais capacidade de sobrevivência do que as rádios musicais. O que eu temo é que não haja, nos próximos anos, um movimento de adaptação das rádios tradicionais aos novos tempos e que isso tenha consequências muito graves.

 

M&P:Como é que desejaria que a rádio nacional evoluísse durante os próximos 10 anos?

 

JPM: Eu acho que o mais importante era que se começasse a perceber que há uma transferência de ouvintes para a internet e se fizesse uma aposta séria nos conteúdos digitais. Mantinha-se a emissão clássica, não está em causa isso, mas que a internet não fosse apenas uma espécie de dispensa, quarto de arrumações, da rádio. Coloca-se lá aquilo que já passou, as coisas menos importantes.

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