“Não tenho concorrência no mercado independente”

Por a 12 de Dezembro de 2008

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Jorge Marecos Duarte, em entrevista ao M&P, apresenta os planos para a SP Televisão, que diz querer afirmar-se como “uma grande opção de ficção em Portugal”…

Podia Acabar o Mundo (SIC) e Liberdade XXI (RTP1) são alguns dos projectos mais recentes da SP Televisão. Em entrevista ao M&P, Jorge Marecos Duarte, um dos quatro sócios da produtora – em conjunto com António Palma, António Parente e Pedro Martins -, fala dos projectos da empresa que quer deixar a sua marca no campo da produção de ficção em Portugal. A entrada na área do entretenimento e a vontade de internacionalizar, promovendo co-produções com o mercado lusófono e hispânico, estão igualmente nos planos.

Meios & Publicidade (M&P): Em Agosto do ano passado foi noticiado que António Parente comprou 51 por cento da SP Filmes. Qual foi o objectivo desta entrada? Foi criar uma estrutura que possa competir com a NBP?

Jorge Marecos Duarte (JMD): Não é bem assim. A SP Televisão não pré-existia. Foi fundada há um ano.

M&P: Mas antes existia uma estrutura chamada SP Filmes.

JMD: Que não tinha nada a ver. Era minha e de outro sócio e fundámos outra empresa.

M&P: A entrada do António Parente…

JMD: Não é entrada. Quando se funda, funda-se do princípio, quando se entra pressupõe-se que é na mesma empresa. Não é na mesma empresa.

M&P: Então qual foi o motivo para criar essa empresa de raiz? Competir com a NBP?

JMD: Não é competir com a NBP, é competir com qualquer estrutura porque estamos no mercado, assumimo-nos como produtora independente. O nosso objectivo não é competir com ninguém, é trabalhar para todas as televisões. É claro que nesse processo competiremos com alguém, mas isso é a competição saudável do mercado.

M&P: Olhando para o mercado português, qual é a sua principal concorrente?

JMD: Não temos.

M&P: Não tem concorrentes?

JMD: A SP Televisão, propriamente, não. A NBP é propriedade de uma estação, não se pode falar em concorrência. Não é uma produtora independente, nós somos produtores independentes. Há concorrência na produção independente em determinados segmentos de mercado. Mas não há nenhuma produtora independente neste momento em Portugal que possa fazer novela ou formatos de longa duração, segmentos em que nos posicionamos. Não há e, provavelmente, ninguém quer, só nós. Não tenho concorrência no mercado independente. Depois há aqui um lado de David e Golias em que estou a competir com as próprias produtoras das televisões. Mas, mesmo assim, penso que teremos alguns pontos de vantagem.

M&P: A concorrência está então nas produtoras das estações. Dessas, a NBP é a que está há mais tempo no mercado, com mais produto em antena do que a TDN. Da NBP, além de António Parente, vieram bastantes elementos.

JMD: Não pode ser dito dessa maneira. A produção de ficção tem em Portugal uma tradição de freelancers, não de empregados. Fazer uma produtora não é ir buscar os empregados da produtora ao lado. As pessoas encontram, eventualmente, melhores condições de trabalho para os projectos que querem fazer aqui do que noutro lado, como também já tivemos aqui ‘n’ pessoas que já não estão cá, mas sim a fazer projectos noutro lado.

M&P: Não houve então uma tentativa de criar uma nova NBP?

JMD: Não! E quem é que era a televisão? Éramos propriedade de quem? Isso não faz nenhum sentido. Para haver uma nova NBP era preciso que o nosso accionista fosse uma televisão.

M&P: Quando digo uma nova NBP refiro-me ao facto de estarem a produzir ficção de longa duração, um território que até há bem pouco tempo era quase exclusivo da NBP.

JMD: Toda a vida produzi ficção na SP Filmes, mas eram pequenos formatos. [A produção de ficção de longa duração] era exclusiva da NBP e depois da TDN. Achámos que tínhamos condições de o poder fazer de forma competitiva.

M&P: Essa relação entre produtoras e estações não complica a entrada no mercado?

JMD: Sim, é mais complicado, porque temos de ser altamente competitivos. E como é que se é altamente competitivo? Através do preço e da qualidade. Se fizer mais barato e melhor, com audiências melhores ou, no mínimo, semelhantes, está a ser competitiva. Se não for, sai do mercado.

M&P: Foi o factor qualidade/preço que permitiu estarem a produzir a novela da SIC? Afinal, a TDN iria ser a produtora dos projectos de ficção da SIC.

JMD: Essa pergunta deveria ser feita à SIC. Da nossa casa o que sei é que somos altamente competitivos, quer em preço como em qualidade.

M&P: Na altura da SP Filmes, a produtora esteve arredada da antena da SIC.

JMD: Esteve porque houve uma direcção de programas na SIC que entendeu que os formatos que eu fazia na SP Filmes estavam esgotados. Foi há três anos, quando houve a mudança da direcção de programas. No caso havia dois programas: as comédias do Camilo de Oliveira e Os Malucos do Riso.

M&P: Foi a mudança da direcção de programas o factor essencial para o regresso da SP à SIC? Com Nuno Santos à frente da direcção de programas…

JMD: Não são essas voltas que determinam o surgimento da SP Televisão, o determinante foi eu e o António Parente termo-nos entendido para fazer esta produtora. O nosso primeiro grande cliente resultou de um concurso restrito para a produção de ficção da RTP, que a SP Televisão ganhou com o Conta-me Como Foi e uma série de outros projectos.

M&P: Mas com o Nuno Santos, Os Malucos do Riso regressaram à antena.

JMD: Isso é com a SIC. Estão a utilizar um formato que são repetições e que, na minha opinião, a própria estação esgotou em demasia. Mas isso não é do Nuno Santos, é do Manuel da Fonseca. A anterior direcção, que não queria, acabou por pôr no ar programas do Camilo. Qualquer repetição é uma erosão do formato. Não há na Europa nenhum formato que tenha sido tão repetido como Os Malucos do Riso em prime time.

M&P: Mencionou projectos do tempo da direcção de programas de Nuno Santos na RTP. A mudança de estação de Nuno Santos e Virgílio Castelo, actualmente consultor de ficção da SIC, contribuiu para a aproximação da produtora à SIC?

JMD: Isso não representa nada. Claro que são pessoas que estimo profissionalmente. O arranque de Vila Faia ainda foi com o Nuno [Santos] na direcção de programas, já as séries são todas desta nova direcção de programas.

M&P: A Madre SGPS [holding de António Parente] comprou dois por cento da Impresa em Março, o que lhe dá uma posição qualificada. Isso permite um acesso privilegiado da produtora à SIC?

JMD: São negócios da Madre. Não há nada que privilegie a produtora. Não é por uma empresa ser accionista de outra empresa, que tem uma posição de dois por cento de outra, que um produto, se não tiver resultados, vai beneficiar. É completamente irrelevante.

M&P: O facto da novela Podia Acabar o Mundo não estar a obter audiências muito expressivas, comparando com produtos em antena noutras estações, poderá não estar a facilitar as negociações de novos projectos com a SIC?

JMD: Não faço essa leitura. Estou convencido que o resultado da novela é bastante bom. A SIC está a tentar entrar no mercado que até aqui era monopólio da TVI e, quando se tenta meter com um monopólio, é duro, demora tempo. Portanto, tem de ir construindo o seu mercado ao longo dos anos como a TVI fez. Este processo e os resultados têm muito a ver com a dinâmica da estação. O mercado está construído, a partir do momento em que está fidelizado é muito complicado mudar.

M&P: No caso da RTP, depois de Vila Faia está previsto algum outro projecto de ficção de longa duração?

JMD: Novela não. Penso que a RTP está mais interessada em desenvolver séries de longa duração. Temos duas feitas, Liberdade XXI e Pai à Força, mas tanto quanto sei não estão a pensar em desenvolver novela.

M&P: Em Janeiro falou-se que iriam produzir para a RTP uma série com o nome provisório de Fábrica de Sonhos que António Parente dizia que gostaria de ver em antena em Setembro.

JMD: Foi um projecto que gostámos imenso de desenvolver e que na altura acreditámos que viria a conquistar o seu lugar. Não tem sido esse o entendimento dos directores de programas, e os directores de programas são soberanos.

M&P: Foi um projecto abandonado?

JMD: Está na zona do arquivo.

M&P: E vai sair desse arquivo com a RTP ou outra estação?

JMD: É sempre uma possibilidade, mas para já não estou a ver. Isto também se inscreve em fluxos internacionais. Houve aqui um grande momento de ficção jovem com música, dança, etc. Provavelmente, daqui a um ano e meio já passou.

M&P: Os projectos que refere são todos de ficção. É uma área em que querem trabalhar em exclusividade?

JMD: Não temos projectos concretos, mas gostaríamos de começar a trabalhar na zona do entretenimento: concursos, quizz shows, mas não realitys. Temos um grande acervo de direitos, de contactos com produtoras internacionais, mas também não há uma grande possibilidade de colocação em Portugal.

M&P: Produtoras como a Endemol ou a Fremantle já estão nesse campo.

JMD: Há esse problema, concorre com as multinacionais. O nosso espaço é muito estreito, porque só é possível através de contactos com multinacionais, mas que não estejam representadas em Portugal. A Endemol e a Fremantle produzem directamente e são dois gigantes.

M&P: O desejo de expandir está um pouco limitado, então. Como vão dar a volta a isso?

JMD: Através dos próprios formatos. Tem de haver um formato que as pessoas gostem e que tenhamos a habilidade de negociar em primeira-mão. Depois dependerá do tipo de concursos que os broadcasters querem fazer.

M&P: Querem continuar com formatos com as características de Os Malucos do Riso ou já estão esgotados?

JMD: Gostaríamos imenso de dar continuidade à comédia. Agora a comédia, para ser competitiva, tem de ter uma massa crítica de encomenda. Temos belíssimas comédias e queremos fazer comédia de sketches ou sitcoms. As televisões é que não têm querido fazer comédia. Mais uma vez é um ciclo internacional. Em cinco anos houve a fase da comédia, depois dos concursos, depois séries, depois volta…

M&P: Esse espaço não estará ocupado? A SIC tem o Zé Carlos, a RTP Os Contemporâneos…

JMD: Sim, mas é pouco. São 30 minutos de comédia por semana. Ainda sou de um tempo em que a SIC tinha comédia todos os dias. Qualquer dia volta-se a descobrir que a ‘local comedy’ é o que tem mais audiência e volta-se a fazer mais comédias locais.

M&P: E a produção de publicidade? Algumas produtoras como a Stopline e a NBP estão a entrar por aí.

JMD: Não temos essa vocação, nem está nos nossos horizontes mais próximos.

M&P: O quinto canal representa uma hipótese real para aumentar a produção independente em Portugal?

JMD: Depende do que for o quinto canal. Hoje em dia não sei qual o formato que vai ser aprovado ou quem vai concorrer. Tanto se consegue imaginar um canal com muita pouca produção própria, como um com muita, como um com quase produção nenhuma.

M&P: Dada a actual conjuntura económica não será esta a pior altura para lançar um quinto canal?

JMD: É um processo que funciona de forma um pouco alheia, depois no dia-a-dia poderá haver esse aspecto de ‘talvez não seja a uma boa altura para lançar o canal’. Mas acho que se prende mais com problemas técnicos de fundo, como o apagão analógico que é preciso fazer na União Europeia em 2012, com o multiplex de distribuição. Tem de ser encontrada aí a razão de ser do calendário, que é obrigatório, independentemente da melhor altura e da crise económica. Depende completamente do formato do canal, mas consigo imaginar formatos viáveis em Portugal.

M&P: O que seria viável então?

JMD: Não estou nesse negócio. A primeira coisa que tem de garantir é que é um canal free-to-air, o que na actual situação técnica não é óbvio.

M&P: O canal supostamente vai concorrer com a TVI, SIC e RTP.

JMD: Mas como faz isso se não tem espaço hertziano?

M&P: Com a TDT ficaria resolvido.

JMD: E quando é que vai ter o canal? Se falamos de 2012 para a frente, julgo que sim, que há espaço para um novo canal. A esse canal vai ser necessário conquistar mercado. Como vai conquistar mercado? Tem duas estratégias: ou uma estratégia de embate com os conteúdos de produção dos outros canais ou uma de canal alternativo, para um nicho de mercado.

M&P: No último MIPCOM estiveram presentes para “pesquisar novos mercados e conhecer melhor outros”. A internacionalização é um objectivo?

JMD: Tudo o que seja produzir através de co–produções do mundo hispânico ou do mundo lusófono serão sempre oportunidades. Não temos nada de concreto, mas um dia teremos de co-produzir com África, com Angola e Moçambique. Mais facilmente com África do que com o Brasil, que é sempre um sonho longínquo, numa certa área de ficção. Noutras áreas penso que com Espanha é o ideal.

M&P: Como é que vê a SP Televisão daqui a uns anos?

JMD: A SP vai tentar afirmar-se como uma grande opção de produção de ficção em Portugal. Estamos prontos a tentar estabelecer acordos de co-produção com África. Ainda não tivemos essa oportunidade, mas acabará por surgir. Fora isso, estamos abertos a produções específicas de outro tipo de produtos, mais pontual, como filmes.

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