“Esperamos que quando a TVI 24 surgir a RTPN já esteja num patamar mais confortável”

Por a 3 de Outubro de 2008

José Alberto Lemos, director de programas da RTPN, explica os motivos que levaram à reformulação do canal noticioso do operador de serviço público. Uma imagem renovada, noticiários de hora a hora, novas caras na informação e uma transmissão mais dividida entre Lisboa e Porto são as principais apostasARTPN estreou esta semana uma nova imagem e novos conteúdos. José Alberto Lemos, director da estação, explicou ao M&P a primeira modificação de fundo realizada no canal em quatro anos de existência. As novas caras da informação, como João Adelino Faria, e o espaço da RTPN na televisão por cabo foram aspectos da remodelação comentados.

Meios e Publicidade (M&P): Porquê uma alteração tão profunda na vida da RTPN?

José Alberto Lemos (JAL): Primeiro porque a RTPN surgiu há quatro anos e ainda não tínhamos feito nenhuma alteração profunda. Basta dizer que o grafismo é igual desde o início e a cenografia é praticamente a mesma ao nível da informação. Fomos alterando a grelha aqui e acolá, introduzindo novos programas, mas não fizemos nenhuma alteração de fundo. Esta vai ser de facto a primeira que vamos fazer, já que por fim tivemos as condições necessárias para isso, porque temos novos protagonistas, sobretudo, e porque a televisão se faz de inovar e refrescar constantemente. Estava portanto na altura de a fazermos.

M&P: Podemos considerar que existe uma ruptura nas linhas que orientam a RTPN?

JAL: Ruptura penso que é um termo demasiado radical para definir esta alteração. É uma alteração grande, de facto, se quiser há uma ruptura ao nível de imagem. Este­ticamente é, de facto, uma grande ruptura. Temos um grafismo totalmente novo e diferente do que existia. Mas ruptura, no sentido lato do termo, penso que não se aplica.

M&P: João Adelino Faria será uma das principais caras da estação e uma das mais recentes contratações. Podemos considerar que existe o objectivo de captar os espectadores que o conheciam da SIC Notícias?

JAL: Bem, o João Adelino Faria não vem directamente da SIC Notícias, vem do Rádio Clube Português. É óbvio que se tornou conhecido na SIC Notícias graças aos anos que lá esteve a funcionar. Claro que é uma grande mais-valia para o canal. Mas atenção que o João Adelino Faria não veio para a RTPN, veio para a RTP. E, como já é sabido, também vai fazer os telejornais no primeiro canal, fim-de-semana sim, fim-de–semana não. Assim, desse ponto de vista é, antes de mais, a aquisição de um grande profissional de televisão, de um bom jornalista, prestigiado, que nos vai trazer qualidade para o jornal. Depois, se as audiências vierem por acréscimo, encantados da vida…

M&P: Que outras caras aparecem agora na RTPN?

JAL: O Carlos Daniel, que não estava na informação e fazia o Trio do Ataque, já era uma cara do canal. Agora vai aparecer todos os dias com o jornal das 21 às 23, em semanas alternadas com João Adelino Faria. A Cristina Esteves, que fazia as tardes, vai passar a fazer as noites. Aqui por noites entendem-se as 19 e as 24. Em alguns slots gerais vamos ter Alberta Marques Fernandes a fazer noticiários. De novas caras penso que é isso.

M&P: A alternância semanal das emissões a partir de Lisboa e do Porto pode ser considerada uma forma de tornar o canal, que está muito associado ao Porto, mais nacional?

AL: Sim, sem dúvida. Mas note que já há muito tempo, há quatro anos, que fazemos noticiários em Lisboa. Os noticiários da tarde sempre foram feitos na capital. O que vamos fazer é alternar. Quando as noites forem no Porto as tardes são em Lisboa e quando as noites forem em Lisboa as tardes são no Porto. É evidente que isto vai dar um ar mais nacional ao canal, que não pode ser associado apenas ao Porto. A direcção da estação está sedeada nessa cidade, mas a RTPN é um canal noticioso e informativo da RTP, não é um canal da RTP Porto. E isso tem de se manter e vai manter-se. O que vamos acentuar é essa vertente nacional, até porque há muita gente que associa o N a Norte, e isso é uma ambiguidade, um equívoco, que sempre existiu e que agora vamos desfazer.

M&P: Como vão funcionar na prática estas alternâncias entre as redacções das duas cidades?

JAL: No que toca à existência de um jornal feito lá e cá, entre o Porto e Lisboa, não há grandes alterações. O que acontece hoje em termos noticiosos é que toda a redacção trabalha para o canal, e o canal está sempre on-line, portanto as peças entram quer os serviços noticiosos sejam do Porto quer sejam de Lisboa. Do ponto de vista do espaço nocturno vai haver um maior contributo da redacção. O que passará a acontecer na RTP é que haverá uma maior distribuição noticiosa pelo dia inteiro, incluindo a noite, neste caso as madrugadas. Essa distribuição vai alterar um tanto o fluxo noticioso da redacção. O que acontece hoje é que a RTP concentra os seus esforços em dois momentos do dia, às 13 h e às 20 h, com o Jornal da Tarde e o Telejornal. Agora o que a direcção de informação quer fazer, em sintonia connosco, é aproveitar a RTPN estar no ar 24 horas para distribuir melhor o fluxo informativo durante o dia e haver noticiário fresco durante o dia e durante a noite.

M&P: Foram apresentadas novas interacções da televisão com a internet. Como vão funcionar e como serão organizados estes novos serviços? Poderá haver futuramente uma redacção específica?

JAL: Não vai haver uma redacção específica. Haverá jornalistas particularmente atentos à internet e que vão interagir com o espectador. Durante os espaços nocturnos vamos fazer uma pergunta aos espectadores, uma pergunta fechada, de sim ou não. É pedir uma opinião. Não é do estilo “deve jogar o Quaresma ou o não sei quantos?”. É uma pergunta de carácter opinativo, mais longa, e que exige alguma reflexão e respostas com pés e cabeça. Além deste espaço interactivo, vamos estar atentos a vídeos que estejam na net e possam ser interessantes do ponto de vista noticioso. Ainda ontem à noite [25 de Setembro], passámos um vídeo, a título excepcional, que tinha a Sarah Palin a ser como que abençoada numa igreja no Alasca. Portanto, vamos estar atentos a esse tipo de coisas e vamos pô-las no o ar o mais possível.

M&P: Dos novos programas apresentados e que irão estrear em breve, quais são as principais apostas da RTPN?

JAL: Há uma aposta forte no programa de economia, à segunda-feira. É?um programa que vai tentar mostrar, descodificar e explicar o mundo financeiro às pessoas, como devem aplicar as poupanças, apostar na bolsa, etc., ou seja, é um programa que pretende ter uma vertente pedagógica importante. Outro muito interessante vai ser sobre arquitectura. Dá-me um prazer particular porque sou muito sensível a essa área, mas não é por eu gostar muito, acho que é uma coisa que não há neste momento em nenhum canal. Já houve. A SIC Notícias já teve um programa sobre arquitectura e eu, já há muitos anos, queria fazer um programa sobre este tema, mas nunca tinha conseguido por razões orçamentais, por razões de produção, etc. Agora estamos em condições de avançar com o programa, que eu acho que vai ficar muito bem, está muito bonito, e é uma vertente muito importante da criatividade nacional. Depois há também um programa chamado Guarda Livros, que faz regressar os livros à antena da RTP. É?o Francisco José Viegas que o está a fazer, e é uma visita às bibliotecas de personalidades conhecidas da vida portuguesa.

M&P: Há algum objectivo, em termos de audiências, ligado a esta remodelação?

JAL: A reformulação do canal está relacionada com a necessidade de refrescar e de relançar o canal, portanto tem a ver com audiências só por consequência, digamos assim. Ao melhorar as coisas, como é evidente, esperamos que o canal suba de audiências.

M&P: Mas tem algum objectivo concreto a esse nível?

JAL: Não, não temos.

M&P: Em relação ao share, a RTPN está a uma grande distância da SIC Notícias, a principal concorrente. Com a chegada da TVI 24, qual será o espaço destinado à RTPN, uma vez que muito provavelmente haverá uma aposta forte no novo canal?

JAL: Nós estamos no mercado para ver. Esperamos que quando a TVI 24 surgir a RTPN já esteja num patamar mais confortável em termos de audiências e que seja uma referência mais afirmativa no panorama noticioso nacional. Quando a TVI 24 surgir cá estaremos para ver o que acontece. A concorrência é sempre estimulante.

M&P: Faz sentido, em sua opinião, que existam três canais de informação nacionais?

JAL: Bom… (risos) Fazer sentido talvez não seja a expressão correcta. O mercado é livre e aberto e as pessoas são livres de fazer esse investimento. Agora o que falta saber é se há mercado para três canais. Eu tenho dúvidas, tenho sérias dúvidas. Mas vamos ver, só a prática é que pode dizer alguma coisa sobre isso.

M&P: As sinergias com a RTP vão manter-se, aumentar ou diminuir?

JAL: Não são bem sinergias. Prova­velmente não me perguntava se as sinergias entre a RTP1 e a RTP2 vão continuar. A RTPN é um canal da RTP, tal como os outros. Não se trata de sinergias, trata-se de um canal da casa onde se faz tudo o que é preciso fazer-se. E sobretudo é um canal que neste momento é essencial para dar uma nova dinâmica à redacção e para a pôr a funcionar de outra maneira. Sinergia era se fossem duas entidades diferentes, e nós estamos a falar da mesma coisa, que existe na mesma casa, na mesma empresa.

M&P: Na conferência de imprensa de apresentação da nova RTPN referiu que o canal tem uma “vertente experimental”, através de profissionais e programas que lança para outros canais. Há planos nesta área?

JAL: Isso já tem acontecido com muita frequência. Eu posso citar várias pessoas que começaram na RTPN e agora estão por aí lançadas. A Merche Romero presumo que tenha sido uma delas, a Marta Leite de Castro foi outra. A Ana Rita Clara, que está agora na SIC, é outro exemplo. A Bárbara Oliveira, que fez o Só Visto, e o Luís Oliveira, que está agora na rádio, também começaram na RTPN. Há vários exemplos de pessoas que começaram na RTPN. Os próprios pivôs actuais e muitos repórteres que começaram aqui são jornalistas no primeiro canal com créditos firmados, como a Fátima Araújo, que faz o Jornal da Tarde ao fim-de-semana. A Estela Machado e a Sandra Fernandes Pereira fazem o Bom Dia, também ao fim-de-semana. Há muita gente que surgiu na RTPN e agora está no primeiro e no segundo canal. Desse ponto de vista foi um sucesso. Depois outros formatos que surgiram na RTPN… Um exemplo é a Liga dos Últimos, que está agora na RTP. Outro é o Bio Esfera, um programa sobre ambiente, que está no segundo canal. Há vários outros exemplos de programas que entretanto já acabaram, que surgiram na RTPN e tiveram grande sucesso e foram por aí acima. No fundo é essa vertente laboratorial, como eu lhe chamei, uma vertente experimental que existe no canal. Obvia­mente, quando se faz alguma coisa para o cabo faz-se para um universo mais restrito, portanto há uma maior liberdade criativa e uma maior ousadia, que não pode haver no primeiro canal.

M&P: Estas alterações implicam um reforço do orçamento?

JAL: Não, nenhum. Estamos a trabalhar com o mesmo orçamento, quer dizer, o orçamento de grelha da RTPN é o mesmo que era.

M&P: E pode adiantar-nos os valores?

JAL: Há cenários novos que mandámos fazer… Não tenho um número global para lhe dar, mas vou conseguir absorver tudo isso no orçamento deste ano, de 2008. Os custos acrescidos são as pessoas que se contrataram. Mas no caso do João Adelino Faria é uma contratação da RTP, não da RTPN.

M&P: O canal da RTPN é lucrativo, em termos operacionais?

JAL: Em termos globais há duas coisas: os custos de estrutura, isto é, as pessoas que trabalham para o canal, e há os custos de grelha, aquilo que pomos no ar. Em termos de custos de grelha, o canal já se paga a si próprio, através das receitas publicitárias, que não são muitas, mas são algumas, mas sobretudo da subvenção, o que os operadores de cabo pagam para ter lá a RTPN. Nós temos vivido dentro desse orçamento, daquilo que se recebe da TV Cabo, da Cabovisão, etc. Agora os custos de estrutura ultrapassam muito isso. Mas as pessoas que trabalham na RTPN não trabalham só para o canal, a redacção trabalha para toda a empresa. Estes custos não estão associados apenas à RTPN. Se estivessem, é evidente que ultrapassaríamos muito os proveitos da estação. Mas agora é uma estrutura que passou a produzir muito mais, porque a estrutura de informação da RTP passou a produzir muito mais. A produtividade aumentou, o que vai embaratecendo as coisas.

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