“Está na altura de se fazer um rastreio às produtoras que demoram a pagar”

Por a 26 de Setembro de 2008

garage-do_003.jpg

A nova área de eventos da Garage, a mudança da imagem da empresa e o relançamento da associação das produtoras são algumas das matérias abordadas por Miguel Varela nesta entrevista

Em conjunto com Carlos Reis, Miguel Varela pretende gerar debate no sector da produção de filmes publicitários para relançar uma associação. O objectivo é criar uma regulamentação na área da produção, onde, segundo afirma o dono da Garage, as situações de dívidas a técnicos e a freelancers são recorrentes.

Meios & Publicidade (M&P): Depois da fotografia, o que o levou a lançar uma unidade de eventos?

Miguel Varela (MV): Começámos a perceber que vinham cada vez mais agências pedir pequenas produções para eventos, e, tendo uma boa equipa e uma boa base de produção, nada melhor do que lançar uma unidade de produção de eventos. Temos uma pessoa na casa, que é a Mara Lopes, que só trabalhava em eventos. À terceira solicitação decidi abrir a área de eventos.

M&P: Que trabalhos foram realizados?

MV: Realizámos uma proposta para a Diesel, fizemos um orçamento para a Pepe Jeans, temos vários orçamentos na rua. Da Bayer temos um simpósio, estamos a orçamentar uma coisa grande, e neste momento está pré-adjudicado um stand para o lançamento de um medicamento.

M&P: Os vossos clientes vão ser as agências ou vão ter uma abordagem directa aos clientes?

MV: As agências são sempre o nosso primeiro cliente, em tudo. Vou ter o cuidado de ver quais são as agências que têm um departamento de eventos para nem sequer estar a concorrer com elas. Se há um cliente das agências que nos pede um evento, não vou dar esse orçamento.

M&P: Já existindo agências com esses serviços, que espaço pode vir a ter a Garage nessa área?

MV: O core business da Garage são os filmes publicitários. A área de eventos é quase como a fotografia. Nós temos produção de eventos, não estamos a idealizar eventos. Temos a unidade de produção, como também temos a parte da fotografia. Na fotografia começámos com a produção fotográfica porque sempre foi muito problemático ter o fotógrafo por perto quando se está numa sessão de filmes. Daí a ideia de lançar a Garage Photo, só com a produção fotográfica, pois não temos fotógrafos. Trabalhamos com os fotógrafos que as agências quiserem.

M&P: Que investimento acarretou o lançamento da área de eventos?

MV: Zero.

M&P: Além da Mara Lopes, vai trabalhar mais alguém na unidade de eventos?

MV: Mais ninguém. É só a Mara com a minha supervisão, porque todas as áreas são supervisionadas por mim. Esta é mais uma e não vai ter mais ninguém. Tudo o resto, o que for necessário, vem por outsourcing, tal como fazemos com os filmes.

M&P: Porque é importante para uma produtora como a Garage estar ligada à área dos eventos?

MV: Temos de olear a produção de uma forma continuada e os melhores recursos de produção que podemos utilizar são os que temos. Não há interesse financeiro, até porque só daqui a um ano ou um ano e meio é que posso estar a dar uma resposta mais precisa nesta área. Mas, pelos pedidos de orçamentos que temos tido, senti que houve uma boa aceitação.

M&P: Ainda assim deve ter expectativas. Quais são?

MV: Ainda não sei quantificar. Só ao fim de seis meses de trabalho é que conseguimos ver os prós e os contras e o que é bom e o que é mau. Para já, como ainda estamos no zero, é muito difícil.

M&P: Quanto é que esta área poderá vir a representar no negócio da Garage?

MV: O negócio da Garage são os filmes. O resto é uma ajuda, pois tudo o que entrar é bem-vindo. Com a equipa já existente, tudo aquilo que conseguir ir buscar é óptimo. Não só estou a olear uma equipa, como estou a pôr toda a gente a fazer coisas diferentes, para eles não ficarem fechados no mundo dos filmes.

M&P: O lançamento desta unidade foi acompanhado da mudança de imagem da produtora. Porquê?

MV: Sempre nos associaram à Garage espanhola, porque partilhávamos o logótipo, sendo que as sociedades não se cruzam e não têm nada a ver uma com a outra. Mas mais do que essa partilha de um logótipo, o que levou à criação de uma nova assinatura foi o facto de a Garage ter três anos e estar posicionada como uma das melhores produtoras nacionais. Já tinha anunciado a Garage Photo várias vezes e mesmo assim as pessoas não tinham bem a percepção da existência de um departamento de fotografia por causa do nome. A Garage Films indicava um caminho redutor, até porque também já fizemos muitas outras coisas, inclusive para a internet.

M&P: Referiu que o vosso core business são os filmes, mas a conjuntura do mercado publicitário, com a redução dos orçamentos, não determinou a abertura desta unidade de negócio?

MV: Isso não teve qualquer ligação, bem pelo contrário. As pessoas têm de diversificar. As agências são os nossos principais clientes, sempre foram e vão ser sempre até à altura em que o mercado o permitir. Quando falamos em reduções de orçamentos temos de ter algum tacto. Na Garage temos um padrão que é o da qualidade. É óbvio que quando partimos para uma ideia cumprimos escrupulosamente o que está no briefing e tentamos fazer sempre o nosso melhor. Por vezes, não há esse valor e pedimos que nos digam quanto é que pode haver para essa ideia… Para um realizador deve ser extremamente frustrante estudar uma ideia, tentar criar um modus operandi e, de repente, aquilo vai custar um determinado valor e depois só existe metade desse valor para o fazer. É muito difícil para um realizador que já pôs uma ideia num determinado patamar trazê-la depois para baixo.

M&P: Como está a área de service?

MV: Ainda não fizemos nenhuma produção internacional. O Carlos Reis esteve no festival de Cannes a sondar várias produtoras. Agora vamos partir para uma segunda fase, que passa por ir aos países onde temos algo a comunicar para tentar abordar directamente as produtoras. O importante é fazermos o primeiro trabalho, porque isto funciona na base do passar a palavra. Se gostarem do trabalho vão dizer a outra produtora que venha cá trabalhar.

M&P: Que mercados vão abordar?

MV: Espanha, Alemanha, Rússia, entre outros. Os mercados de Leste são apetecíveis porque eles têm um Inverno muito rigoroso. Acho que é por aí. Temos uma costa lindíssima, temos bons serviços, logo temos todas as condições para ter cá boa produção. Agora estamos a tentar aligeirar as coisas da parte da Câmara Municipal de Lisboa para diminuir a burocracia. Às vezes são necessários seis ou sete dias para oficializar autorizações.

M&P: Do seu ponto de vista, o que terá contribuído para a diminuição dos orçamentos?

MV: Há diversos factores que levaram a que os orçamentos ficassem mais baixos. Um tem a ver com produtoras que, para entrarem no mercado, tiveram de entrar pelo preço baixo, porque antigamente as produtoras eram logo escolhidas à cabeça. Hoje há um olhar diferente sobre as produtoras e sobre os orçamentos. Enquanto as agências estiverem preocupadas com a qualidade, é pela qualidade que vão escolher a produtora com que vão filmar. Depois temos os clientes que olham para a questão do valor. Aí entra quem faz a compra. Quando a compra sai da agência e o valor é feito fora, por vezes isso tem peso. Se nós vamos para uma ideia que tem todos os parâmetros de orçamentação e uma das produtoras dá um valor muito mais baixo que a outra, já temos um problema. Ou não estão coisas contidas no orçamento ou o orçamento está muito mais baixo. E só há duas razões para que isso aconteça: ou não vão pagar ou não vão ter as coisas em condições.

M&P: Fala-se em contenção. Isso tem vindo a reflectir-se na Garage?

MV: Este ano já se filmou muito mais, já trabalhámos mais que o ano passado, embora a facturação ande ela por ela ou até mais baixa, porque cada vez se pede mais por menos. Esse mais por menos não é pecaminoso desde que vejamos o que estamos a fazer, ou seja, não posso é estar a dar mais por menos. Que peçam mais por menos, tudo bem, agora dar, não. Temos é de ver até onde podemos ir.
M&P: Mas a orçamentação não pode vir a reflectir-se na qualidade?

MV: Não sinto isso. O que vejo é que há produtoras que estão a fazer dumping e que há outras que estão numa situação financeira alarmante, em que reduzem os custos para arranjarem trabalho. O que devia acontecer, como há pouco tempo aconteceu com uma produtora, seria todos os técnicos virarem-se para o mercado e dizerem que determinado fulano não paga. Isso aconteceu porque os técnicos se revoltaram e falaram do que deviam falar. As produtoras estão a pagar a seis e sete meses a técnicos e às empresas a que recorrem em outsourcing. Dessa forma é impossível as pessoas sobreviverem.

M&P: Está a falar de práticas de concorrência desleal. O que poderia ser feito para combatê-las?

MV: Em conjunto com o Carlos Reis, sou um dos fundadores da associação de produtoras. A associação foi fundada para, através da criação de uma grelha, se fazer um orçamento tipo para todas as produtoras, de leitura muito mais fácil para o cliente. Isso funcionou durante o tempo que teve de funcionar.

M&P: O que falhou então na associação?

MV: As produtoras não têm espírito de associativismo porque não olham para a frente, só olham para os pés.

M&P: A associação deveria, por princípio, dignificar a actividade ligada à produção. Em concreto, que ideias tem para alcançar esse propósito?

MV: Temos um problema ao nível associativo. Uma associação, como era o caso da nossa, tentava padronizar um orçamento, mas não podia falar de valores. Quando não podemos falar de valores, a associação prende-se um bocado. A associação devia servir para que todos os freelancers que não recebem se queixarem de que determinada produtora não lhes paga. Em relação a isso, a associação não pode fazer rigorosamente nada, legalmente não pode.

M&P: O que pode ser feito daqui para a frente?

MV: Esta forma de associação tem de ser repensada. Porquê? Porque se duas ou três produtoras grandes se juntassem e fizessem força para parar com esta situação, ou falassem com os técnicos que sabemos que têm sistematicamente dívidas de certas produtoras, as coisas seriam diferentes. Muitas vezes vêm bater aqui à porta a dizer que determinada produtora não paga e perguntam se nós podemos adiantar o pagamento. Sinto que, neste caso, além de estarem a concorrer deslealmente comigo porque estão a dar orçamentos mais baixos por pagarem a oito meses, ainda tenho de estar a recorrer a financiamentos para pagar mais cedo aos técnicos.

M&P: Quais são as produtoras a que se refere?

MV: Não vou falar do nome das produtoras porque não é muito delicado. Não posso estar aqui fazer juízos de valor. Cabe aos técnicos fazerem aquilo que têm direito de fazer. Se se fez algo em relação a uma coisa chamada Montaini, em que toda a gente disse que deviam e depois acabaram por enviar para lá cartas por causa das dívidas, deviam fazer o mesmo para todas.

M&P: São questões que poderiam ser tratadas nas instâncias próprias. Porque é que as pessoas não o fazem?

MV: As pessoas têm medo e pensam que se a produtora que está em dívida as chamar outra vez para trabalhar vão receber o dinheiro do trabalho anterior. É uma pescadinha de rabo na boca, que não pára, mas que algum dia terá de rebentar. Tem de haver alguma forma de isto ser um bocado regulamentado.

M&P: De que tipo de regulamentação está a falar?

MV: As pessoas deviam queixar-se, e isso já seria uma forma de regulamentar. Estou a falar, por exemplo, dos electricistas. Se trabalham hoje e só vão receber daqui a alguns meses, as pessoas vão passar dificuldades. Isto está a acontecer sistematicamente e devia haver normas para isto. Vocês, como jornalistas, que ainda por cima já falaram várias vezes sobre produtoras, dificilmente ouvirão falar de maus pagamentos da Garage, da Ministério ou da Show Off. Depois aparecem às vezes produtoras pequenas que dizem que podem estar à altura das grandes. Como é que podem estar à altura das grandes se não têm estrutura para isso?

M&P: Referiu que a associação não tem determinados poderes e que muitas vezes as pessoas têm medo de denunciar essas situações. Então que papel é que a associação poderia ter nesse sentido?

MV: Por isso é que estou a tentar reactivar a associação, para todos juntos pensarmos numa maneira de o fazer. As finanças andaram em cima de empresas pequenas, grandes, médias e de pessoas individuais e houve um crescendo de declarações das finanças para concertação de pagamento de pessoas individuais e de empresas. Devia haver alguma forma de os técnicos se queixarem a alguém sobre as produtoras que lhes devem e há quanto tempo. Está na altura de se fazer um rastreio às produtoras que demoram a pagar a esses técnicos. Por outro lado, se houvesse uma associação de empresas de aluguer de material, não existiria esta situação, porque elas comunicariam entre elas e saberiam quais as empresas que são devedoras. Essa seria a forma mais linear de trabalhar, pois ao comunicarem entre elas saberiam quais as produtoras que devem.

M&P: Já desenvolveu contactos no sentido de montar outra associação?

MV: Ainda não, porque tenho estado ocupado com a nova imagem da Garage. Mas assim que esta fase estiver concluída vamos parar um bocado para reflectir e falar sobre a associação. É importante para o mercado da publicidade e das produtoras falarmos sobre essas questões.

M&P: Que argumentos vai apresentar às produtoras para elas se sentirem interessadas na associação?

MV: Vou falar da necessidade de coerência entre as produtoras. Se há uns anos nos conseguimos unir em torno da uniformização dos orçamentos, agora o que há a fazer é tentar regulamentar o funcionamento das produtoras. O objectivo é discutir entre todos e criar um regulamento para o sector.

Deixe aqui o seu comentário