“Queremos ser um protagonista de nicho”

Por a 30 de Maio de 2008

Março assistiu ao nascimento de um projecto editorial independente focado em temas de equilíbrio e sustentabilidade. Em entrevista ao M&P, Pedro Norton de Matos,fundador da Gingko, explana o conceito da revista e revela as expectativas que a empresa Have a Nice Day tem para o projectoDepois de abandonar o cargo de CEO da Oni, Pedro Norton de Matos passou a focar a sua actividade em duas empresas. Para além da Have a Nice Day, que fundou em conjunto com a jornalista Ana Rita Ramos, o empresário está ligado, paralelamente, a um outro projecto, a My Change, criada em 2006 e que actua na área da gestão de mudança em empresas. O lançamento da Gingko marca a estreia na área editorial.

Meios&Publicidade (M&P): Um projecto editorial dedicado a temas como o equilíbrio, o bem-estar ou a responsabilidade social é sustentável enquanto negócio?

Pedro Norton de Matos (PNM): Pensamos que sim. O projecto está subordinado a um tema conceptual que é a Gingko como sinónimo de equilíbrio nas diferentes vertentes: pessoal, profissional e ambiental. Pensamos que há espaço para uma revista que trate este tipo de temática. Porque numa sociedade em que há um pessimismo que atravessa a política, a economia, os valores, nós temos uma postura de ver o copo meio cheio. Achamos que há histórias de pessoas, de empresas, de colectividades, que merecem ser contadas e que podem servir de inspiração para outras pessoas, outras empresas, outras colectividades e, portanto, acreditamos que há espaço para um projecto desta natureza.

M&P: A Gingko faz parte de um conceito que inclui outras vertentes.

PNM: É de facto um conceito muito elástico. Gingko é o nome de uma árvore asiática que tem um código genético ímpar. Tem milhões de anos, é a árvore mais antiga do planeta, coexistiu com os dinossauros, sobreviveu aos bombardeamentos atómicos no Japão. É uma árvore praticamente imune a pragas. Daí termos escolhido o nome para o conceito. Debaixo deste guarda-chuva cabe muita coisa. Pensámos desde logo criar dois ramos: um que tem mais a ver com experiências na área do wellness, do bem-estar, em que se integra o fitness, a área de spa e a área médica, quase como um contraste com a indústria a que alguns autores chamam do mal-estar, que é a indústria da medicina convencional na sua maioria, que trata os sintomas e não as causas. O conceito vai continuar para a área das viagens e das lojas. E tem outro ramo que é a revista.

M&P: Que papel assume a revista no seio do projecto?

PNM: A revista é um projecto autónomo, independente do outro ramo, mas tem um denominador comum que é o conceito de wellness. Não é, nem pretende ser, um catálogo dos produtos e serviços da Gingko. Partilha o nome e o conceito mas é algo autónomo, independente. Aliás, a revista fala muito mais de outros projectos, porventura concorrentes, do que da Gingko Wellness Experience, e isso mostra bem a independência do projecto editorial da revista.

M&P: E qual o enfoque no portal Gingko?

PNM: Complementamos a revista com um portal, desenvolvido muito numa lógica actual de participação e colaboração pró-activa por parte dos leitores, neste caso dos internautas, em que são eles próprios a fornecer conteúdos e a entrar em fóruns de discussão alargados. É algo que estamos a construir, em que estamos a dar os primeiros passos. O portal é um complemento à revista. Acreditamos que isso cria uma dinâmica, uma intimidade e uma cumplicidade com o internauta, que permitirão que o projecto se vá afirmando neste território do equilíbrio. Agora também o blogue está a dar os primeiros passos. É algo que acontecerá nas próximas semanas, na linha do que referi: criar espaços de debate de muitas destas temáticas. Dar a voz ao utilizador, ao cliente, ao consumidor, à colectividade. Isso é uma das coisas que as novas tecnologias permitem e que alteram a relação tradicional que era muito mais passiva.

M&P: A Gingko coloca a tónica no lado positivo das coisas. O objectivo da revista passa por melhorar a qualidade de vida das pessoas?

PNM: Creio que este tema responde a um anseio colectivo e individual, que é encontrar equilíbrios num mundo já de si um pouco desequilibrado. Por exemplo, o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional ou o equilíbrio entre a nossa parte física e a nossa parte mental, porque em última análise todos nós procuramos ser felizes ou maximizar os nossos momentos de felicidade. É reconhecido que ao viver nas sociedades modernas, este viver de forma sôfrega na sociedade da informação e do conhecimento, em que estamos sempre online, acabamos por ter relativamente poucos momentos de pausa e de introspecção. A temática é de facto positiva e tem outra característica muito diferenciadora da maior parte das revistas que existem no mercado. Refiro-me ao contar histórias reais, de pessoas reais. Há outras publicações que usam e abusam das histórias inventadas, um bocadinho romanceadas e fabuladas. Aqui não, as capas são de pessoas reais, de histórias reais, de vidas reais. Há muitas histórias positivas para contar. As notícias das primeiras páginas dos jornais, de muitas revistas e os telejornais da televisão dão a ideia de que vivemos num mundo perfeitamente negativo e não é assim. Acreditamos no lado positivo, acreditamos na vertente humana, no capital humano e é esse aspecto que queremos, de alguma forma, desenvolver na revista.

M&P: Actualmente há de facto apetência do público para este tipo de temas ou é a oferta que está a gerar esta apetência?

PNM: As dinâmicas de mercado são sempre resultado da oferta e da procura. Nós, indiscutivelmente, sentimos essa apetência e os primeiros sinais deste percurso são estimulantes e gratificantes. Temos tido uma receptividade muito grande e acreditamos que a Gingko vai de facto ao encontro das necessidades das pessoas. Hoje vive-se em ritmo vertiginoso, numa sociedade muito materialista e as estatísticas demonstram que as pessoas não são mais felizes. As estatísticas provam que há mais pessoas doentes, há mais depressões e as sociedades estão sem rumo, sem norte, faltando-lhe coordenadas. Acreditamos por isso que estamos a ir ao encontro de uma necessidade real. Não temos respostas para tudo, mas fazemos perguntas e damos pistas. Acreditamos nas pessoas e na capacidade de realização das pessoas. Um aspecto a que damos muita importância é a chamada ética da responsabilidade individual e colectiva. Porque há como que uma tendência egoísta, egocêntrica e comodista de as pessoas individualmente se esconderem atrás das multidões. Há um perigo que este raciocínio facilitista conduza a um estado de braços caídos, de inércia, negativa e nós procuramos de facto combater isso. Porque acreditamos, pelo contrário, que cada um de nós, através dos seus pequenos gestos faz a diferença. Porque temos a responsabilidade do que transmitimos como herança às gerações que vêm a seguir a nós. Temos a responsabilidade de poder contribuir para um mundo melhor, mais justo e mais sustentável. Acho que vamos ao encontro de uma necessidade real porque há uma procura de uma nova ordem, falidos outros modelos de outras ordens que acabaram por colapsar.

M&P: Posso concluir que o objectivo da revista é levar esse conceito às pessoas, antes de ser encarada como um negócio em si?

PNM: É as duas coisas. A Gingko é um projecto comercial que suporta o seu modelo de negócio na atractividade que tenha sobre potenciais anunciantes. Não foge à regra da maior parte das publicações ou do modelo de negócio de media. É um negócio comercial. Mas é sobretudo um projecto de paixão dos promotores. A minha sócia e, diria, a alma e coração do projecto, é uma jornalista, a Ana Rita Ramos, que elegeu esta área em detrimento de outras porventura mais seguras e mais cómodas, porque entende que é a forma de intervenção e sente essa responsabilidade. A Gingko pretende ser um projecto bem sucedido do ponto de vista comercial mas acredite que esse não é o primeiro objectivo. É, também, mas não é o primeiro. Há aqui uma aposta que tem um risco associado, mas que tem muito a ver com a convicção de que há espaço para ser valorizado pelos leitores.

M&P: Que tipo de anunciantes pretendem cativar? Procuram marcas que promovam a responsabilidade social?

PNM: Acreditamos que há um espectro bastante alargado de potenciais anunciantes. O tema da sustentabilidade, além de tudo mais, está na agenda, está na moda. E acreditamos que não é uma moda passageira, é algo que veio para ficar, um caminho irreversível. Senão vejamos: está-se a dar um fenómeno muito interessante de inversão da pirâmide tradicional, porque nestes temas são os jovens, são as novas gerações, que de alguma forma educam os mais velhos. Seja por convicção, seja por moda, seja por hipocrisia, seja porque tema for, a sociedade em geral e as empresas em particular aderem a esta temática e a este fenómeno. Hoje em dia não vejo sector económico que não tenha preocupações no domínio ambiental e no domínio do equilíbrio dos seus colaboradores, até por uma questão economicista, de produtividade. Não conheço nenhum sector que não tenha apetência para estas temáticas. Há indiscutivelmente empresas e produtos cujo ADN está nos valores defendidos pelo conceito Gingko. Qualquer que seja o sector encontra ‘n’ empresas que se estão a posicionar claramente nestes valores. Portanto, para muitos, esta revista é a cara dos conceitos que tanto defendem. Neste contexto, achamos que, de facto, há apetência e que há mercado. Um balanço mais claro só pode ser feito mais para a frente.

M&P: A revista vai no terceiro número. Que balanço está a ser feito da parceria com o Sol enquanto veículo do encarte, e dos números de vendas?

PNM: O nosso modelo de distribuição tem duas facetas: o eixo de distribuirmos gratuitamente com o Sol na grande Lisboa é uma mais-valia para o leitor do Sol e um benefício para nós, que ganhamos um canal de distribuição de um semanário de qualidade. O perfil do leitor do Sol tem muito a ver com o leitor da Gingko. É uma parceria win/win. Complementarmente, resolvemos estar presentes em mais de mil quiosques seleccionados em todo o país, para chegar a um determinado perfil de leitor. Mas ainda é cedo para perceber tendências. Há todo um percurso a fazer, mas estamos francamente optimistas. O feedback que vamos recebendo é muito positivo e encorajador. Esperamos vir a ter um reconhecimento como a revista mais representativa deste nicho.

M&P: O encarte no Sol é para manter?

PNM: Fizemos a parceria numa perspectiva intemporal, portanto poderá ser vitalícia. Equacionamos no futuro acompanhar toda a tiragem do Sol, assim se confirme a aceitação da nossa proposta. É algo que está no nosso horizonte temporal. Neste momento estamos com uma tiragem de cerca de 30 mil na grande Lisboa com o Sol e cerca de 10 mil em banca.

M&P: O encarte garante-lhes uma tiragem elevada.

PNM: Exactamente, esse foi o nosso raciocínio. Acreditamos que há lugar para esta temática, que não estava suficientemente bem tratada, e entendemos ser esta a melhor forma para lá chegar rapidamente, para poder ter uma tiragem da ordem dos 40 mil exemplares. Se fôssemos fazer o percurso da banca – onde temos visto soçobrar projectos, alguns deles de qualidade, mas que não tiveram fôlego para aguentar a travessia no deserto – seria mais complicado. No primeiro ano, um projecto só de banca passa praticamente o tempo todo sem estar no radar das empresas, acaba por fazer um percurso contra o status quo do mercado. A forma como os pontos de venda estão organizados não acarinha de todo os projectos novos. Só se um projecto se vier a afirmar é que passa a ter a atenção dos próprios responsáveis dos quiosques. Portanto, para nós foi muito importante esta opção de ir à procura de um canal de distribuição que nos garanta chegar a um perfil conhecido de leitor, porque é também isso que os anunciantes valorizam.

M&P: O enfoque está na captação de anunciantes?

PNM: Não colocamos o maior ênfase nesse domínio. Queremos sim perceber quanto é que o leitor está disposto a pagar por um conteúdo de grande qualidade. Também sabemos que há o efeito contrário, perverso, de o leitor não valorizar algo que lhe é oferecido, mas queremos mostrar que aquela oferta tem valor e que entendemos, com a parceria com o Sol contribuir com esse valor para o leitor. E os anunciantes valorizam isso, vão às estatísticas das publicações ver a quantos potenciais clientes é que as revistas chegam.

M&P: A Have a Nice Day é uma editora independente focada no lançamento da Gingko. Quais as vantagens de não estar associado a qualquer grupo de comunicação?

PNM: Tem as vantagens e inconvenientes associados a não estar ligado a nenhum grupo de comunicação, os inconvenientes estão do lado das sinergias, da dimensão, da massa crítica. Mas nós não somos, nem queremos ser grandes. Queremos ser um protagonista de nicho. Temos outros projectos paralelos que permitem ajudar a cobrir os custos fixos. Não queremos ser grandes. Queremos ser sobretudo ágeis, flexíveis, diferentes. Queremos ser reconhecidos como especialistas nos nichos em que actuamos.

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