“Não é um adeus definitivo”

Por a 9 de Maio de 2008

Na despedida da presidência do Sinos, o ex-líder da McCann faz um balanço da sua ligação à publicidade. Daqui para a frente António Silva Gomes será um “mero” espectadorAntónio da Silva Gomes deixará no final da 9ª edição a presidência do Festival Internacional de Publicidade e Comunicação em Língua Portuguesa, também conhecido por Sinos. No entanto, segundo garante em entrevista, continuará a marcar presença no festival como profissional da comunicação. O M&P foi conversar com este tubarão da comunicação sobre a edição deste ano dos Sinos, que se realiza em Portimão entre 12 e 17 de Maio, sobre o seu passado na McCann e sobre o que o futuro lhe reserva.

Meios & Publicidade (M&P): O que pretende fazer quando deixar os Sinos?

António Silva Gomes (ASG): Há uma pequena correcção. Vou deixar o festival do ponto de vista da intervenção, mesmo a intervenção limitada como é este ano. Como presidente do festival, este ano vou ter que lá estar para dar assistência , tal como nos anos anteriores, aos jurados. No fundo, estar presente porque há sempre imponderáveis que têm que ser resolvidos. Nos próximos anos estarei a assistir e a bater palmas.

M&P: Como vai ocupar os seus dias?

ASG: Ando armado em arquitecto recuperador. Já recuperei duas casinhas desde que saí. Mas depois não tenho coragem para as vender… Tenho uma cabana na Serra da Estrela que foi um entretenimento enquanto estava operacional e que agora serve para muita gente, inclusive um mini-negócio turístico.

M&P: Centremo-nos no festival. Qual é a importância que as agências dão ao Sinos?

ASG: Temos, no mínimo, quatro mercados. Se falarmos do Brasil, é um mercado super desenvolvido no que respeita aos festivais, prémios e personalidades que ganham. Até aqui têm dado importância ao Festival de Língua Portuguesa. São eles próprios que avançam com a argumentação de não precisarem de transformar a ideia para caber dentro de um festival onde se fala inglês, como por exemplo Cannes. A ideia é expressa na língua que vai ser avaliada, por gente que fala a mesma língua, embora de países diferentes. Moçambique é um mercado onde se aposta no futuro e que tem uma qualidade que agora já sabemos que é elevada. No princípio do festival não suspeitávamos que pudesse ser tão elevada. Há uma agência muito premiada no nosso festival e inclusivamente em Cannes. Angola tem vindo a crescer todos os anos. Numa homenagem do que tem sido a evolução da publicidade em Angola nos últimos anos, o presidente do júri de mass media este ano é um angolano com muito destaque e que foi premiado com o Prémio Carreira nos Sinos. O mercado português tem apresentado maior quantidade de trabalhos. Pela altura em que se realizava, no final do ano, o festival não tinha uma grande participação das grandes agências ainda que as pequenas agências estivessem sempre presentes.

M&P: As agências portuguesas dão mais importância aos festivais internacionais do que aos nacionais como o Sinos e o Clube dos Criativos?

ASG: Só uma pequena correcção… este é um festival internacional.

M&P: Falemos então dos festivais feitos cá dentro e os de fora…

ASG: Não é a mesma coisa ficar cá e ir a Cannes, que são os Jogos Olímpicos da publicidade. Além disso, há a motivação adicional para ir ao estrangeiro. Pode ser que um dia este festival evolua e se realize noutro sítio e poderá ter um interesse adicional das pessoas nos outros países. Se calhar, as pessoas saem daqui e vão ao Festival de Língua Portuguesa noutro sítio.

M&P: Põem essa hipótese?

ASG: Já se pôs. Aqui há uns anos fui a Macau. Fiz lá uma apresentação e até houve um intercâmbio de uma estudante de uma escola de design que foi convidada por nós e pelo instituto de Macau para vir assistir ao nosso festival. De futuro se houver massa crítica, poderemos fazer esse tipo de coisas.

M&P: Porque há esta constante mudança de cidade?

ASG: Tem a ver com os apoios que vamos tendo. Nunca lhes bati à porta, mas não há um apoio efectivo de órgãos oficiais. Nos primeiros festivais foi a Câmara da Figueira da Foz e a organização que engloba o Casino. Com esse apoio foi possível fazer o primeiro festival. Com a mudança do presidente da Câmara e o baixar do interesse, surgiu outro tipo de interesses em Espinho. Houve um ano que se fez a experiência de mudar o festival para o centro do mercado português: Lisboa. Não tivemos qualquer diferença em termos de presença de pessoas. As galas têm em média à volta das 200/250 pessoas. Aqui, apesar de termos tido apoio do Hotel Mirage, saiu-nos mais caro por não termos tido tanto apoio. Foi muito bom, mas aproximamos o nosso passivo ao que tem o Benfica (risos). Tivemos que rever as coisas. No ano passado foi no ISCTE. Pensámos que podia envolver mais gente até por ter a comunidade académica. Mas foi o mesmo número de pessoas. Agora é uma tentativa de aumentar a dimensão. Tem outro tipo de apelo. Algarve é Algarve, tem outro clima e a possibilidade de fazer um formato diferente de festival.

M&P: A adesão das agências é suficiente para manter o festival?

ASG: Há uma parte muito importante que é o patrocínio da SIC. É desse patrocínio que depende a realização do festival. No princípio, durante três anos, foi a RTP e depois a SIC interessou-se. No âmbito da SIC Esperança há em disputa o troféu SIC Esperança que é um pouco a nossa contrapartida. Este ano haverá no sábado de manhã uma clínica de golfe para convidados da SIC.

M&P: As inscrições não são suficientes, portanto, para sustentar o festival.

ASG: Não. Se não existisse o apoio da SIC e da Câmara de Portimão não dava para fazer. O festival tem tido um apoio muito significativo da TV Globo. Os filmes são exibidos lá [no Brasil] para promover o festival. Em Portugal há várias permutas, de pessoas que vão estar lá a apoiar a montagem dos filmes, manutenção e actualização do site, computadores e programadores, carros para ir buscar jurados ao aeroporto. São apoios significativos. Se fossemos quantificar isso é muito dinheiro.

M&P: O que teve de inovador a promoção deste ano do festival?

ASG: Ao longo dos anos tem havido empresas que dão apoio. Este ano para os outros assuntos à volta do festival propriamente dito, fez-se uma parceira com a Be One que se ocupou desses aspectos. Em dois anos a cerimónia de entrega dos prémios foi transmitida pela SIC. Num dos anos tivemos o mágico Luís de Matos que fez um espectáculo à volta da magia da publicidade. Noutro ano tivemos um espectáculo completo de Fernando Pereira dentro do tema da Lusofonia. Vieram artistas de Cabo Verde, Brasil, Moçambique. E o que não veio ele imitou. Houve outros anos em que no final há um espectáculo e isso não tem sido bem sucedido. Num ano tivemos esse espectáculo com a Sara Tavares, mas as pessoas foram assistir à entrega de prémios e depois foram-se embora. Num outro ano fomos buscar pessoas que foram modelos de publicidade há 40 anos: Lídia Franco, Camilo de Oliveira… O que quero dizer com isto é que há sempre qualquer coisa de diferente. O modelo standard é um espectáculo que envolve a entrega dos prémios. Quando há interesse em fazer a transmissão, procura-se fazê-la. Este ano houve uma série de mudanças dentro da SIC e não houve possibilidade de chegar a falar com a pessoa.

M&P: O que vai ser feito este ano?

ASG: Este ano é o espectáculo de Marcelo D2, rapper social. Um concerto que vai ser no fim da entrega dos prémios. Vai ser num sábado e as pessoas no dia a seguir vão para a praia lá para o meio dia…

M&P: E como estão a correr as inscrições?

ASG: Prognósticos, como diria o outro senhor que jogou no FC Porto, só no fim… Os desejos são que seja mais do que no ano passado, que foram um pouco menos do que 800 inscrições. Se andar próximo desse número, já é bom porque houve uma antecipação da data para aproveitar o clima e também a existência de budgets nas agências.

M&P: Os outros países também entregam as inscrições à última da hora?

ASG: Houve um ano em que houve uma cheia em São Paulo e não podiam entrar na Ogilvy durante uma semana. Quando entraram, mandaram os ficheiros por e-mail. Estivemos nós a imprimir setenta e tal trabalhos, na véspera das votações do júri. A inscrição tinha sido feita, mas faltavam os trabalhos. Última hora é isto. As de Moçambique vai-se sempre à última buscar ao aeroporto que é quando chegam. A matriz nacional ficou lá.

M&P: No ano passado alguns elementos do júri diziam que a divulgação do festival nos seus países não era a desejável. Isso foi corrigido este ano?

ASG: A promoção em Portugal, tanto quanto me tenho dado conta, não podia ter sido melhor. Em relação ao Brasil não houve possibilidade de reestruturar. É a gente do costume com menos tempo que outros anos. A intenção era ir pessoalmente passar a bola. Por motivos de saúde de última hora, não foi possível eu ir e ninguém conseguiu substituir-me. Provavelmente no próximo ano irá ser feito.

M&P: A ideia é manter a data?

ASG: Sim. Há também outra ideia. Os nossos agentes no Brasil propõem-se fazer a entrega para agências brasileiras lá. Isso seria o ponto de partida para uma semana inteira de promoção, a bater à porta, a dizer o que ia acontecer para o ano.

M&P: E com esta última edição em que está envolvido, fecha-se o seu ciclo de ligação à publicidade?
ASG: Agora ando a escrever para um semanário sobre futebol e hei-de entrar na campanha para a nova direcção do Benfica quando chegar a altura. Portanto, não é um adeus definitivo.
“O lançamento da Coca-Cola em Portugal é um marco”
M&P: Como é que vê a McCann actualmente? Revê-se no que a agência se transformou?

ASG: Não. As coisas mudam. Era uma agência que chegou a ter duzentas e tal pessoas. Agora tem menos. Não me posso rever numa coisa que é diferente. Sem fazer juízos de valor. Não faço a mínima ideia do que se passa lá dentro.

M&P: Ainda há lá pessoas que trabalharam consigo?

ASG: Eu não quero arriscar, mas talvez haja duas ou três.

M&P: Como é que viu a forma como a Vera Nobre da Costa fez a reestruturação na altura, dispensando muitos da velha guarda?

ASG: No comments.

M&P: Que amigos e inimigos fez nesta área?

ASG: Do meu lado, não tenho inimigos e tenho alguns amigos. Não tenho nada contra ninguém e inimigos tenho de certeza absoluta. Não sei quem são.

M&P: E os amigos sabe?

ASG: Muitos deles só percebi que o eram na altura em que os inimigos puseram a cabecinha de fora. Tive surpresas boas e más.

M&P: No seu percurso, que trabalhos o marcaram mais?

ASG: Há coisas que são históricas. Por exemplo, o lançamento da Coca-Cola em Portugal é um marco, obviamente. Depois, ter conseguido aquilo que tinha sido o meu objectivo, ou seja, a possibilidade de fazer publicidade com os recursos que uma grande multinacional dá e que foi aquilo que procurei durante uma série de anos. Antes de fazer o acordo com a McCann e a venda posterior da Manuel Martins da Hora, consultei uma série de outras agências internacionais que me levaram a vários sítios e entendimentos. Isso foi o cumprimento de um plano. Isso é gratificante. Aquilo que me marcou são estas coisas. Fiz aquilo que quis fazer no campo da publicidade. Formámos o primeiro grupo em Portugal a funcionar com equipas próprias nas várias áreas, desde design, relações públicas… Numa mudança internacional de estratégia a McCann transformou estas áreas em empresas próprias. Tivemos que dar um nome a essas divisões e integrá-las nas networks internacionais.

M&P: O trabalho de publicitário é actualmente mais fácil do que no seu tempo?

ASG: É com certeza. A tecnologia e os recursos são diferentes. Há modelos, há bancos de imagem… Nivela tudo. Nesse aspecto é muito mais fácil.

M&P: Mas também há mais concorrência.

ASG: Mais? Não. Durante muitos anos havia uma ditadura com uma série de empresas encaixadas no sistema político. Havia agências que pertenciam também aos próprios clientes…

M&P: Vai escrever mais livros?

ASG: Há aí um que talvez. Crónicas sem conceito.

M&P: No seu livro Publicidade sem Espinhas fala de um mercado de muita camaradagem. Agora está diferente?
ASG: Agora não sei como é. Tem que se viver para saber. Havia um outro tipo de camaradagem. Agora vai tudo para Cannes, mas acho que não há convívio entre agências. Antigamente o João Rapazote ia, alugava um casarão, juntava toda a gente, fazia petiscos, o pessoal convivia. Isso é evidente que não há.

“Vamos mostrar um novo posicionamento”

Este ano a BeOne vai ser responsável pela organização de todo o Festival Internacional de Publicidade e Comunicação em Língua Portuguesa. Portimão foi a localidade escolhida para instalar a Aldeia da Pub, que entre 12 e 17 de Maio receberá os visitantes do evento. O mote de comunicação deste ano foi Inscreve os teus Macacos, numa associação ao filme King Kong. Frederico Rocha, responsável da BeOne, explica o que vai acontecer na próxima semana.

Meios & Publicidade (M&P): O que podemos esperar da edição deste ano do Festival?

Frederico Rocha (FR): Nas edições anteriores do Sinos, o festival cingiu-se à entrega dos prémios. Ou seja, uma parte muito técnica e àquele acto do júri votar e entregar-se os prémios aos vencedores. Este ano quisemos fazer algo que agregasse um bocadinho mais que isso e envolvesse actividades à parte da entrega dos prémios. E que envolvesse diversão, interacção com as pessoas, que provocasse momentos.

M&P: O que vai então ser feito?

FR: Na sexta-feira podemos contar com uma festa no Sasha. Terá uma envolvente da areia. É a única actividade que se passa fora do espaço do festival. Este ano é o ponto de partida para uma nova fase do festival. Melhorámos o festival onde foi possível, fazendo-o crescer. Fazia sentido ter um apontamento que envolvesse praia, um espírito mais Cannes, um cheirinho a Cannes. Na festa do Sasha vamos fazer a entrega dos bronzes. No sábado, no espaço dedicado ao festival, ao final da tarde, por volta das 18 horas, vamos fazer a entrega das pratas e ouros. Segue-se o jantar e posteriormente a entrega dos grandes prémios na não-gala onde temos a actuação do Marcelo D2. Haverá uma outra surpresa que não posso revelar. A rematar há uma festa que se espera de arromba.

M&P: Quais foram as maiores dificuldades?

FR: Este ano sabíamos que tínhamos duas dificuldades. Tínhamos o problema de à partida as agências terem muito menos peças para inscrever. Tínhamos menos tempo entre as duas edições do festival. Corríamos o risco de ter menos inscrições do que, por exemplo, no ano passado. Acho que vamos ficar com um número de inscrições bastante interessante. O que para mim é uma vitória, com menos quatro meses. A outra dificuldade tinha a ver com a nossa prestação na organização no festival. Tivemos muito pouco tempo. Foi um desafio. Por um lado, os custos do festival face aos anos anteriores duplicaram. Foi um investimento muito superior. Nestes três meses estabelecer parcerias e protocolos foi um desafio. Só é uma aposta ganha na perspectiva de futuro, na consciência de que este ano estaremos a dar este passo, para o ano estaremos a evoluir mais um bocadinho, no seguinte mais um bocadinho. Tentar posicionar o festival nos próximos três anos da forma como pretendemos, como um festival mais abrangente, mais interessante e conseguirmos que tenha uma adesão muito superior à que tem hoje.

M&P: As inscrições já fecharam?

FR: A pedido de algumas agências e com o nosso interesse prolongámos o prazo de entrega de trabalhos mais alguns dias. No final da semana passada as inscrições rondavam as 500 peças. Depois das acções com o macaco e com as bananas sinto que despertámos a atenção das pessoas. Pode não ter sido o suficiente para algumas agências inscreverem, mas não tenho dúvidas que este ano há uma curiosidade geral de saber como é que vai ser o festival, quais os moldes. Acredito que vamos corresponder às expectativas.

M&P: Mas é uma responsabilidade acrescida.

FR: Sim, mas não acredito que estejam à espera que nós de um ano para o outro, e com as condições temporais que tivemos, consigamos fazer algo estrondosamente maior e melhor. Mas acredito claramente que este ano vamos mostrar um novo posicionamento, mais atrevido, irreverente, brincalhão.Estamos a mostrá-lo já na comunicação. Chegando o fim, naturalmente vai existir um novo olhar sobre o festival. Espero que para o ano provoque ainda mais inscrições, a responderem ainda mais. Teremos um ano para o preparar junto dos parceiros, patrocinadores e agências. Aí sim, com a experiência deste ano, acredito que se consiga fazer um boa diferença.

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