“Grande parte dos jornais aceita fazer compromissos com fontes”

Por a 16 de Maio de 2008

A recusa em fazer compromissos com os poderes é a faceta que Pedro Tadeu considera mais marcante no papel que o 24horas teve no jornalismo em Portugal. Na altura em que o jornal da Controlinveste assinala o 10º aniversário, o director analisa o mercado e o 24horas na relação com leitores e anunciantesFundado por José Rocha Vieira em Maio de 1998, o 24horas é ainda o mais jovem diário generalista pago em Portugal. Depois de alcançar o pico de vendas entre 2004 e 2005, apresentou uma média de circulação paga de 35.803 exemplares em 2007.

Meios&Publicidade (M&P): Dez anos depois, o que representa o 24horas para a sociedade portuguesa?

Pedro Tadeu (PT): Há duas componentes no papel do 24horas (24h) na sociedade portuguesa. Uma na profissão de jornalista e outra na sociedade. É um jornal que vende diariamente uma média de 36 mil exemplares. Já houve uma altura em que vendeu perto de 50 mil, é um jornal que, dadas as tiragens habituais que existem em Portugal nos meios diários, é muito relevante no mercado, e é incontornável, quer do ponto de vista de influência da opinião pública, quer do mercado publicitário. Ao longo de dez anos também influenciou decisivamente a profissão de jornalista.

M&P: Mudou a maneira de fazer jornalismo?

PT: O jornalismo que hoje se faz é diferente do que se fazia há dez anos por causa do que o 24h introduziu no mercado, que é completamente diferente do que se fazia na altura. E a concorrência, para se defender do crescimento do 24h, adoptou técnicas e métodos jornalísticos semelhantes aos que o 24h usava e que foram inovadores no seu tempo. E isso reflecte-se numa coisa muito simples que é o facto de terem saído do 24h grande parte, senão quase a maioria, das direcções de jornais que existem na concorrência. Creio que isto demonstra a necessidade que o mercado teve de ir ao 24h buscar pessoas competentes.

M&P: A que métodos se está a referir?

PT: Uma coisa marcante no 24h é a radical independência e a total recusa de qualquer compromisso com todo o tipo de poderes que existem na sociedade portuguesa. Essa recusa de fazer compromissos com as pessoas que representam o poder é uma característica completamente nova, que o 24h trouxe.

M&P: Essa recusa não existia nos outros jornais?

PT: Não existia nos outros jornais e ainda hoje não existe. Na minha opinião, grande parte dos jornais aceita fazer compromissos com fontes do poder político, económico, cultural e desportivo, que os levam a publicar informação que não é filtrada apenas pelo olhar descomprometido do jornalista, mas é resultado de uma negociação. Não quer dizer que não corresponda a uma verdade, mas não é a visão do jornalista, é negociada entre ele e a fonte.

M&P: Isso não acontece no 24horas?

Não acontece.

M&P: E acontece em jornais cujos directores saíram do 24horas?

PT: Os jornais estão cada vez mais capazes de assegurar a sua independência e hoje há uma prática jornalística melhor do que há dez anos, graças ao 24h e também à própria classe jornalística. Mas há um comportamento que é timbre do 24h que ajudou a criar condições para que os jornalistas conseguissem criar esse espírito de independência, o que não quer dizer que não haja problemas por resolver. Hoje defrontamos um problema que se calhar não existia há dez anos, que é a profissionalização dos lóbis e das empresas de comunicação, que influenciam o pensamento dos jornalistas. Eles começam a pensar e a acreditar nas coisas da forma que convém a essas empresas e isso afecta a visão que o jornalista tem das notícias. Mas o que existia antes desta profissionalização era também muito grave: havia um raciocínio de pensamento único na profissão, que mudou com o 24h. A visão das coisas hoje é mais variada do que era há dez anos. A própria construção da agenda de cada um dos jornais mudou. Há dez anos se calhar todos os jornais tinham mais ou menos as mesmas manchetes. O 24h ensinou que há uma agenda alternativa à agenda habitual.

M&P: Mas dependente da agenda mediática.

PT: Há um problema que todos os jornais enfrentam, mesmo o 24h: a informação que nos chega vem, em 80% dos casos, dos mesmos sítios. Portanto a notícia com raiz própria nos jornais é um pouco reduzida. Mas é muito mais vasta do que era há uns tempos. No 24h encontra-se, na mesma notícia que os outros também têm, uma visão diferente.

M&P: Essa visão do 24h tem contribuído para uma maior informação?

PT: Há excesso de informação. Eu próprio, antes de chegar ao jornal já ouvi rádio, vi noticiários televisivos, trago cinco gratuitos e vejo no Metro, nos televisores que têm lá expostos, resumos do futebol, notícias, pequenas reportagens… É uma quantidade de informação absolutamente avassaladora. Isto significa que os jornais pagos têm que procurar qualquer coisa diferente. Às vezes pode parecer bizarra ou ao lado do que a realidade nos traz, mas tem o mérito de mostrar um outro ângulo de um acontecimento que já todos conhecem.

M&P: O jornal ressente-se dessa recusa de compromissos com as fontes?

PT: Sim, há muita gente que não fala ao 24h. Porque têm um bocadinho de medo do tratamento que nós damos às notícias que, de facto, é completamente descomprometido. Aqui não há amigos, há notícias. Fazer notícias é fazer inimigos. Porque a notícia só é relevante se for polémica ou se for de utilidade pública evidente. Mas isso é uma informação, não é uma notícia. Tudo o que seja polémico passa a ser notícia por isso. Muita gente tem medo do 24h e não quer falar ao jornal, mas isso nunca nos impediu de ter todas as informações que precisamos sobre todas as matérias que consideramos prioritárias.

M&P: Há um ano reformularam o jornal.

PT: Tivemos uma queda muito grande de vendas. O jornal estava nesses dois últimos anos muito agarrado em termos de capas a temas ligados ao chamado Jet 7 e sentimos que as pessoas já não estavam satisfeitas com isso. O que sucede é que o próprio formato de jornal, para este tipo de assuntos, não é o ideal. Fomos inovadores nessa área, depois outras revistas começaram a acompanhar, e começou a haver uma mistura entre o papel do 24h e o dessas revistas. E porque o suporte deles é mais confortável e o público maioritário deste tipo de assuntos é feminino, o 24h começou a perder capacidade de resposta. Portanto tivemos que virar o jornal: ao fim-de-semana temos duas revistas fortes nesta área, que competem directamente com essas revistas e durante a semana temos um jornal em que o mais importante é a informação útil e informação de justiça, crime, política e dinheiro.

M&P: A reformulação foi feita para inverter a quebra, mas essa tendência continua.

PT: Não é verdade. No início do ano tivemos um crescimento de vendas em banca de 3% e nos dois meses seguintes um crescimento de 8 a 10% face ao período homólogo, o que é significativo. Não podemos esquecer que esta reformulação acontece com o aumento do consumo de jornais gratuitos. Uma das nossas forças no mercado era sermos o jornal mais barato e penso que o 24h é o que mais sofre com o aparecimento, a afirmação e a sustentação dos jornais gratuitos. Por outro lado, há uma evidente melhoria dos jornais pagos nas áreas onde nós éramos mais fortes, na área do social, da televisão, do crime, nomeadamente no Correio da Manhã, que tem um noticiário muito competitivo nessa área. Daí o 24h ter sentido necessidade de se renovar. Desde que foi feita a reformulação o 24h, de facto nem sempre cresceu em relação ao período homólogo, mas de Julho até agora tem vindo sempre sucessivamente a ter melhores resultados. Isso significa que a aposta não está incorrecta.

M&P: Face à proliferação dos gratuitos, ainda há espaço para cinco diários pagos?

PT: Acho que sim, desde que encontrem qualidades que justifiquem a compra. Há duas maneiras de o fazer: melhorar o produto editorial e ter cada vez mais notícias diferentes daquelas que aparecem nos gratuitos. E ter linhas editoriais que definam o carácter do jornal, que o diferencie dos outros e agarre com firmeza faixas concretas de leitores. E há que encontrar nas redacções meios de rentabilidade que ultrapassem o fenómeno em papel: a informação que produzimos pode ser distribuída não só através do papel mas em múltiplos outros meios. E isso é um passo que o 24h terá que dar. Há ainda outro aspecto que os gratuitos não podem fazer, que é distribuir nas bancas produtos de marketing. Aí o 24h está francamente fragilizado em relação aos outros jornais pagos porque é o que faz o menor investimento em marketing.

M&P: O 24horas está no último lugar nos diários generalistas. Acredita que é possível regressar ao terceiro lugar?

PT: A diferença entre o terceiro e o quinto é de cinco mil exemplares. Um problema que o 24h enfrenta são as vendas em bloco. O Diário de Notícias e o Público, nossos mais directos competidores em número de vendas, fazem entre 3 e 7 mil exemplares/dia e conseguem inflacionar o seu valor. Nós temos zero, só vendemos em banca. A diferença seria menor se não existisse essa realidade, mas vai acontecer certamente no próximo ano de vez em quando o 24h ficar em terceiro.

M&P: Em relação à publicidade, o 24horas não capta muita atenção dos anunciantes.

PT: Existe um preconceito nas agências de meios em relação ao 24h, que acham que determinado tipo de anunciante com determinado tipo de estatuto não deve ser colocado lá.

M&P: Porque é que isso acontece?

PT: Por pura parvoíce. Isso não é verdade naquilo que diz respeito às vendas directas. Há uma apetência do mercado que não está dependente das agências de meios que acha que o 24h é um suporte interessante. Há nas agências de meios um preconceito bacoco em relação ao 24h, que omite os seus êxitos, os seus bons resultados, a sua penetração real na opinião pública portuguesa, prejudicando os seus clientes e retirando publicidade do 24h.

M&P: Se prejudica o 24horas e os clientes, qual é a vantagem para as agências?

PT: Tem que perguntar às agências, estou a analisar a realidade. O 24h tem níveis de penetração no mercado que justificam investimentos. Há publicações com audiências muito inferiores em que as agências de publicidade investem sem preconceito algum. Em relação ao 24h assumem até, nas relações que têm com os nossos vendedores, esse preconceito. Acho isso absolutamente inacreditável.

M&P: É possível inverter esse preconceito?

PT: Quando as agências se modernizarem e deixarem de ter a cabeça quadrada, esse preconceito desaparece.

M&P: Relativamente ao online, qual…

PT: Vamos lançar um projecto online que queremos que seja original, atraente e integrado no trabalho já rotineiro da redacção, que faça parte do próprio trabalho do jornalista no dia-a-dia, em que as notícias são sejam apenas uma das componentes. Vai demorar algum tempo a montar, não quero comprometer-me com cronogramas. Vou procurar ser diferente e relevante no mundo da internet. Tenho a ambição de ainda este ano ter isso montado.

M&P: Em 2006 admitia ao M&P que o 24horas não era um projecto rentável.

PT: E não é. Creio que a razão principal é o problema das agências de meios. Parece-me relevante que haja ainda pessoas neste país que consigam pôr os seus interesses e gostos individuais acima dos interesses da opinião pública. E com isso prejudicam publicações onde trabalham centenas de pessoas como o 24h. Mas vamos encontrar soluções para que dentro de algum tempo o nosso projecto seja muito rentável. Neste momento, penso que os dois únicos diários generalistas rentáveis são o CM e o Jornal de Notícias. Provavelmente dos três outros – não tenho a certeza porque não tenho os números – tenho quase a certeza de que, apesar de tudo, o jornal com melhores contas será o 24h. Tenho a visão de que as contas do 24h são mais saudáveis do que as dos jornais da concorrência que também dão prejuízo.

M&P: Mesmo dentro do grupo?

PT: Mesmo dentro do grupo. Mas não tenho a certeza.

M&P: Parece-lhe que o grupo poderá manter durante muito tempo jornais deficitários?

PT: O grupo tem lucro, não vive só dos jornais, tem também estações de televisão, de rádio… Tem uma dimensão que lhe permite gerir as coisas, mesmo com prejuízo num produto. Por exemplo, o facto do 24h pagar às gráficas do grupo contribui para os lucros da empresa. No saldo total, se calhar é vantajoso para o grupo ter o 24h a funcionar. O negócio 24h isoladamente considerado, de facto neste momento não é rentável. Mas no contexto do grupo se calhar torna-se um produto rentável.

M&P: No passado houve notícias que davam conta da sua saída do 24horas. Vê-se como director nos próximos cinco anos?

PT: Não faço ideia porque é muito tempo, mas não vejo neste momento nenhuma alternativa interessante no meu futuro profissional que não seja o 24horas.

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