“Somos mais uns tipos que querem fazer televisão”

Por a 14 de Março de 2008

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Menos de três meses após a saída da SIC, Francisco Penim regressa ao activo como director-geral da Cherry Entertainment, empresa que tem como primeiro cliente o canal do Benfica. Em entrevista ao M&P, Penim fala sobre o canal, o novo projecto e os dois anos de direcção de programas da SIC

No final de Novembro de 2005 Francisco Penim prometia levar a SIC de novo à liderança. Dois anos depois a estação bateu o recorde de rentabilidade, mas tornou-se no terceiro canal em termos de audiências, o que ditou a sua saída da estação e, uma semana depois, da Impresa. Agora, menos de três meses depois, o ex-director de programas da SIC surge como um dos três responsáveis da Cherry Entertainment, unidade criada no seio do grupo Ativism e que tem como objecto de acção o entretenimento, um conceito que pode ir da produção de programas à abertura de restaurantes, desde que “diferentes”. O Benfica é o primeiro cliente.

Meios&Publicidade (M&P): No dia em que apresentaram a empresa anunciaram que o vosso primeiro cliente era o canal do Benfica. Como é que o ganharam?

Francisco Penim (FP): Andava muita gente atrás do canal… Na SIC liderei um processo de negociação que durou quase três anos com o Benfica. Na altura o Benfica apareceu a perguntar se a SIC estava em condições de fazer o canal com eles.

M&P: Aí seria mais um canal SIC?

FP: Seria um canal encomendado pelo Benfica à SIC. A SIC estudou o negócio, ficou entusiasmada e estivemos em negociações durante dois anos e meio. Depois o Benfica chegou à conclusão, e hoje em retrospectiva parece-me correcta, também porque estou deste lado, que o canal devia ser detido pelo clube. Seria sempre muito complicado um grupo de comunicação ter lá dentro, mesmo que fosse com uma equipa ao lado, um canal deste género, com uma implicação desportiva/informativa tão grande. No início deste ano, já depois de termos constituído a Cherry – eu, o Pedro Costa e o Gonçalo Castel-Branco – houve um telefonema da SAD a propor que fosse a Cherry a fazer o start um do canal.

M&P: Não participaram então em nenhum concurso? No início do ano o director de marketing do Benfica deu uma entrevista ao M&P onde dizia que estava a decorrer um concurso com produtoras para o canal.

FP: Na nossa perspectiva houve um cliente, o Benfica, que nos convidou para algo, que se chama direcção de projecto. O que é a direcção de projecto? É fazer uma implementação técnica do canal, do que necessita para estar a emitir, fazer um acompanhamento da imagem corporativa do canal – vai ser tratado por uma empresa que não é a Cherry, mas depois vamos fazer a adequação da imagem corporativa à linguagem televisiva, nomeadamente definir a artística do canal. A outra parte tem a ver com a adequação de uma grelha de programas, de projectos, de conteúdos a horários. Esse é um trabalho que a Cherry tem que fazer, em conjunto com uma pessoa que teremos que encontrar, porque faremos também um trabalho de head hunting para encontrar o director do canal e uma outra pessoa. Feitas estas partes todas a Cherry há-de preparar o caminho para o canal estar no ar, será lançado, acompanharemos um, dois ou três meses e terminará o contrato.

M&P: Está previsto um segundo contrato? Um eventual acompanhamento ou produção de programas?

FP: Está. Eventualmente podemos continuar a acompanhar ou não, podemos produzir ou não, mas não está contratado.

M&P: Mas faz sentido que produzam para lá, ou não?

FP: Faz, mas neste momento a Cherry não tem nenhum contrato de produção com o Benfica. Depois de estar identificado e contratado o director, ele é que tem que decidir. Ele é que tem que decidir que programas quer, qual é a grelha, os horários. Nessa fase, terá o mercado todo à disposição.

M&P: O director não vai estar muito espartilhado pelo vosso projecto?

FP: Não, não. Pessoalmente já pensei nesta grelha há três anos. Quando a Cherry foi contratada deixei bem claro que por muito que eu soubesse e já tivesse reflectido sobre a grelha, os conteúdos, os horários, isso seria alinhado com a estratégia do clube – e muitas coisas mudaram desde o início das negociações na SIC. Essa ajuda que a Cherry poderá dar será validada pelo director do canal. Essa pessoa nunca se sentirá espartilhada a dizer “isto é o que eu tenho que fazer”. Vai-lhe ser explicado que há uma estratégia e qual é. Basicamente a estratégia é que o canal tem que ser a voz do Benfica, tem que ter essencialmente futebol, não pode ter só futebol…

M&P: E não tem o exclusivo dos jogos do Benfica, não é?

FP: O clube há-de falar sobre isso. Eu não vou falar hoje sobre os conteúdos do canal. Estrategicamente é a voz do Benfica. Tudo o que é cultura benfiquista, tudo o que um adepto, sócio ou simpatizante, em Portugal ou no estrangeiro, pode querer ver sobre o seu clube de eleição vai poder ver na sua plenitude, e integrado no que é ser benfiquista… Sobre o resto não posso falar agora.

M&P: Disse ver em Portugal ou no exterior. Como é que poderá ser visto no exterior. Satélite, internet?

FP: O canal terá que estar disponível através de plataformas de massa. Quantas mais plataformas de massa tiver, melhor. Mas não vou tecer considerações sobre se é a plataforma A ou B. Mas, inevitavelmente, plataformas que cheguem ao maior número de pessoas é o que o canal vai querer.

M&P: O Benfica disse em Novembro que com a TV Cabo já não faria o canal. Faz sentido que seja noutra operadora, sendo que a TV Cabo tem uma dimensão superior?

FP: A minha opinião é: o maior número de plataformas será sempre bem-vindo para os benfiquistas. Portanto, limitar a uma plataforma, a duas, a plataformas mais pequenas, não faz sentido nenhum. Diria que o objectivo será estar em todas.

M&P: E será um canal premium?

FP: Não vou falar sobre isso.

M&P: Para além do canal, a Cherry pode fazer outras coisas para o Benfica?

FP: Estão a existir outras conversas exploratórias no sentido de fazermos outras coisas. É possível que aconteça, mas é muito cedo.

“Há abertura da SIC e da TVI”

M&P: Ao arrancarem com o canal do Benfica aparentemente começam logo pelo melhor. O que vier a seguir não vai parecer menos interessante?
FP: Não estou preocupado com isso. Este é, de facto, o melhor cliente que a Cherry poderia ter como o número um. Será sempre o número um. É um cliente grande, o negócio era muito procurado, havia grande expectativa sobre quem é ia fazer isto… Depois, ter a oportunidade de lançar mais um canal de cabo para mim é importante. Não estou nada preocupado com o segundo, terceiro ou vigésimo cliente. Apenas quero tornar a Cherry o mais rentável possível, com o break even já este ano. Se for possível ficarei muito contente.

M&P: Estamos a falar de uma facturação prevista de quanto?

FP: Não vou falar sobre números.

M&P: Tem-se falado de um investimento inicial de 500 a 600 mil euros. Este número é real?

FP: O capital social da Cherry é de 500 mil euros e parece-nos que no primeiro ano vamos conseguir o break even. É uma ambição da direcção.

M&P: De quem é a empresa? Está na Ativism, mas é do grupo? É vossa?

FP: A empresa é da Ativism, não é nossa, de todo.

M&P: Dizem que vão fazer tudo o que seja entretenimento, desde inauguração de restaurantes a programas de televisão. Não é demasiado abrangente? Como é que surgiu a ideia?

FP: Surgiu a ideia de não fazermos uma produtora de televisão, ou não fazermos uma editora discográfica, ou uma agência de agenciamento… Surgiu a ideia de fazermos um pouco de tudo, de nos rodearmos de pessoas que conseguissem compreender esta ideia mais global de entretenimento, onde basicamente quase qualquer coisa pode ser vista como entretenimento, desde que pondo de lado a parte da ficção, dos current affairs, e do hard news. Tudo o resto vamos querer fazer. É um projecto de intenções. Havemos de conseguir fazer umas coisas e outras não. Queremos lançar livros e revistas, mas não sei se revistas já…

M&P: Revistas corporativas ou outras?

FP: Podemos estar a falar de revistas corporativas, desde que as corporações sejam mais da área do entretenimento, ou que alguém nos peça revistas mais desse género. Desde que não sejam revistas de informação, vamos tentar fazer alguma coisa.

M&P: Informação no fundo é tudo.

FP: Informação no fundo é tudo, mas podemos fazer uma revista de música, espectáculos, bailado, brinquedos sexuais, não faço ideia… Desde que não seja uma revista sobre política ou uma newsmagazine…

M&P: Acredita realmente que vai fazer inaugurações de restaurantes, ou é uma forma muito lata de descrever a Cherry?

FP: É essencialmente uma forma lata, mas não lhe escondo que acredito. Acredito que a Cherry possa deter dois restaurantes, têm é que ser restaurantes diferentes. Não é propriamente abrir uma casa de pasto ou uma pizaria. Agora, se abrirmos uma pizaria onde os empregados cantam árias de ópera, parece-me diferente de apenas um restaurante. Tem que ter ali outra coisa… Ou porque se come no escuro ou descalços em cima de pedras… Não faço ideia, mas algo que sejam experiências que impactem pessoas, que as faça pensar “também me diverti, também me emocionei”.

M&P: Qual é a área que vai ter mais peso na Cherry? Este ano, com o canal do Benfica, provavelmente será televisão, mas e depois?

FP: Este ano a televisão vai ter uma grande preponderância, mas para o ano não faço ideia, até porque temos que ver o que é isto de agenciarmos pessoas, de lançar discos, fazer um livro ou dois.

M&P: Já têm ideias para algum livro?

FP: Perfeitamente, acredito que neste semestre será lançado um livro. Não será um romance, será uma coisa leve, mais cómica. Não posso dizer quem é o autor.

M&P: Na área do agenciamento têm os Anjos. Mais alguém?

FP: Estamos a ir buscar pessoas que estiveram conotadas com o último projecto dos três, o Família Superstar. Os Anjos, a Raquel Guerra, o Nelson Antunes, a Catarina Pereira, a família Correia, a Filipa Azevedo e o Hugo Araújo. Mas queremos agenciar também actores e apresentadores de televisão.

M&P: Está nos vossos planos trabalharem para os canais generalistas?

FP: Perfeitamente. Há abertura da SIC e da TVI e estou a ver se marco um encontro com a RTP, para uma reunião semelhante de prospecção.

M&P: Já falou com a SIC e TVI?

FP: Já. Com a RTP ainda não, mas é uma questão de timing para encontrarmos um dia. Na perspectiva dos canais generalistas somos mais uns tipos que querem fazer televisão. A nossa ambição, no entanto, é trazermos alguns formatos de fora para vender aos canais e, eventualmente, produzir. Mas também queremos ter ideias nossas e tentar a sua adaptação internamente e internacionalmente. Temos uns contactos em Espanha com produtores com quem estamos a selar parcerias, para coisas que possam vir de fora e seremos os agentes cá dentro, e de formatos que podemos, eventualmente em sonhos e porque somos loucos, identificar umas ideias, transformar em programas de televisão, que outros vendem internacionalmente.

M&P: Até pela sua experiência, sabe que é muito difícil os programadores apostarem em formatos próprios. Acredita mesmo que vão apostar em formatos não testados?

FP. É muito difícil. Ainda assim esta equipa provou que consegue criar programas do zero que tenham sucesso, como a Família Superstar. Esse projecto dá-nos algum crédito perante o mercado. É uma ambição, não quer dizer que seja assim. Qualquer programador tem imensa resistência em apostar num formato novo e não testado. Eu tinha a mesma perspectiva, apenas fui louco o suficiente para dizer “vamos para a frente”. Os outros programadores podem ser mais conservadores.

M&P: Já tem algum formato mais ou menos pensado?

FP: Já temos vários pensados, mas nenhum desenvolvido ao ponto de dizer “este é o formato para…”. Até porque temos que ter umas conversas sérias – já começámos a tê-las, sobretudo com a TVI e com a SIC – para perceber do interesse deles sobre determinado formato, se vale mais a pena investir nisso ou não. Os contactos internacionais também vão no sentido de identificar formatos que possam ser interessantes. Ainda assim, não deixa de ser um sonho. É uma loucura uma empresa que ninguém conhece de lado nenhum em Portugal dizer “nós agora vamos fazer formatos originais”. Isto é o que qualquer produtor em qualquer país quer.

M&P: Se encontrarem um formato que, convictamente achem que é o tal, podem avançar sozinhos ou vão esperar para que exista um canal interessado?

FP: Podemos. Uma das parcerias que estamos a fazer com uma produtora de Espanha pressupõe exactamente isso. Se nós e eles estivermos suficientemente convictos que o formato é suficientemente forte poderemos, em co-produção, fazer um número zero e apresentar em Portugal e Espanha.

M&P: Qual é a produtora?

FP: Não digo.

M&P: Há mercado para mais uma produtora em Portugal?

FP: Se houvesse, teríamos feito uma produtora só. Para uma produtora só a coisa é mais difícil. No entanto, por mais pequeno que seja o mercado, e por muito saturado que esteja, acho que precisa sempre de ideias novas, de pessoas novas e de idiotas novos.

M&P: Com a SIC, e não pondo em causa o mérito, não seria estranho trabalharem já a seguir? Estou a imaginar alguns títulos… Mesmo para a estação não é um risco acrescido?

FP: Essa pergunta tem que ser feita também à estação. A nossa consciência está tranquila e penso que a da SIC tranquila está. Não tenho nenhum problema em trabalhar como a SIC e como sei que da SIC há abertura, penso que é possível. Agora, se se vai concretizar ou não é outra questão. Independentemente dos títulos… Quero lá saber disso! E não me parece que o Nuno (Santos) esteja muito preocupado.

M&P: Como é que vê a chegada do quinto canal?

FP: Hoje tenho que ver como uma oportunidade. Agora, o mercado é muito pequeno para ter mais um.

M&P: Se a pergunta fosse feita há um ano, provavelmente a resposta seria que não há espaço, que o investimento em produção iria diminuir, que ao contrário do que diz a APIT a vida ficaria pior para todos.

FP: Eu acho que a vida não vai ser fácil. E não vai ser fácil porque o valor da publicidade vai descer e isso não são boas notícias para quem faz uma facturação extraordinária. A não ser que se preparem para o futuro, e eu sei que a SIC se prepara para o futuro, só para lhe falar do que diria há um ano. Agora, como novo player, um cliente como o quinto canal é bem-vindo, é sempre mais um. Mas o mercado é mínimo e não me parece que a solução da RTP continuar com publicidade seja extraordinária. É extraordinária para a RTP, mas para o mercado não me parece.

M&P: Mas enquanto a publicidade estiver ao serviço da dívida dificilmente deixa de existir. A não ser que o PSD ganhe as eleições e que seja com o actual líder.

FP: Pois, eu sei. Publicamente sempre fui contra a publicidade na RTP. Publicamente sempre manifestei isso, porque trabalhava para a SIC. Hoje não o renego, não me parece fazer grande sentido que a RTP seja financiada através de publicidade. Mas, é o que é. Quem disputa o mercado publicitário, que não sou eu, é que tem que pressionar.

 “A SIC para mim sempre foi o Benfica”

M&P: Deixou a SIC em Dezembro, depois de 25 meses como director de programas. O que é que correu mal?

FP: O que correu mal foram as audiências, que baixaram.

M&P: Mas porquê, em sua opinião? Vamos recuar até ao final de 2005. As expectativas eram altíssimas. Afirmava, sem meias palavras, que queria liderar em 2007 e acho que o mercado até acreditava que ia acontecer alguma coisa interessante nesse sentido. Dois anos depois, correu objectivamente mal. As audiências baixaram, a SIC passou a ser o terceiro canal e o regresso daquele élan que prometia não só não voltou como parece mesmo ter desaparecido.

FP: Repare, a SIC está em queda desde 1997. Há 11 anos que está em queda e todos os anos foi perdendo mais um bocadinho, até que perdeu a liderança. E o ciclo não voltou para cima. Agarrar numa estação que há sete anos está em queda não é fácil, no entanto isso não me assustou e pensei “vamos embora, isto é possível”. Sabia que seria complicado, mas não passa pela cabeça dizer o mercado “ui, isto vai ser complicado! Vai demorar muito tempo”. Apenas me lembro de ter dito “se a TVI demorou quatro anos a dar a volta, eu quero fazê-lo em dois”. E sabia que era ambicioso, mas não está em mim não ser ambicioso, não está em mim dizer “houve fulanos que conseguiram em quatro anos, acho que em quatro dá”. Vou sempre partir para uma meta mais ambiciosa e tenho que ser julgado por isso.

M&P: Sendo que da TVI não se esperava muito, porque nunca tinha sido ganhadora.

FP: A SIC para mim sempre foi o Benfica, que ainda hoje é a ambição de qualquer jogador. Passa-se a mesma coisa com a SIC. Chegar ao Benfica para um jogador é “uau, cheguei lá”. Mesmo que o clube não ganhe o campeonato todos os anos. Se ler os jornais desportivos no início de cada época dizem “este ano o Benfica vai ter que ganhar” e as pessoas na rua pensam “o Benfica este ano vai ter que…”. Está instituído na cultura portuguesa. Mesmo que o treinador seja mau, o estádio verde ou azul e os jogadores todos maus. Tem obrigação de ganhar. Porquê? Porque é o Benfica! É uma coisa que vem de trás. A SIC padece do mesmo mal, se é que é um mal. Tem uma história tão extraordinária que tem sempre a obrigatoriedade de ganhar, mesmo que o director de programas seja coxo, que os apresentadores sejam todos extraordinários, que a grelha seja mais ou menos e a imagem fora de série, ou outra combinação qualquer. A ambição e a obrigatoriedade é ser líder, até porque isso é incutido pelo dr. Balsemão. É preciso ser líder a todo o custo, fazer o melhor possível, na facturação e nas audiências. 2007 foi o melhor ano da história da SIC em termos de facturação e as audiências foram más. Portanto, imagine…

M&P: O aumento de receitas não veio da publicidade, que está relacionada com as audiências.

FP: Exacto, ou seja, veio do que dependia dos negócios que eu fazia, porque todas as áreas que não a publicidade tradicional reportavam a mim. Ou seja, parte do meu objectivo foi o melhor da história da SIC, desde sempre, mas a outra parte, as audiências, foi a pior. Julga-se deste modo. O que não correu bem foram as audiências.

M&P: Como é que audiências caíram tanto?

FP: Provavelmente fiz mais erros do que coisas boas, arrisquei demasiado, pus projectos no ar que não correspondiam. O dr. Balsemão disse-me “a primeira novela tem que ser um êxito”. Respondi que a primeira não ia ser, mas talvez a terceira ou a quarta. E depois enganei-me, a primeira foi o maior êxito desde sempre. E a Floribella não ganhava as audiência, não liderava…

M&P: A Floribella que em Espanha era transmitida uma vez por semana e de manhã.

FP: Sim, mas cá, em prime time, era uma loucura. Vendeu 20 discos de platina, o que é outra loucura, vendia saias, cuecas e meias como se não houvesse amanhã, vendeu musicais, DVD’s… Isto foi um fenómeno. Quando se decide fazer uma coisa destas têm-se a ideia que pode ser um sucesso, mas nunca que será o maior fenómeno que a SIC alguma vez fez ou que Portugal alguma vez viu na ficção. Com tudo isto, devo comprar a segunda série ou não? Como é óbvio compro, nem penso 30 segundos. Só que a segunda série tem cinco ou sete pontos menos de audiência, o que significa fracasso. A primeira é melhor do que a segunda? Devíamos ter morto o príncipe? O horário foi o correcto? Ninguém sabe a resposta. O que fica para a história é que a primeira foi o maior sucesso e a segunda não resultou. E eu desafio qualquer pessoa, na minha posição e com as condicionantes que só o director de programas conhece, a dizer “não, a primeira foi assim por sorte, portanto nem pensar na segunda”. Se eu não comprasse diziam “este tipo é um atrasado mental”. Lembro-me de ir a reuniões com clientes e dizer “vai haver uma coisa que é a Floribella”. E a resposta era “Floriquê?”. Na segunda, andava tudo a dizer “eu quero aquilo”. Depois teve metade da audiência… Azar! É culpa de quê? Não sei, mas seguramente é culpa minha.

M&P: O problema não foi só a Floribella.

FP: Não. Adiante, e falando só de ficção, que ocupava uma larga faixa do dia. Identificámos que tínhamos que ter três novelas em produção para conseguirmos economia de escala e produzirmos mais em conta. A segunda novela é a Jura, que nasce com esse estigma: “Se a primeira foi o que foi, a segunda tem que ser mais”. E sempre avisei as pessoas, inclusive a imprensa, que isso é a lógica da batata. Quando a Jura, que deu noutro horário, acabou, acontecem duas coisas: tinha menos share do que a Floribella mas mais do que a estação. E a imprensa diz “é um fracasso”. Onde é que está o fracasso? O que mede o sucesso na cabeça do programador é se o programa faz mais share do que a estação… No meu livro, se a Jura fez, foi um sucesso.

M&P: Seguiu-se a Vingança.

FP: Que levou muitas pessoas a voltar ver novela. Foi a novela com mais sucesso de todas, mas o que fica para a história é “a Floribella é que foi”. Os resultados de share da Vingança foram, em média, bastante superiores à Floribella. Depois, a quarta novela já não resultou, a quinta não resultou e a sexta também não. Depois de três sucessos, haver três fracassos… Podemos estar três dias a discutir e a dizer que é normalíssimo, mas o accionista não tem necessariamente a minha perspectiva. Apenas se lembra que pediu que a primeira fosse um sucesso, eu disse que não ia ser, foi e ele pensa “este tipo é parvo”. E depois a segunda ainda corre bem e a terceira é a melhor de todas… O accionista cria uma falsa expectativa de que tudo vai correr bem. Até que aconteceu a quarta, Floribella 2, que não resulta, a quinta, Chiquititas, que não resulta, e a sexta, Resistirei, que não resulta. Portanto, a três novelas que resultam seguiram-se três que não resultam. Para quem está a construir uma fábrica do zero, é muito complicado. Quando tenho três novelas seguidas que não resultam estou a mitigar por completo a audiência do dia. Quando começo a pôr coisas para mais cedo ou para o fim de semana para não prejudicar muito o dia, já estou é numa espiral de controlar danos.

M&P: Nessas circunstâncias não se pode cancelar a novela, pô-la às 3 da manhã…?

FP: É uma máquina em andamento. O que se consegue é fazer alguns ajustes que tem repercussão daqui a dois ou três meses, e eu preciso para amanhã. Pode-se melhorar a promoção, pode-se mudar de hora… Estas coisas foram feitas, mas nunca resultaram como queríamos. Depois foram as novelas da Globo, que estão a decair há muitos anos. Eu tinha novelas guardadas, que por obrigação contratual tinha que pôr no ar e pagar. E não as queria pôr no ar, porque eram demasiadamente más.

M&P: Não podia pagar e não transmitir, mesmo com os custo inerentes à decisão?

FP: Não, porque o contrato obriga a SIC a emitir e a pagar. Quando até os brasileiros percebem que a novela não é boa, para não exagerar, até eles se desculpam quando estreia à 1h, depois está às 2h e depois às 3h30. Não há nenhuma hora a que a novela Bang Bang consiga estar no ar em Portugal, o público não vai querer ver. A Amazónia já estava no ar às 4h30, em estreia, um produto caríssimo. É estúpido, mas o contrato obrigava. Esta franja são mais três horas, já são seis horas que não têm resultados extraordinários. A SIC é refém disso, mas não há programas que salvem canais de televisão, há canais que salvam programas. Quando o canal tem seis horas, em que uma está bem, outra mais ou menos e as outras mal, é muito difícil fugir. É difícil. Quando isso ocupa grande parte do seu orçamento de custos, não consegue inventar com pouco dinheiro coisas muito extraordinárias do pé para a mão. Consegue inventar um Família, manter um Contacto ou um Fátima que lideraram em 2007, o problema é que não chega. A informação também não funcionou suficientemente bem, porque uma coisa depende da outra. Eles fizeram um trabalho de excelência, mas o resto não puxava por eles. Foi o que correu mal, não foi fácil.

M&P: A SIC já voltou a liderar. Como é possível?

FP: Não vou tecer grandes considerações. Obviamente é porque as decisões tomadas agora foram as correctas e as anteriores não foram correctas. Se calhar a conjuntura é diferente e o futebol é uma ajuda enorme. Quando se comprou a Taça, no início de Dezembro, já foi na perspectiva de ter mais futebol, e isso seria determinante. Mas não chega. Ter jogos das competições europeias é muito decisivo. Ter esses mais a Taça é muito diferente.

M&P: Teve condições para fazer o que queria?

FP: Tive todas as condições. Não ouvirá de mim uma queixa sobre as condições que não tive, porque sempre tive todas.

M&P: O que é que se imagina a fazer daqui a dois ou três anos?

FP: Não faço ideia. Em qualquer projecto que esteja, desde que seja desafiante, vou achar que estou bem, que estou a fazer algo diferente. Por muitos mais anos que gostasse de continuar na SIC, cheguei à conclusão que não podia continuar e que tinha que sair para fazer qualquer outra coisa, sem uma grande preocupação do que seria. E hoje estou aqui, motivado para fazer muitos projectos e projectos diferentes, não só em televisão. Preciso de fazer outras coisas para não me desgastar.

M&P: Para não se desgastar?

FP: Sim. Os últimos dois anos foram um inferno. Não me está a apetecer ter mais anos de inferno.

M&P: Quando é que a SIC deixou de ser divertida, uma palavra que usava muito há dois anos?

FP: Dentro do inferno sempre foi divertido. Agora, foi um inferno.

M&P: Mas o que é o inferno? É o stress de gerir a programação ou é estar lá e pensar “agora só falam do Nuno Santos”, que era a sensação que se tinha cá fora?

FP: Não. Não, de todo. A responsabilidade e a pressão eram coisas de que não estava à espera. Não estava à espera que fosse tanta pressão, interna essencialmente, e não pensava que sentiria tanto o peso da responsabilidade. Quando eu, na SIC, tinha um dia mau, toda a Impresa tinha um dia mau, porque a Impresa tem um volume de facturação muito grande, mas grande parte depende do que a SIC faz. Se a SIC tem um dia bom a Impresa vai ter um dia bom, se tem um dia mau a Impresa também tem um dia mau. E não é só em termos de receitas, é também audiência e bolsa. Se a bolsa fosse receitas, a SIC estava extraordinária. Mas não é, a bolsa é uma coisa que ninguém sabe bem o que é. É seguramente percepções sobre as coisas… Essa pressão é muito grande. Há constrangimentos que só o director de programas consegue sentir, a responsabilidade é sempre dele. E isso é um inferno. Não deixa de ser um inferno divertido…

M&P: Mas é muito mais divertido quando os dias são bons.

FP: Não dormir durante dois anos não é nada divertido. Eu soube que ia sair da direcção de programas no dia 12 (de Dezembro) e na noite do dia 13 dormi sete horas. Não me lembro da última noite em que dormi sete horas nos dois anos anteriores. E isso é uma pressão desmesurada. Andar sempre no telefone, sempre no email, sempre a ver as audiências, sempre em reuniões, sempre com toda a gente a querer falar consigo, é muito complicado. Ter todas as pessoas a tentar influenciar todas as decisões, é suficientemente complicado. Depois lida-se com muito dinheiro, e por muito que eu seja desprendido, não sou porque é o dinheiro dos outros. Não é difícil de se lidar, lida-se, mas no ‘bolo’ é um inferno e isso eu não quero repetir, pelo menos para já.

M&P: Quando é que percebeu que a saída estava iminente?

FP: Eu não queria o cargo, mas tinha a certeza que um dia ia surgir um pedido e eu teria que dizer que sim. E sabia que no dia em que estivesse a dizer que sim, estaria implicitamente a dizer “um dia vou-me embora”. Eu queria ficar lá mais anos e com o cargo que tinha. Não posso dizer é que tenha sido uma surpresa. Era muito difícil continuar depois da sucessão de novelas que não resultaram. Depois da Chiquititas não resultar, percebi que mais dia ou menos dia ia acabar. A minha obrigação era então tentar fazer com que as audiências fossem o melhor possível, a facturação a mais alta possível e a transição entre direcções a mais soft possível.

M&P: No final de 2005, em entrevista ao M&P, afirmou que sabia que a sua “cabeça estava a prémio” e que um dia, passado uma semana ou dez anos, Francisco Pinto Balsemão o chamaria para dizer “Francisco, obrigado mas não dá mais”. Foi mais ou menos assim?

FP: Foi, foi feito como sempre acreditei que ia ser. Sempre acreditei que não ia sair da SIC nem da Impresa, que havia confiança suficiente para que houvesse uma proposta e uma negociação sobre o meu próximo passo dentro da empresa. E foi o que aconteceu, ninguém me disse “olha, vamos lá negociar a saída”. Foi proposta uma nova realidade, num outro cargo…

M&P: Na Impresa Digital.

FP:… E eu nunca achei que ia sair. O dia em que cheguei a essa conclusão foi muito triste para mim. Não estava à espera de eu próprio decidir sair, daí que quando me propuseram um novo cargo, o que senti foi “claro que vou dizer que sim”. Porque em mim estava o dogma que “obviamente não vou sair nunca da SIC ou da Impresa”. E numa semana mudei de ideia, é verdade. Reflecti, falei com algumas pessoas, aconselhei-me e achei que tinha sido irreflectido. Por muito que me custasse pessoalmente e emocionalmente, tinha chegado a altura de me ir embora.

M&P: O que é achou que ia fazer?

FP: Achei que ia pensar sobre o que ia fazer ou não. Que ia atender telefonemas, ir a reuniões. Foi o que acabou por acontecer.

M&P: Recebeu muitos telefonemas?

FP: Nunca pensei que o mercado se mexesse tanto. Mexeu-se muito mais do que esperava e isso foi bom registar.

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