“Somos uns organizadores de eventos excepcionais”

Por a 2 de Março de 2007

O primeiro presidente da APECATE apresenta os objectivos na nova associação que reúne os congressos, animação e eventos

Anova APECATE (Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos) nasceu da fusão entre a APOPC (Associação Portuguesa de Organizadores Profissionais de Eventos), a PACTA (Associação Portuguesa de Empresas de Animação Cultural, de Turismo de Natureza e Aventura) e a AOPE (Associação dos Organizadores de Eventos). Os corpos sociais foram eleitos esta semana e contam com João Sacchetti na presidência da direcção, e Helena Weinstein e Ana Barbosa na vice-presidência. Uma oportunidade para o primeiro presidente da associação explicar quais os planos que tem para o organismo que congrega cerca de 80 empresas.

Meios & Publicidade (M&P): Como é que três associações aparentemente diferentes chegam a acordo para fundirem-se?

João Sacchetti (JS): Aparentemente somos diferentes, até pelos métodos e a abordagem das problemáticas de mercado específicas á animação turística, aos congressos e aos eventos. Mas, depois, as preocupações e o back office são os mesmos. Desde o início que sentimos que havia uma grande congruência entre as áreas de negócios e, por consequência, entre os interesses que defendemos. As três pessoas que estavam á frente das associações, e não nos conhecíamos anteriormente, entenderam-se pessoalmente. Não conhecia bem a Ana Barbosa, presidente da PACTA [Associação Portuguesa de Empresas de Animação Cultural, de Turismo de Natureza e Aventura], mas conhecia razoavelmente bem a Helena Weinstein porque ela estava também na associação dos eventos, mesmo sendo presidente dos congressos. Isso facilitou muito. Encontramo-nos há cerca de dois anos. Fizemos uma primeira abordagem, tivemos de fazer convergir uma série de coisas. Foi um processo que ficou concluído com as assembleias gerais, que foram marcadas para a mesma data durante a ExpoEventos. As associações foram mandatadas pelas respectivas assembleias gerais para procederem á liquidação das associações e para procederem a escritura pública do pacto da associação.

M&P: Quais são os problemas que quer atacar?

JS: Há problemas gerais de fundo e há problemas particulares de secção. A direcção é composta por um presidente e dois vice-presidentes e dois vogais. O presidente e os vice-presidentes são, por inerência, os presidentes das secções. Digo isto porque detectamos desde muito cedo vários problemas comuns. Tínhamos problemas de back office, que nenhum de nós conseguia pagar, precisávamos de instalações que nos dignificassem e que nos permitissem ter alguma representatividade institucional. A primeira tarefa foi simplificar procedimentos, profissionalizarmo-nos, reduzir custos e concentrar actividades num só espaço. A segunda tarefa consiste em desenvolver programas de formação que depois são declinados ao nível das secções. Qualquer uma das secções estava já empenhada em processos de formação, agora temos de abrir essa formação á sociedade.

M&P: A APECATE arranca com quantos associados?

JS: Cerca de 80, que representam uma alavancagem económica muito importante. Nesta área e em muitas outras da económica não existem dados. Muitas vezes não existem dados fiáveis nem dados úteis.

M&P: Que percentagem, em termos de valor, é que têm os associados do sector em Portugal?

JS: Não faço ideia e estive agora a defender isso no plano de actividades. Temos de definir um sistema de reporting que nos permita ter uma valorização do sector para, no fundo, defender os nossos interesses junto das entidades e instituições. Se lhe disser que represento 10 mil pessoas e representamos x milhões de euros na economia, conseguimos assinalar a nossa actividade de forma mais clara.

M&P: Quer sinalizar para quem?

JS: As instituições só falam com instituições. Como empresa, não posso ir ao ministro da Economia queixar-me de que o sector tem de criar legislação. Mas enquanto associação posso e devo fazê-lo. A associação tem uma missão para dentro e para fora. Para dentro, tem de ajudar os associados a tirar mais valor da sua actividade através da formação, de informação e dos encontros, que dignifique e comunique oportunidades de mercado. Mas também temos de falar com instituições, com outras associações e com entidades internacionais. Na Comissão Europeia há um comissário europeu interessado. Um enviado do comissário europeu para esses assuntos esteve presente no último congresso do sector em Atenas. Mas esta é uma profissão nova em todo o mundo. A ONU reconheceu o estatuto de organizador de eventos e congressos na assembleia geral de 2005. Isto é tudo novo.

M&P: Portugal está entre os países do mundo que consegue atrair o maior número de congressos e eventos de dimensão internacional. O que é que a associação pode fazer para potenciar o país?

JS: Somos uns organizadores de eventos excepcionais, temos uma capacidade de organização que vem da nossa cultura. Somos inimigos do planeamento, mas a verdade é que somos fantásticos a improvisar. Se tivesse de pedir a uma equipa alemã para lhe fazer o maior lançamento desportivo na área da vela do mundo como nós fizemos [João Lagos Sport em Fevereiro] num tempo acelerados e muito curto, iriam ficar muito desconcertados. Nós fazemos em menos de um mês. Fazer um evento é uma coisa que está num plano mas que depois está dependente da realidade das coisas. Nós somos muito simpáticos, recebemos muito bem as pessoas. Estamos na liderança mundial dessa capacidade. Não temos é os recursos económicos. Não temos em Portugal empresas como a sede da Sony ou da Coca-Cola e os orçamentos têm a ver com a dimensão dos mercados. Mas, mesmo assim, nós classificámo-nos nas shortlists internacionais de qualquer concurso. Temos de ter a capacidade faz de fazer de nós um opinion líder na área dos eventos. Daí que a nossa voz ao nível das autoridades comunitárias tenha de pesar mais.

M&P: O que quer das autoridades portuguesas?

JS: Temos um código de actividade em que eventos vem nas Outras Actividades Derivadas, vem perto dos CAE do cangalheiro, juro. É um bocado indiferente, mas de qualquer modo precisamos de ter um reconhecimento público da nossa actividade. As autoridades neste país têm-se concentrado no turismo, na hotelaria e as agências de viagem de uma forma que me parece natural. Mas, da mesma forma que não estou autorizado a vender viagens, também não espero que as agências façam congressos e animação turística. Há que delimitar ou, pelo menos, especializar as áreas. Não temos de estar subordinados á perspectiva exclusiva do turismo do incoming. Estamos mais ligados ao business travel, porque o congresso vive em torno do business travel. Portugal já é dos destinos mais importantes do business travel nível europeu, podemos fazer muito mais. Neste momento estamos a concorrer com a Tailândia, Chile e Indonésia porque há centros de congressos a formarem-se em todo o mundo, equipas de gestão profissionalizadas á frente desses centros, que cada vez mais concorrem com os sítios tradicionais.

M&P: Até que ponto a administração central pode ajudar a trazer mais eventos para Portugal? Ou os agentes não precisam deste tipo de apoio?

JS: É desejável que as autoridades responsáveis pela promoção do país estejam envolvidas nos eventos que põem o país no mapa. Acho normal, desejável e é isso tem acontecido como na Expo, na Euro 2004, nos Masters 2000, nas diversas etapas do Open de Portugal em golfe, no Estoril Open, no Lisboa Dakar. Mas não é ao Estado que compete dizer quais os eventos Cabe aos promotores detectar as oportunidades e falar com quem têm de falar. A associação não tem esse papel. A associação tem de formar, ajudar a enquadrar, certificar.

M&P: Estão a preparar o projecto Empresa Segura. Em que consiste?

JS: É uma empresa que é legitimada pelos profissionais que conduzem a associação. Dizemos que a empresa x que se propõe ao projecto y, e porque a associação tem representatividade e aceitação e foi acreditada pelas autoridades competentes, é segura. Aquilo que a empresa que se propõe fazer, sabe fazê-lo. Este é um reconhecimento da associação do sector. Mas quero ir mais longe na certificação. Mas não estou interessado no ISO 9000. Este número não cabe no meu pé, porque é pensado para outras áreas.

M&P: Em que ponto é que está a Gala dos Eventos?

JS: Está em marcha e está a ser trabalhada por um grupo tripartido: associação, a ExpoEventos e a revista Festas & Eventos. Estamos num projecto conjunto em que cada um dá o que tem: um dá o evento, o outro os associados e o outro a divulgação. No fundo, queremos que o sector se conheça e se reconheça.

M&P: Será um festival dos associados?

JS: Não, porque não é necessário ser associado para concorrer. Existe um júri independente que reúne-se e avalia cerca de 20 categorias. É uma ocasião para incentivar que as pessoas se conheçam. Sentido de classe é uma coisa importantíssima. Já somos pequenos, se ficamos isolados, valemos ainda menos. A realização coincide com a ExpoEventos.

M&P: Quanto é que vale este sector?

JS: Não sei, porque empresas organizadoras de eventos são cerca de 300, para não contar com aquelas que se dizem organizadoras de eventos. Agora, as empresas que contam, com toda a injustiça que esta frase tem, estimo um turnover global na ordem dos 50 milhões. Mas isto é uma amostra do mercado. Se somar tudo o que são palcos, e tenho o Pavilhão Atlântico e o Casino do Estoril como associados, quanto é que valem? Pelo menos 10 vezes isso. Todos os hotéis fazem eventos, conferências e têm salas de reuniões. Quanto vale a animação turística e os congresso? Não fazemos ideia. Se disser que o sector vale, no total, mil milhões, provavelmente, não estou a dizer mentira nenhuma.

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