A questão da Bandeira

Por a 2 de Fevereiro de 2007

Rui Marques

Há empresas que mudam de identidade como quem troca de camisola interior, enquanto outras, que precisam urgentemente de passar por esse processo, preferem adiá-lo sine die. Há casos bem sucedidos de mudança, como a RTP e a TAP, enquanto outros, como a TV Cabo, não convencem. Já empresas como a Caixa Geral de Depósitos e a CP parecem nunca mais decidir o que querem fazer á sua imagem. A identidade – é um lugar comum dizê-lo – é a materialização do ADN da marca. Não vale a pena ser bonita e moderna por fora, quando depois serve mal o seu cliente e, pior ainda, não se dedica a criar produtos melhores. Depois de Pedro Bidarra, Ricardo Mealha volta á discussão sobre a identidade do país, ou seja, a sua bandeira. Num artigo publicado recentemente no M&P e que terá continuação na próxima edição, Ricardo Mealha voltou a propor uma discussão nacional em torno da sua mudança. Ao olhar para a História, vemos que já existiram debates semelhantes. Quando o regime mudou e passamos a viver sob uma república, a proposta de Columbano Bordalo Pinheiro, encomendada pelo governo provisório, levantou uma grande discussão pública. Como república (então jovem) que era, estiveram em cima da mesa várias propostas, que puderam ser vistas numa exposição pública que contou, dizem os livros, com seis mil visitantes. Guerra Junqueiro, o principal opositor á proposta de Columbano que acabou por ser implementada, defendia uma evolução da monárquica. Na História mais recente encontramos mais exemplos associados a mudanças de regime. O Canadá optou, em 65, pela icónica folha para enterrar a bandeira próxima da colonizadora Inglaterra. Cabo Verde alterou a sua, não a seguir á independência, mas quando põs fim ao sistema de partido único. Além de distanciar-se da da Guiné Bissau, aproveitou para posicionar-se como país atlântico. A passagem da bandeira soviética para a da Federação Russa volta a ter uma mudança de regime por detrás. O Montenegro modificou de bandeira após a independência face á Sérvia, afirmada em referendo, enquanto a Geórgia, depois de um partido anti-russo ganhar nas eleições, recuperou a cruz de São Jorge, para ocupar o lugar da bandeira que os soviéticos tinham “criado” para a nação. O único debate sobre bandeiras que sigo com atenção é o da Austrália, que ainda não sabe o que há-de fazer ao símbolo que vem do colonizador. É que não conheço um Estado se faça representar, que envie as suas tropas para a guerra ou coloque por cima dos caixões um bandeira que resulta de um rebranding ou reposicionamento de um país.

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