O 5º elemento

Por a 24 de Novembro de 2006

john gonçalves

Os The Gift, mesmo sem editora ou agentes, desde cedo souberam aproveitar os patrocinadores para afirmar o projecto

Doze anos depois de terem iniciado o projecto, Sónia, Nuno, Miguel e John continuam independentes. Os The Gift não têm editora, manager ou agente. E também não querem ter. Mas desde cedo o grupo soube aproveitar a associação a patrocinadores. Mas “não temos por hábito ter relação com muitas marcas. Somos contra o cemitério de logótipos”, explica John Gonçalves, um dos elementos da banda.

Em 2001, aquando do lançamento do álbum Film, a Vodafone tinha acabado de criar a Yorn. “Associámo-nos á Yorn através da tourné”, explica John Gonçalves. A digressão foi patrocinada pela Yorn, e a marca oferecia bilhetes e discos, sorteava dias com a banda e passes para backstage. “Era uma maneira dos Yorns terem mais contacto com a banda”, recorda.

Posteriormente, quando estavam a preparar o lançamento do álbum AM-FM, os The Gift contactaram a Vodafone para dizer que tinha havido um crescimento ao nível da estética e um amadurecimento da banda. “Achámos que a Yorn era capaz de ter um posicionamento, se calhar muito juvenil, para o que nós estávamos a comunicar”, explica. Por isso propuseram a Vodafone como patrocinadora da digressão. E já que estavam a trabalhar com antecedência, mostraram o single Driving You Slow para saber se a marca tinha interesse em potenciá-lo. Por coincidência, o disco saiu a 29 de Novembro de 2004, quando a Vodafone estava a lançar o serviço 3G. “A Vodafone estava estrategicamente a fazer uma ligação muito forte á música que já tinha sido iniciada com o Rock in Rio”, recorda. Ia começar a ter toques e compra de música no portal Vodafone. Foi nessa altura que fizeram a campanha de Natal 2004 onde os The Gift deram a cara pela Vodafone e pelo serviço 3G.

Os membro dos The Gift já sabiam que o mercado tradicional da música estava em queda, mas começaram a descobrir novas maneiras de distribuir a música. Antes do lançamento do disco, a Vodafone disponibilizou para download as músicas dos The Gift. Por seu lado, a Vodafone teve a possibilidade de durante a digressão promover os serviços 3G através de um roadshow.

Com o álbum lançado este mês, Fácil de Entender, a Vodafone voltou a ter o exclusivo das músicas no portal. A marca continua a ter a deter os conteúdos dos Gift ligados ao 3G, mas a associação á digressão terminou. “Os objectivos da Vodafone já estavam cumpridos ao nível de experimentação do produto e de estrada e ficámos apenas com o acordo de conteúdos”, pormenoriza.

Caixinha de música

Para a tourné que arrancou agora, os The Gift têm um novo main sponsor: a Caixa Geral de Depósitos (CGD). Mas este patrocínio não aparece vindo do nada. Há cerca de dois anos, a CGD tinha feito uma campanha com a vocalista Sónia Tavares, (juntamente com a Maria Gambina e Nuno Delgado). Esta ligação foi mantida nos festivais de Verão, onde os The Gift iam ao espaço da CGD dar autógrafos. “Havia uma ligação não tão presente como com a Vodafone. Era mais subtil”, explica John Gonçalves.

Como esta tourné ia estar presente apenas em teatros fazia algum sentido propor á CGD um acordo mais abrangente, adianta John, que enumera algumas das contrapartidas: “a sessão de autógrafos no fim dos espectáculos com o stand up da caixa ao nosso lado, os bilhetes que podem oferecer a clientes, nomeadamente agora aos da Caixa Fã, as carrinhas decoradas com logo da Caixa”. Além disso, há a hipótese de uma das canções do próximo anúncio da Caixa Fã ser uma adaptação de uma das músicas dos Gift deste disco, mas numa versão mais épica. “Estamos a trabalhar nela para entregar á Caixa no final do ano. Se a Caixa quiser utilizar pode fazê-lo, mas não quer dizer que venha a utilizar porque ás vezes está dependente do ritmo dos anúncios”, explica John.

Além do main sponsor, os The Gift têm também alguns sponsors “mais pequenos, mas fundamentais”. É o caso da Hyundai que é automative partner e que tem a frota de carrinhas do grupo, que inclui veículos de transporte de pessoas e de material. Por seu lado, os The Gift estão á disposição da marca, sejam sessões de autógrafos nos postos de venda, lançamento de um carro novo ou outro tipo de acções. No ano passado, o tema Music foi banda sonora de um filme da Hyundai, que este ano vai voltar a ter inserções para o Natal. O filme original vinha com uma música internacional, mas a direcção de marketing nacional da marca propõs á direcção de marketing internacional a utilização de uma música da banda. A proposta foi aceite.

Os The Gift têm ainda uma ligação á Apple. Utilizam o iPod, explicam como se usa e revelam as playlists. Além disso, o espectáculo é controlado por computadores Apple. No que toca a parcerias com media, os The Gift têm acordos com a Rádio Comercial e a SIC Notícias, sendo “essenciais para divulgar os espectáculos”, refere John Gonçalves. Dos freelancers á agência

O projecto Fácil de Entender marca também o início da relação entre a banda e a agência United Studios, uma vez que até aqui o grupo trabalhava apenas com freelancers. A United Studios assina o design e a campanha de comunicação deste álbum duplo com DVD, bem como a imagem dos materiais promocionais da Tour ‘Fácil de Entender’ como mupis, cartazes e anúncios de imprensa.

“Começámos devagarinho. Em Abril dissemos: ‘temos aqui o novo disco, criem-nos a vossa imagem para este disco’. E em Junho a United Studios já tinha uma capa. Para mim, é a melhor capa dos Gift porque junta muito bem o lado comercial e o estético”, opina. Depois da capa, os The Gift pediram á agência para trabalhar os restantes suportes. A parte de planeamento de meios continua com a MediaCom.

Os projectos para a editora

Quando os The Gift lançaram a editora La Folie Records constituíram-se como uma empresa produtora de espectáculos, agenciamento, management e edição de discos, livros e DVD.

“Tudo aquilo que fazemos está legalmente coberto pela nossa empresa”, explica. No entanto, a banda não tem como trabalhar outros artistas. Entre o lançamento de cada disco têm as tournés, primeiro em Portugal, depois lá fora. Isso ocupa-lhes muito tempo. “E nós não queremos, apesar de termos muitas maquetes a chegar, fazer ás bandas o que vejo as editoras fazer. Que prometem mundos e fundos e depois não têm tempo para as bandas”, refere John. A estrutura está montada e um dia a editora poderá lançar artistas ou promover espectáculos.

John Gonçalves responde

M&P: Porque é que os The Gift precisam de sponsors?

JG: Para as tournés, especialmente quando, como agora, vamos para teatros, que são limitados no espaço. Têm 800 ou mil lugares. Nesta tourné temos 13 pessoas em palco, uma estrutura grande de técnicos. Isso é incomportável com a bilheteira. Das duas uma: ou a tourné arranja um sponsor que permita minimizar os riscos ou então não tinha hipótese de ir para a estrada como nós a levamos. Este é o espectáculo mais arrojado dos Gift porque tem duas partes, intervalo, mudança de cenário e muitos músicos. Parte desta independência, de não estar ligada a nenhuma editora, de podermos lançar os discos como queremos, com o packaging que queremos, de fazer os espectáculos onde queremos, tem a ver com o facto de nós os quatro nos darmos bem com quem nos patrocina.

M&P: Como gerem as internacionalizações?

JG: Temos uma política de internacionalização, mas depende do tempo que nos resta do continente. Lançámos o disco em Novembro. Até 25 de Dezembro, não podemos responder a qualquer pedido para tocar lá fora. Estamos a fazer a tourné em Portugal e o nosso foco é o mercado português. Quando o mercado português estiver coberto, bem promovido, bem distribuído podemos então começar a pensar em ir lá para fora, nomeadamente Espanha que está aqui ao lado e onde o disco vai sair em Janeiro.

M&P: Chegar a outros mercados é a parte mais complicada do vosso trabalho?

JG: É importante percebermos que os nossos artistas precisam de um empurrão lá para fora. Se o governo apoia os sapatos, os têxteis, o vinho, se exporta o nosso turismo, está a chegar a altura da indústria da música fazer lobby junto do governo. Através da música pode-se promover a nova imagem de Portugal e da cultura, que não passa só pelo fado, e pode-se tentar obter novas receitas de impostos a pagar ao Estado.

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