Infografia: a informação visual

Por a 21 de Julho de 2006

infografia

O recurso da imprensa á infografia é uma tendência que tem vindo a ganhar terreno. O M&P falou com profissionais deste universo para fazer um ponto de situação á realidade desta área

Infografia: técnica jornalística de utilização de recursos gráficos ou visuais para apresentação de informações ou dados”. A descrição constante nos dicionários portugueses traduz de forma sintetizada o significado de um termo que há muito entrou no léxico das redacções e que, consequentemente, também passou a fazer parte do quotidiano da relação dos leitores com a imprensa.

Valendo-se da capacidade de sistematizar informação e apresentá-la de forma mais dinâmica que o ‘tradicional’ texto corrido, a infografia é cada vez mais adoptada por jornais e revistas para, através de um misto de ilustrações, gráficos e/ou diagramas, complementar a informação expressa nos artigos publicados.

Na base do crescente sucesso desta forma de comunicação está o cruzamento de vários factores, a começar pelas alterações nos hábitos e ritmos de leitura por parte dos consumidores de jornais. Nesse contexto, como recorda o infografista do Público Joaquim Guerreiro, o recurso a esta técnica assume hoje em dia “grande importância, principalmente numa época em que o tempo para leitura é escasso e uma boa infografia pode, muitas vezes em apenas alguns segundos, introduzir, situar e esclarecer o leitor”.

“O grande desafio da infografia na comunicação social moderna é clarificar e explicar o que o texto complica e a fotografia apenas sugere”, complementa a coordenadora de infografia do Expresso, Ana Serra, ressalvando que esta técnica “não se pode dar ao luxo de opinar ou subjectivar”. “É alvo da infografia acertar em cheio, assumindo-se como prática jornalística em si mesma. O infografista é um jornalista que se expressa pela clareza consensual da mensagem da imagem”, defende.

Proprietários e directores da empresa de serviços de infografia Anyforms – que trabalha regularmente com jornais nacionais como A Bola, O Independente, o Expresso e o Diário de Notícias, para além de publicações internacionais como o El Mundo, o La Vanguardia ou a Science et Vie – Luís Taklim e Leonel Pinto corroboram a opinião expressa por Ana Serra, destacando como “grande virtude comunicativa” desta técnica “a facilidade da sua leitura e a rápida compreensão do tema tratado”. “O uso de imagens facilita a descrição de um tema tornando-o ‘universal’ em termos de visualização, e o tratamento sintetizado de texto aliado a uma boa colocação cria um sentido de leitura, ‘encaminhando’ o leitor na correcta apreensão de um gráfico e do tema nele tratado”, pormenorizam os responsáveis.

Vantagens de âmbito informativo cuja aceitação por parte dos leitores pode ter, inclusive, reminiscências de infância, na medida em que, como sublinha a coordenadora de infografia do Diário Económico e do Semanário Económico, Susana Lopes, esta prática “evoca os princípios básicos da nossa infância, ou seja, reúne o desenho com a escrita, algo a que o público em geral recorda da banda desenhada infantil”. “Está comprovado que a escrita aliada ao desenho é o meio mais fácil e apelativo de transmitir uma mensagem”, reforça a responsável, salvaguardando, que, no entanto, “a infografia está longe de ser considerada banda desenhada, nem tal é o seu objectivo”.

Porque a verdade é que a infografia é já encarada pelos protagonistas do segmento como “um poderoso suporte de comunicação”, como argumenta Sérgio Braga, fundador da empresa I+G, prestadora de serviços de gráficos informativos e desenho editorial, e que também trabalha regularmente com o espanhol El Mundo. E o ‘poder’ deste suporte assenta, segundo este responsável, em princípios elementares: “Primeiro porque na história do homem sempre foi mais fácil compreender o mundo através de elementos visuais que textuais e a infografia tem essa vantagem, pode combinar texto com códigos icónicos para relatar um acontecimento. Segundo, porque os editores de qualquer meio de comunicação já perceberam que a infografia é mais uma ferramenta informativa que ajuda o leitor a entender os factos”.

Não é por isso de estranhar o crescente recurso da imprensa a esta técnica, numa tendência que os responsáveis da Anyforms não hesitam em fundamentar no “benefício” que a mesma transporta á informação “em termos explicativos de temas mais ou menos complexos”. “Quer o tema seja desporto, economia ou notícias do dia, o uso de um gráfico, de um 'queijo' ou de um mapa, facilitará sem dúvida, a apreensão da informação contida na notícia…”, explicam.

O conceito de “jornalismo visual”

Tendo em conta as mais-valias da infografia enquanto ferramenta informativa e o crescente recurso que a imprensa faz a esta forma de comunicação, poderemos já falar num novo conceito de ‘jornalismo infográfico’? Para Susana Lopes, mais do que uma novidade, este conceito “é uma realidade actual”, na medida em que “um infográfico trabalha com jornalistas, faz a sua própria pesquisa recorrendo a diferentes meios, inclusive a fontes/pessoas, para além de desenvolver todo um conceito gráfico para determinada informação”. Um processo de trabalho que, defende, assenta nas premissas de “info (informação) mais grafia (visual)”, com o objectivo de atingir a “transmissão de uma informação ou notícia através do desenho”.

Para além disso, como sustenta Joaquim Guerreiro, parece emergir nas redacções uma nova realidade: “Os jornalistas começam a ter consciência de que a infografia não rivaliza, em termos de espaço, com o texto, funcionando antes como uma mais-valia para o artigo”. Nesse sentido, o infografista do Público considera que “embora ainda um pouco incipiente, quando comparada com o que se passa em Espanha, por exemplo, este tipo de ilustração parece estar no bom caminho para aquilo a que poderemos um dia vir a chamar de verdadeiro ‘jornalismo infográfico'” no nosso país.

Também cientes de que “não podemos equacionar a nossa realidade ao nível da comunicação social de outros países” Luís Taklim e Leonel Pinto recordam que o desenvolvimento do conceito de ‘jornalismo infográfico’ não é de agora. “Ele já existe há muitos anos e está sem dúvida solidificado em mercados com grande vitalidade como por exemplo, o norte-americano e o espanhol. De tal forma nos Estados Unidos o conceito é tão comum, aceite, discutido e actualizado, que o Poynter Institute tem áreas de formação específicas para ‘jornalistas visuais’ (editor de infografias), que conta com infografistas de renome mundial como formadores”, pormenorizam os responsáveis da Anyforms, para quem “como definição, a de ‘jornalismo visual’ serve melhor o objectivo da infografia”.

Opinião semelhante, de resto, á expressa por Sérgio Braga, defensor da tese de que sendo a infografia “uma linguagem que informa de igual modo que a fotografia e que uma notícia”, quem trabalha nesta área “tem que conhecer as regras do jornalismo”. Circunstâncias que, recorda, levam a que “nos jornais de referência em Espanha ou nos EUA”, os profissionais que trabalham em departamentos de infografia sejam “considerados jornalistas visuais”, enquanto em Portugal são apenas “gráficos”. Socorrendo-se do exemplo do percurso dos fotógrafos até serem considerados fotojornalistas, Sérgio Braga acredita que também a definição do papel da infografia nas nossas estruturas redactoriais leve ainda “algum tempo” até que possa ser equiparada á experiência de mercados mais avançados.

Mas se a infografia em Portugal ainda se encontra “numa fase bastante embrionária, quando comparada ao panorama internacional”, Susana Lopes identifica, porém, um sintoma que poderá ajudar a acelerar o processo e aproximar o universo infográfico nacional da realidade dos mercados de imprensa mais maduros: “A imprensa nacional começa a aperceber-se da importância da infografia no futuro da comunicação impressa”.

O processo de criação de infografias

“O surgimento de uma boa infografia tanto pode partir de um jornalista que tenha uma notícia para trabalhar, bem como do designer que cumpra as funções de infografista e esteja atento ás possíveis ‘notícias visuais'”. A convicção é partilhada pelos responsáveis da Anyforms e traduz, no fundo, a importância que a infografia e os infografistas já assumem na realidade informativa actual.

No Público, por exemplo, “quando os textos são propícios á inserção de uma infografia, o jornalista e o infografista definem, em conjunto, o espaço a dedicar a cada uma das componentes”. Uma noção de trabalho de equipa que se repete nos jornais da Económica na medida em que, como explica Susana Lopes, é assumida como “extremamente importante” a interacção dos três profissionais do departamento de infografia “em todas as etapas de um jornal” desde “a concepção inicial da agenda do dia até ao posicionamento das infografias em página”. Nesse sentido, é natural que os infografistas lidem “diariamente com profissionais que vão desde os directores, os editores dos diferentes cadernos, os jornalistas e os paginadores”.

Também no Expresso, Ana Serra entende como “fundamental” o “diálogo entre as diferentes editorias”. “Entre texto, foto, ilustração e infografia, todos devem reconhecer as suas funções, assim como os seus limites e os problemas das suas próprias limitações”, observa.

No caso das colaborações externas de empresas que prestam serviços na área de infografia, Luís Taklim e Leonel Pinto explicam que antes de qualquer preocupação com o modelo de relacionamento entre as partes gráfica e editorial “é necessário avaliar correctamente se o produto final que se pretende é mesmo uma infografia”. Isto porque, argumentam, “na maioria dos casos, quem faz o pedido do trabalho tem em mente uma mera ilustração ou tem algo como matéria que é impossível de traduzir como infografia, o que prejudica fortemente o resultado final”.

Esclarecido este primeiro pressuposto, “existe depois o factor tempo de execução, que na maioria dos casos limita em muito a possibilidade de criar um bom gráfico”, na medida em que o tempo concedido para a concretização da infografia “é quase sempre muito inferior ao necessário para a criação do trabalho”. Um sentimento partilhado pelos profissionais que trabalham ‘na parte de dentro’ do jornalismo português, onde a produção própria de infografias “ainda é pouco significativa” e muitas vezes “impossível de realizar num jornal diário, onde a urgência não se coaduna com o tempo necessário para a recolha de informação e posterior concepção das peças”, como resume o infografista do Público.

A juntar aos factores ‘tempo’ e ‘trabalho a criar’, surge ainda a condicionante do espaço destinado ao gráfico nas páginas da publicação, aspecto definido como “essencial para a boa gestão da imagem a criar e em função da quantidade de textos ou dados a inserir”.

Definidas todas as premissas que contextualizam a decisão de criar estes trabalhos, os directores da Anyforms apontam como elementos essenciais no processo de execução de “uma boa infografia” a criação de “uma imagem tão apelativa quanto possível, que ‘obrigue’ o leitor a reparar nela e seja desde logo impelido á sua leitura” e “o correcto posicionamento dos textos a incluir, e o uso de frases breves e informativas”.

Tudo isto, nunca esquecendo a perspectiva de que “uma infografia deve ser, antes de mais, oportuna e pertinente”, como sustenta Joaquim Guerreiro. “Tem que apresentar a informação de forma clara e objectiva, sem ‘ruído’ nem floreados desnecessários. Deve sempre acrescentar informação ao texto e tornar óbvios aspectos por vezes difíceis de visualizar”.

Porque o objectivo do recurso a esta técnica é “completar o que o texto não explica, deixar pistas quando o texto e a foto só consegue sugerir”, avança Ana Serra, para quem “a infografia tem a mais complicada das funções: demonstrar a verdade, por conta dos factos, retirando da frente do leitor todos os obstáculos que o separam da verdade”.

Pormenores essenciais para que a infografia seja bem sucedida e justifique a decisão editorial de incluí-la nas páginas do jornal e aos quais se devem aliar, segundo Susana Lopes, factores como “a veracidade da informação tanto visual como informativa”, com o objectivo máximo de “acima de tudo, não enganar o leitor”. No fundo, como corrobora Sérgio Braga, as exigências que estão na base da produção de uma boa infografia são em tudo semelhantes ás que os jornalistas usam na linguagem jornalística: “rigor, pesquisa, flexibilidade e credibilidade nas fontes”

Formação precisa-se

Dos testemunhos prestados ao M&P pelo profissionais de infografia contactados no âmbito deste trabalho sobressai uma opinião unânime quanto ao cenário de formação (in)existente nesta área no nosso país.

“A formação ao nível da infografia em Portugal é ainda muito deficitária, existindo alguns cursos isolados e alguns congressos mas ainda sem a força que se pretende para impulsionar este veículo de comunicação”, constata Susana Lopes, apontando como forma de ultrapassar este défice a necessidade de buscar além fronteiras o enriquecimento de conhecimento e know how nesta matéria “pois apesar de existirem em Portugal bons profissionais, em termos de formação, esta encontra-se sobretudo no exterior”.

“Não tenho conhecimento de qualquer formação específica na área da infografia em Portugal”, corrobora Joaquim Guerreiro, sublinhando que grande parte dos infografistas do nosso mercado “vêm da área do design gráfico ou de comunicação” e cujo percurso profissional acaba muitas vezes por ir dar á infografia tornando-se excelentes profissionais”. “O número de publicações existentes em Portugal talvez não justifique, nem rentabilize, a criação de formação específica em infografia”, sugere o infografista do Público, pelo que se torna “mais vantajoso e enriquecedor complementar conhecimentos em workshops noutros países”.

Para Sérgio Braga, no entanto, será inevitável que as universidades de comunicação venham a “mudar o conceito linear do jornalismo e formar especialistas nesta área”, dada a urgência de “corresponder ás necessidades dos departamentos de infografia na imprensa”.

Uma situação que, para os responsáveis da Anyforms, já começa a ganhar forma, na medida em que “as universidades e organismo particulares de formação” parecem começar a responder “a uma procura crescente que surge quer por parte de formandos e empresas”. Neste contexto, a Faculdade de Belas Artes de Lisboa e a ETIC são apontados como exemplos de entidades que já têm planeados para os próximos anos lectivos cadeiras e cursos de infografia. Um panorama que poderá ajudar a mudar o actual cenário de departamentos de infografia “constituídos por pessoas com formação académica em design ou jornalismo, e que de forma auto-didacta e devido á possibilidade da criação do departamento no seu local de trabalho, foram ‘desbravando’ o caminho da infografia nacional” e “fazendo acções de formação no estrangeiro, na medida do que podiam”, como ilustram Luís Taklim e Leonel Pinto.

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