Otto Czernin, director da Magazine Grande Informação

Por a 9 de Dezembro de 2005

Otto Czernin

Chega hoje ás bancas a Magazine Grande Informação, título idealizado e dirigido por Otto Czernin, que se lança com este projecto na área dos media. O M&P conversou com o director / proprietário deste título dirigido ás classes A e B, que pretende vender 30 mil exemplares, quer defender causas e chegar a todo o mundo onde se fala português

Otto Czernin, «austríaco quase por acaso», é o director e um dos três proprietários da Magazine Grande Informação, uma revista que pretende lutar por valores, chegar a todos os portugueses espalhados pelo mundo e contribuir para que algumas pessoas mudem a forma de pensar. Católico e monárquico, o director do título faz com este projecto a primeira incursão na área dos media, depois de ter passado os últimos anos dedicados ao turismo, sendo proprietário de uma agência que se dedica a eventos internacionais e outra a viagens históricas para portugueses. «Viagens contra o espírito sol e praia, porque isso temos na Caparica», explica.

Meios & Publicidade (M&P): Como é que um empresário que até agora nunca esteve ligado á área da comunicação social se lembra de lançar a Magazine Grande Informação?

Otto Czernin (OC): A Ideia nasceu há alguns meses numa conferência que organizámos em Lisboa com o arquiduque Otto de Hasburgo, um homem com 93 anos, que foi eurodeputado, que é uma pessoa com ideias muito interessantes acerca da Europa e de Portugal. Ele acha que nós na Europa, e eu comungo das suas ideias, estamos a perder alguns valores. E a Europa anda um bocado á deriva. Ele acha que é em grande parte por causa da comunicação social. Nós temos uma comunicação social um bocado tendenciosa, um bocado complexada, em que as pessoas têm medo de defender os valores e ideias em que acreditam, estamos todos muito reféns dos interesses comerciais. E daí termos uma comunicação social que diz toda a mesma coisa. Eu não tenho a veleidade de querer mudar as coisas, porque não vou conseguir mudar nada, mas se conseguir todos os meses põr uma ou duas ou três pessoas a pensar doutra maneira, para mim já é uma vitória. A razão do lançamento é essa.

M&P: Como é que descreve a revista?

OC: É uma revista mensal que fala um bocadinho de tudo. De política, de economia, de sociedade, de família, de lusofonia – essa é uma das grandes apostas -, do mundo e depois tem também o fait-divers. Ao contrário das revistas mensais que abordam os temas de uma forma rápida, a nossa ideia é abordar três ou quatro temas interessantes e esticá-los.

M&P: Dê-me exemplos de um ou dois temas. OC: Por exemplo, porque é que há miúdos a ir para a política. Aqueles miúdos que dizem «eu quero mudar o mundo».

M&P: Pelo lado positivo?

OC: Exactamente. Porque o potencial de idealismo depois vai esmorecendo. E porquê? Porque a máquina partidária, muitas das vezes, destrói a pessoa. A pessoa tem ideais, depois entra naquela engrenagem e fica igual aos outros. Isto é um tema que podemos abordar na perspectiva de mudar a sociedade ou alertar para algumas coisas. Depois há também os mitos. A Opus Dei é um mito, a Maçonaria também… Há outros temas, como um dia no hospital, um banco. Na Visão ou na Sábado também se fala nisto, mas em duas páginas. Nós queremos falar em 20.

M&P: E as pessoas lêem artigos de 20 páginas?

OC: Vamos ver. Bem documentados, com caixas, com imagens, com grafismo, talvez sim. É um desafio. Isto é uma aventura. Nós sabemos do que é que vamos á procura, não sabemos se lá vamos chegar. É um bocado como as caravelas. Sabiam que existia a Índia e sabiam que existia um caminho… Sabemos que as pessoas andam um bocado saturadas da informação, achamos que não são completamente estúpidas e sabemos que querem saber e estar entretidas. E achamos que têm direito a ter uma coisa um bocadinho diferente. Um bocado como era a Grande Reportagem, de que toda a gente gostava e deixou de existir.

M&P: O projecto, mesmo em termos de layout, tem algumas semelhanças com a Grande Reportagem. A ideia é mesmo preencher o lugar deixado vago pela Grande Reportagem?

OC: Nós não queremos combater ninguém, achamos é que há um espaço para a revista mensal. Aquilo que a televisão dá num minuto e as semanais em dez, nós damos em meia hora.

M&P: Falou na defesa de valores. Quais?

OC: Eu sou cristão, sou católico, um péssimo católico, mas tento seguir aquilo que Jesus nos deixou. É a minha figura de referência, um homem que foi um revolucionário, que morreu pelas suas ideias, que nunca odiou ninguém, que nos deixou um grande exemplo de amor. Porque as coisas só se resolvem com amor, sem amor não se consegue fazer nada. E esse é um dos dramas da sociedade de hoje. Nada se faz com amor, faz-se tudo ou por ódio, ou por interesse ou por prazer. E agora já sei que toda a gente vai dizer que sou um hipócrita, que ando a pregar água e bebo vinho, e se calhar é verdade… Mas são essas as ideias e tento segui-las. Em termos políticos sou monárquico. Acho que a monarquia era o sistema muito interessante para Portugal, independentemente do político que lá estivesse. Em termos partidários sou completamente apartidário. Acho que um partido tem que ser competente, honesto e trabalhar para as pessoas. Eu dum governo exijo competência, mais nada.

M&P: Mas a revista defende esses valores?

OC: Não defende, mas vai tentar passar. Isto não pode ser feito de uma forma muito explicita, eu não quero impor nada a ninguém e na minha revista toda a gente vai ter direito á sua opinião. É como no Público, o José Manuel Fernandes tem uma linha de pensamento e tem cronistas que não partilham as suas opiniões. Eu quero pessoas honestas, que possam escrever e que defendam as suas ideias. Mas também não queria ataques subreptícios ás minhas ideias. Sendo cristão, católico e monárquico, não vou permitir que a minha revista seja um meio para atacar a igreja e a instituição monárquica. Mas isso é uma coisa, outra é não permitir a discussão e o debate de ideias, porque isso é interessante. A revista deve ser um espaço de debate. Mas os leitores têm o direito de saber as minhas opiniões, e essas eu vou passando nos editoriais.

M&P: Na apresentação da Magazine Grande Informação está escrito que a revista que «pretende dar voz a uma maioria silenciosa que não se revê nos conteúdos oferecidos». Como é que este objectivo se traduz na revista?

OC: Nós queremos contar histórias. Todos temos a sensação que nos falta qualquer coisa, a vida está um bocado vazia. Anda tudo a correr para médicos, psicólogos, curandeiros, astrólogos… E não acho que seja só o problema do dinheiro. Acho que o problema é não se saber para onde é que isto vai, a começar no país e a acabar na vida de cada um. E faz falta uma revista que dê algumas referências, que fale um bocado da história. Hoje as revistas são só sexo, suor e sangue. Todos gostamos, mas chegámos a um ponto de saturação. Já é demais, as pessoas têm necessidade de qualquer coisa que possam ler.

M&P: Ainda não percebi se estamos a falar de uma revista positiva ou de uma revista moralista…

OC: É uma boa pergunta e não sei se consigo dar uma resposta objectiva. Não posso querer que seja uma revista moralista, quero que seja uma revista onde as pessoas se sintam bem. E quero apontar alguns caminhos e dar algumas soluções. Posso dar um exemplo: há umas campanhas de crédito super agressivas, não pedem garantias e a pessoa fica a pagar 50 euros por mês durante 30 anos. Acho que é uma situação pouco honesta, que temos que abordar. Vamos contra uma série de interesses instalados, mas ou nos pomos de um lado ou do outro. E, temos causas. Por exemplo, o Berardo tem uma colecção de arte fantástica, que está em risco de sair daqui. Temos que pegar nessa bandeira. Não é moralismo, é defender que é nosso.

M&P: A revista tem também a particularidade de não ter uma redacção fixo.

OC: Optámos por ter 10 ou 12 colaboradores de referência, a quem encomendamos as histórias. Depois temos também um conselho consultivo que integra o Hernâni Lopes, o Bagão Félix, o dr. Salvador de Melo, o Luís Assis Teixeira e eu próprio. Esse conselho reúne-se todos os meses, para discutir conteúdos, fazer o ponto da situação, facultar contactos, etc. O Hernâni está nisto porque uma das bandeiras da revista é a Lusofonia, queremos põr a revista em todos os sítios onde se fala português.

M&P: Em quanto tempo?

OC: Isso não sei, não tenho pressa.

M&P: Falava-se num grupo de investidores liderado por si. Quem é que está consigo neste projecto?

OC: Temos uma sociedade anónima. O capital neste momento está nos três membros fundadores que são dr. Salvador de Melo, o Luís Filipe Assis Teixeira e eu próprio. Mas mais dia menos dia vamos abrir o capital ao público.

M&P: E quanto é que vão investir?

OC: Temos um investimento inicial, que já foi feito e vamos tentar que se pague a si próprio, e oportunamente iremos abrir o capital a outros investidores que queiram colaborar no projecto. Mas o investimento inicial está feito e vamos tentar «esticar a perna ao comprimento do lençol».

M&P: Para além dos objectivos mais ideológicos, acredita que a Magazine Grande Informação pode ser um projecto rentável?

OC: Eu creio que sim. A nossa ideia inicial não foi ganhar dinheiro, mas é evidente que o projecto tem que ser auto sustentável. Com o passar do tempo, comecei a acreditar que isto pode ser um bom negócio e que o dinheiro que gera vai fazer a revista crescer e ir lá para fora. Isso é muito importante, fazer da revista uma plataforma de entendimento e cultura entre o mundo português. E são 200 milhões. Do ponto de vista financeiro acho que pode ser muito interessante, se conseguirmos põr a revista lá fora.

M&P: Quais são, a médio prazo, as suas expectativas em termos de circulação paga?

OC: Queríamos no primeiro ano chegar aos 30 mil exemplares.

M&P: Quem é que imagina a ler a Magazine Grande Informação?

OC: Pessoas dos 30 aos 60, da classe A e B. Há muitas revistas de negócios e dinheiro. As pessoas que lidam para com dinheiro já estão um bocado fartas de dinheiro. O segmento alto passa pelas revistas de negócios a correr, ao fim do dia quer tudo menos aquilo, que é o suplicio que tem o dia inteiro. Vamos apanhar essa gente de certeza, essa gente tem necessidade duma revista onde possa descansar os olhos.

M&P: Para o lançamento desta revista foi criada a Magazine SA. Há algum outro projecto em perspectiva para a editora?

OC: (Risos) Não sei, vamos ver, não fecho portas nenhumas. Tenho uma ideia na cabeça, mas deixe-me põr isto nos carris e depois conversamos.

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