O que nos faz mover?

Por a 23 de Abril de 2004

Susana de Carvalho

“Proponho uma melhoria á nossa falta de planeamento e cumprimento de prazos. Se esta característica é imputada aos portugueses em geral, tenho a certeza que ela é particularmente ’aguda’ no nosso sector e uma das que mais afecta a qualidade do nosso trabalho”

CEO da J. Walter Thompson

Há trinta anos atrás, era comum as pessoas fazerem as suas carreiras numa única empresa, subiam degrau a degrau, os seus colegas de profissão eram os seus amigos (ou nalguns casos os inimigos) de estimação de uma vida e um belo dia tinham-se passado 30 anos de dedicação á empresa.

Este modus vivendi desmantelou-se e hoje em dia conceitos como o vestir a camisola, a lealdade, caíram em desuso. Aliás, as pessoas até se sentem mal quando lhes perguntam há quanto tempo estão na empresa xpto, se fõr o caso de estarem no patamar dos 5-10 anos de trabalho. Mais do que isso então, significa que estão acomodadas, emprateleiradas, o mesmo significa dizer que estão fora do mercado.

Mal comparado, é como o fenómeno de fumar. As pessoas hoje em dia sentem-se culpadas por fumarem, já não é mesmo nada in andar com o cigarro na boca. Quantas já vi dizerem que estão mesmo quase a deixar, para não se sentirem tão ostracizadas.

Cigarros á parte, que fazem mesmo mal á saúde, o trabalho pelo contrário parece que não faz mal a ninguém (dizem os mais cínicos que é um mal necessário).

Para mim o sucesso das empresas – e consequentemente dos indivíduos -, não se mede pelo número de anos que trabalham na mesma empresa. Até pode ser uma vida, desde que as pessoas se sintam realizadas e sempre em movimento.

A questão que sempre me suscitou mais curiosidade e interesse é o que faz mover as pessoas. O que as leva a mudar ou permanecer na mesma empresa, a opção de mudarem radicalmente de ramo de actividade, o peso do factor financeiro, do ambiente de trabalho, etc., etc.

Habituámo-nos a ouvir nos últimos tempos que as pessoas são o bem mais precioso das empresas, que é preciso formar e motivar continuamente os nossos quadros, mas o que é certo é que as nossas histórias de vida estão cheias de episódios em que as pessoas passam de heróis a bestas, as estrelas brilham num determinado universo e apagam-se noutro, as personagens mais obscuras teimam em vingar, as costas dos amigos já não têm sítio para desferir mais golpes.

Se há um negócio que vive mesmo apenas de pessoas – do talento ou da falta dele – , é o nosso. Os nossos anunciantes, os meios, têm produtos físicos ou serviços, têm património, orçamentos de hardware, de marketing, têm fábricas, têm um mix muito variado para definir as melhores estratégias, têm muitas alíneas onde cortar para atingir os seus resultados.

No sector da publicidade (ou se quisermos da comunicação num sentido mais lato) só temos pessoas. Sempre. Se os anunciantes cortam o seu investimento, ou conseguimos repõ-lo através de novos negócios ou resta-nos muitas vezes cortar nas pessoas.

Hoje acredito piamente que o único factor absolutamente diferenciador e determinante para o sucesso face á nossa concorrência é uma determinada combinação de pessoas num determinado momento. Claro que são importantes a marca, a experiência passada, as ferramentas disponíveis, quem comanda os destinos da empresa, mas se extrairmos o sumo da nossa essência, é esse momento em que elas se encontram, acreditam e fazem acontecer.

Acredito – e mais uma vez em especial no nosso negócio -, no poder da diversidade, de gente nova mas também experiente, de pessoas com backgrounds académicos, profissionais e pessoais radicalmente opostos.

Falei em mudanças no mês passado. Fui de férias e quando voltei deparei-me com várias alterações no tabuleiro. Inclusivé no meu. A foi para B, C e D foram para F, H prepara-se para voltar para G. Assistimos normalmente a dois tipos de movimentos: peças do mesmo jogo mas que mudam continuamente do lado do tabuleiro e as peças que resistem.

Sempre fui fascinada pelas pessoas. Sinto muitas vezes, quando conheço alguém fantástico, que haverá muitas outras desconhecidas que andam por aí, como nós, com as quais corremos o risco de nunca nos cruzarmos. Normalmente temos tendência para jogar no tabuleiro sempre com as mesmas peças.

O que nos faz verdadeiramente mover? As pessoas. Sempre as pessoas.

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