Grátis, uma ova!

Por a 30 de Março de 2001

O “tudo grátis” na internet tem os dias contados. A necessidade de capitalizar os projectos de conteúdos online deixa antever o início de uma nova era. Pinto Balsemão já apontou o caminho. E os outros?

Aceder á internet, fazer o download de músicas, enviar cartões virtuais e ler conteúdos online. O que têm estas coisas em comum? São grátis! No entanto, esta realidade pode estar prestes a mudar. No passado dia 15 de Março, Francisco Pinto Balsemão, por ocasião de um jantar promovido pela APMP — Associação Portuguesa para a Promoção do Multimédia, deixou entender que a Impresa está a ponderar seriamente a possibilidade de começar a cobrar pelos conteúdos disponibilizados pelo “Expresso Online”. Instada a comentar esta possibilidade, Rosa Pedroso Lima, editora do “Expresso Online”, salienta que «desde o início do projecto que se tem discutido essa fórmula». Para esta responsável, trata-

-se de uma inevitabilidade, até porque «a pesquisa de um arquivo custa dinheiro». O debate está instalado…

Até agora, o modelo de negócios de oferta gratuita de conteúdo era “sustentado” através de receitas do comércio electrónico e da publicidade online. Para o efeito, foram investidas largas somas com o objectivo principal de estabelecer uma grande audiência e conquistar rapidamente uma fatia considerável do mercado. No entanto, a queda do Nasdaq, e as suas repercussões no mercado bolsista mundial por um lado, e as fracas receitas geradas pela publicidade online, vieram refrear os ânimos dos investidores. Os consecutivos adiamentos do projecto SIC Online e o abandono dos negócios na internet por parte da Cofina são disso um bom exemplo.

Em Portugal, a intenção de avançar para os conteúdos online pagos não é pioneira e acompanha uma tendência mundial já manifestada, ou colocada em prática, por títulos de renome.

No último editorial da Salon.com, um site norte-

-americano de notícias com 2,7 milhões de visitantes únicos, o editor-chefe, David Talbot, anuncia o lançamento da Salon Premium, a única forma, na sua opinião, de enfrentar a recessão económica. Este responsável pretende converter 1 a 2% dos utilizadores actuais para este novo serviço, mas garante que a Salon continuará a ser um site basicamente gratuito. Por um valor a rondar os 6.700 escudos/ano, Talbot garante o fornecimento de conteúdo especial livre de publicidade.

O “Washington Post” foi outro dos títulos que anunciaram para breve o pagamento de conteúdos “plus” da sua versão online. No Velho Continente, a revista inglesa “The Economist” já há algum tempo consagra essa modalidade.

Apesar da tendência generalizada, muitas são ainda as interrogações. Desconhece-se, por exemplo, quais as modalidades de pagamento a adoptar (peça a peça, subscrição mensal ou anual, etc.). Os responsáveis por projectos de conteúdos online, apesar de atentos, preferem esperar para ver…

Diário Digital

O “Diário Digital” foi dos primeiros a repensar a sua estratégia na internet, tendo agregado dois projectos pertencentes á Caneta Electrónica: “Super Elite” e “Dinheiro Digital”. No entanto, Luís Delgado, director da publicação, afasta a ideia de começar a cobrar pelos conteúdos do “Diário Digital”: «O nosso modelo de negócio baseia-se na publicidade online, não tanto centrada nas impressões, e na venda de conteúdos. Nesse sentido, ainda recentemente vendemos os nossos conteúdos ao banco Sabadell», destaca.

Confrontado com o anúncio de Balsemão, Luís Delgado mostra-se incrédulo: «Acho que dificilmente o modelo de conteúdos pagos irá vingar. Os utilizadores, para acederem á internet, já estão a pagar. Julgo que o caminho será mais no sentido da venda de conteúdos a outras empresas e no estabelecimento de parcerias para o e-commerce.»

Janela na Web

Para Jorge Nascimento Rodrigues, director do “Janela na Web”, um portal de management, o sucesso dos conteúdos pagos na internet vai depender do modelo concreto de venda. «O que poderá ser mais significativo em termos de modelo de negócio é a sindicação de conteúdos para outros media (uma modalidade de B2B na área dos conteúdos)», salienta. No entanto, e segundo o mesmo responsável, «isto só funciona se os media fizerem online algo diferente do que fazem no papel; tiverem valor acrescentado no material que publicam; e isso significaria uma revolução no jornalismo e na edição em Portugal, pois os grandes grupos teriam de inverter o actual processo de produção de artigos e notícias». Para Jorge Nascimento Rodrigues é necessário definir criteriosamente os segmentos de clientes que se pretende atingir: os que estão dispostos a pagar; os que usam mas jamais pagarão; as circunstâncias em que se consulta; o benchmark entre assinaturas por papel e as por web.

Sapo

O primeiro anúncio da disponibilização de conteúdos mediante o pagamento de uma taxa foi feito pelo portal Sapo, com o canal “Disney Blast”. José Carlos Baldino, administrador da Saber e Lazer, empresa proprietária do portal, destaca que «não foi sequer o “Expresso” o primeiro a anunciar essa tendência (conteúdos pagos online) em Portugal. Foi o Sapo que deu o pontapé de saída nessa intenção». Em breve, o canal “Disney Blast” vai passar a ser pago, no entanto, segundo aquele responsável, houve necessidade de fazer «um compasso de espera porque não queremos tornar o canal “Disney Blast” um caso isolado de conteúdo pago. Será apenas uma das componentes de um pacote de conteúdo Premium que pretendemos lançar». Ainda segundo José Carlos Baldino, «estamos ainda longe de acabar com o grátis na internet. A gratuitidade foi importante de um ponto de vista de massificação. Sem a introdução do acesso grátis não teríamos em Portugal uma explosão de acesso tão grande no ano 2000. Chegou a hora de tirar partido dessa utilização intensiva».

Emarketeer

O anúncio de Balsemão não apanhou de surpresa Ana Martínez, responsável pelo licenciamento de conteúdos do Emarketeer.net, um site de marketing online. «A nossa estratégia mantém-se inalterada. Acreditamos nos serviços Premium, não só no site mas também na newsletter», afirma Ana Martínez. De acordo com esta responsável, «o fenómeno do grátis foi massificado na internet e a exigência de pagamentos mediante a disponibilização de conteúdos online não pode ser feita de um dia para o outro. É um processo que vai ser gradual». Apesar de se preparar para avançar com serviços Premium no próximo trimestre, o Emarketeer está ainda a ponderar as modalidades de pagamento. «Sabemos que os utilizadores estão dispostos a pagar microquantidades, mas o cartão de crédito não é uma forma viável para o fazer. Estamos a estudar alternativas», refere Ana Martínez.

Media Capital

Multimedia

Conteúdos pagos na internet? Esperar para ver parece ser o lema do grupo de Paes do Amaral. O momento é de «ponderação», destaca Luís Rodrigues, administrador da Media Capital Multimedia. No entanto, uma coisa parece certa: «Existe uma dificuldade em manter o modelo de negócio actual.» A possibilidade de alimentar um projecto com as receitas de publicidade online é algo que aquele responsável pela Media Capital Multimedia não descura, mas «nem todos podem viver do mesmo». Em jeito de aviso, Luís Rodrigues defende que «os utilizadores têm de estar preparados para pagar por conteúdos online». Apesar de constatar a existência de «demasiadas variáveis», aquele responsável prevê que até ao final do ano a Media Capital passe a disponibilizar conteúdos mediante pagamento.

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