Vamos tocar o banjo?

Por a 21 de Maio de 2019
Edson Athayde, CEO/CCO FCB Lisboa

Edson Athayde, CEO/CCO FCB Lisboa

Adoro memes. Quando bons, trazem pontos de vista únicos, irónicos, divertidos sobre o dia-a-dia. Estava a começar a escrever este texto  quando me deparei com um meme que me fez pensar. A minha ideia era escrever (como me foi pedido) um resumo sério sobre o  estado da nação publicitária, elencar argumentos concretos, expor dados  complexos, deixar claro o sério e arguto CEO que sou. O problema foi o meme. A culpa foi dele. O meme mostrava o desenho de um  homem a tocar banjo com um título a perguntar. “Quem quer aprender a tocar o banjo?”. Por debaixo do desenho havia uma série de respostas,  todas negativas.
Ninguém quer tocar o banjo. No entanto, todos querem música. Há melhor metáfora para a vida e para a nossa indústria?
Todos querem criatividade, mas muito poucos querem trabalhar para obtê-la. Acham que a criatividade vai cair do céu, vai ser livre de  qualquer polémica, vai ser compreendida por todos (inclusive pelos públicos aos quais ela não é direccionada). Será nova, porém já vista. Será divertida, porém respeitosa. Será curiosa, porém óbvia. Será  criatividade, sem nunca o ser.
Pode não parecer, mas a criatividade é um banjo das ideias. No fundo, todos querem as coisas com a harmonia de uma harpa, a doçura de uma flauta, a elegância de um oboé. E porém, no entanto, contudo, a criatividade é por natureza estridente, quando boa, chama a atenção, desobedece o maestro, toca por cima da orquestra.
Todos querem campanhas maiores, mais abrangentes, presentes em mais  plataformas, que provoquem os efeitos dos spots de televisão de há 10  anos, mas sem recorrer à televisão. Todos, no fundo, querem a TV sem ser  na TV. E não querem ouvir que se querem isto, em Portugal, o melhor  ainda é ir à TV. Quem diria, a TV, outrora piano de cauda, o centro de todos os budgets, de todas as atenções, tornou-se um banjo, um patinho feio, numa desgraçadinha que afugenta os novos apóstolos da modernização.
A morte da TV como veículo publicitário é um daqueles exageros que tem  uma ponta na verdade, mas que não passa (ainda) disto: um exagero. Quem  dera que todas as campanhas pudessem contar com a TV. E quem dera que  deixassem sempre usar esse meio com a devida propriedade (e não apenas  como complemento burro de repetição de mensagem).
Poderia continuar a desfiar exemplos. Poderia falar dos millennials e  das suas fabulosas contradições, a maneira como dizem não ligar a dinheiro e fama, mas a sofrer e a fazer sofrer quando não têm isto. Querem tocar o banjo, mas sem magoar os dedos.
Também cabe um reparo aos consumidores que dizem achar a publicidade  irrelevante, mas que não resistem em a querer manipular sempre que  possível. Dizem que o banjo não existe, mas reclamam do seu som.
No fundo, o problema é que a publicidade (e tudo que a compõe) é  percebida, por quase todos, como um instrumento pouco sexy, com um som  intrusivo, que não combina com os dias de hoje.
Eu disse quase todos. Uma conta que inclui muitos, talvez a maioria, mas  que, graças à Deus, deixa gente de fora. Tento ser um desses. Acredito que, quando bem tocado, o banjo pode contribuir para alegrar a malta e animar a festa. Sem o banjo o mundo é  mais triste, mais cinza, mais chato.
Algoritmos não tocam banjo. Nem powerpoints. Nem excels. O banjo ainda é  propriedade do homem (e da mulher, claro). É preciso ser humano e  perceber de humanos para tirar bom som dele. Daí repito a pergunta lá do começo do texto: vamos tocar o banjo? Se quiser fazer um trio, pode contar comigo e com o meu Tio Olavo.

*Por Edson Athayde, CEO/CCO FCB Lisboa

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