De gasolineira a fornecedor energético

Por a 13 de Maio de 2019
Anabela Silva (BP), António Martins Victor (Repsol), Carlos Ferraz (Prio), Gonçalo Castelo Branco (EDP) e Joana Garoupa (Galp)

Anabela Silva (BP), António Martins Victor (Repsol), Carlos Ferraz (Prio), Gonçalo Castelo Branco (EDP) e Joana Garoupa (Galp)

As empresas do sector dos combustíveis e energia seguem de perto o “crescimento exponencial” do parque automóvel eléctrico. A resposta, que começa a ganhar tracção sob a forma de parcerias e novos produtos de mobilidade e soluções energéticas, está a transformar o negócio tal como o conhecíamos

Os números de vendas de automóveis eléctricos, que só no último ano superaram a totalidade deste tipo de viaturas comercializadas ao longo de quase toda a última década, não deixam margem para dúvidas às empresas do sector dos combustíveis e energia. A mobilidade eléctrica é o futuro e esse futuro já não está assim tão distante. Está na hora de preparar as redes de abastecimento nesse sentido e reforçar a oferta com soluções adaptadas à nova realidade, que promete transformar o parque automóvel no médio prazo.

“Estamos com um plano de expansão em curso que prevê maior oferta de soluções e reforço de capilaridade”, confirma ao M&P Joana Garoupa, directora de marca e comunicação da Galp, que lidera actualmente em número de postos de carregamento no mercado português. Antes de detalhar os planos da energética portuguesa, a responsável recorda que esta “tem sido pioneira na mobilidade eléctrica em Portugal: tivemos o primeiro ponto de carregamento rápido em auto-estrada, em 2010, e fomos em 2018 o primeiro operador a apresentar uma oferta integrada para a mobilidade com o Plano Galp Eletric”. “A Galp tem na génese da sua actuação a satisfação permanente das necessidades energéticas dos consumidores. Por isso procura, de forma contínua, acompanhar as tendências e estar ao lado dos seus clientes como ‘enabler’ das soluções mais convenientes em cada momento. Na mobilidade eléctrica essa postura tem sido paradigmática”, afirma Joana Garoupa.

É nesse sentido que, antecipa, “teremos mais 49 pontos de carregamento rápido nos nossos postos de abastecimento em Portugal Continental e nos Açores nos próximos meses”. “Colocámos ainda, recentemente, 28 pontos de carregamento normal em operação em parques de estacionamento de centros comerciais, número que pretendemos aumentar ainda este ano, para além de outros pontos de carregamento que ambicionamos colocar na via pública em coordenação com câmaras municipais, assim como em empresas para o abastecimento de frotas e em casa dos nossos clientes através da comercialização de wallboxs”, completa a responsável.

O mesmo caminho está a ser seguido quer pelas restantes empresas do sector dos combustíveis quer por outro gigante do sector energético de origem portuguesa, a EDP. Ou, neste caso, como resultado de uma aposta comum que resultou numa parceria entre empresas dos dois sectores cada vez mais convergentes. “A BP está também empenhada em acompanhar as metas do advanced low carbon transition e investe bastante na investigação de novas formas de mobilidade: dos carros eléctricos aos autónomos, passando pela necessidade de energia mais limpa para esses veículos”, começa por referir Anabela Silva, directora de marketing e comunicação externa da BP. “Pensando o crescimento sustentável como um conjunto de práticas que assegurem o desenvolvimento saudável a longo prazo, a BP destaca a aposta numa política low carbon, os investimentos no negócio e a aposta em parcerias estratégicas, nomeadamente a que tivemos recentemente com a EDP”, salienta a responsável, aludindo à parceria através da qual se concretizou um cruzamento entre os programas de fidelização da BP, Pingo Doce e EDP. Desta forma, os clientes da EDP Comercial com cartão Poupa Mais que abasteçam nos postos BP têm um desconto na factura do gás e da electricidade, sendo que nos carregamentos dos veículos eléctricos nos postos BP passarão a receber pontos a triplicar.

Anabela Silva explica ainda que “esta parceria surge numa altura em que a BP e a EDP estão empenhadas em contribuir para o desenvolvimento da mobilidade eléctrica em Portugal, tendo assinado ainda um acordo que resultará na instalação de novos postos de carregamento de veículos eléctricos no país”. “Os cinco primeiros postos estão distribuídos por Lisboa, Porto e Maia, mas esperamos poder instalar, no espaço de um ano, cerca de 30 pontos de carregamento em toda a rede”, adianta a responsável. “A EDP continuará a apostar na expansão da rede de carregamento público, não apenas em postos rápidos mas também em postos semirrápidos, para situações que se designam como carregamento de oportunidade, em superfícies comerciais ou supermercados”, completa, por sua vez, Gonçalo Castelo Branco, head of smart mobility da energética, chamando a atenção para o facto de que “a empresa quer fazê-lo não apenas nas grandes cidades e no litoral, mas quer estar presente junto destes clientes em vários pontos do país”. “Para expansão dessa rede de carregamento, a EDP conta com uma série de outros parceiros, na generalidade também nossos clientes, que desta forma estão também a aumentar a sua proposta de valor para os clientes finais”, conclui.

Com uma rede de menor dimensão em Portugal, a Repsol conta actualmente com quatro postos de carregamento rápido. Ainda assim, esta é também uma aposta da marca espanhola que, refere António Martins Victor, director de comunicação e relações externas da Repsol Portuguesa, a nível ibérico tem “já disponível um posto de carregamento ultra-rápido de 700kw que permite carregamentos de dois veículos a 350kw e temos previsto instalar mais quatro postos proximamente”. “O nosso posicionamento é cada vez mais de fornecedor de multienergia, pois progressivamente comercializaremos combustíveis tradicionais, GPL, gás natural e electricidade”, destaca o responsável, mostrando-se confiante de que “o segmento continuará a crescer em função do preço, apoios, evolução tecnológica das baterias e outros factores”.

Também a rede de abastecimento portuguesa Prio tem orientado o seu investimento neste sentido. “É inegável que a mobilidade eléctrica será parte estrutural do futuro, daí que tenhamos sido dos primeiros a desenvolver uma aposta estratégica nesse sentido”, salienta Carlos Ferraz, gestor de desenvolvimento de negócio e responsável de mobilidade eléctrica da Prio, recordando que a marca “foi o primeiro operador registado junto da DGEG, em 2011, para carga de veículos eléctricos e mais recentemente, em 2017, lançámos o cartão Prio Electric que dá acesso à rede de postos de carregamento eléctrico gerida pela MOBI.E em Portugal. Na estratégia a médio prazo, refere o responsável, “a Prio continua a avançar na mobilidade eléctrica e a progredir na concretização do seu objectivo de atingir os 200 pontos de carregamento rápido de veículos eléctricos em 2020”. “Queremos cada vez mais fornecer melhores condições de carregamento aos utilizadores de veículos eléctricos e, para tal, esperamos converter os actuais pontos de carregamento lento em fast charge. Pretendemos assim, adicionar 50 novos pontos de carregamento aos actuais 150 da rede disponível, dos quais cinco são originalmente de carregamento rápido”, afirma Carlos Ferraz.

Mobilidade eléctrica prepara o salto

“Embora a taxa de introdução dos veículos eléctricos a longo prazo constitua uma incerteza, sabemos que poderá acelerar a médio prazo num cenário de regulação mais favorável à descarbonização da economia”, prevê Joana Garoupa, analisando a evolução deste segmento em Portugal nos próximos anos, e ao mesmo tempo salientando que o actual posicionamento da Galp nesta matéria “reflecte a antecipação de uma tendência mas traduz também o firme compromisso que assumimos em relação à transição energética”.

Uma transição que se antecipa rápida já que o crescimento do parque automóvel eléctrico parece dar indícios de que se prepara para dar o salto. “Apesar de a base de veículos eléctricos ser ainda relativamente pequena, os números estão de facto a mostrar um crescimento exponencial, tendo duplicado em cada ano, nos últimos anos. Antecipamos que o número de veículos eléctricos vai continuar a crescer a um bom ritmo em Portugal, representando cerca de 20 por cento das novas vendas de veículos em 2025 e 30 por cento em 2030”, prevê Gonçalo Castelo Branco, traçando a radiografia da evolução esperada para os próximos anos: “Em 2018, o número de veículos eléctricos representava 0,3 por cento do parque automóvel de Portugal, em 2025 deverá representar cerca de três por cento do parque total. É expectável que em 2030 haja aproximadamente 450 mil veículos eléctricos em Portugal, cerca de oito por cento do total.” A própria EDP tem como objectivo tornar a sua frota de ligeiros 100 por cento eléctrica até 2030.

E o que dizem estes números sobre a transformação do sector energético? “Os veículos eléctricos representam uma oportunidade para a EDP, que está a ser vista pela empresa como uma oportunidade para criar produtos e soluções que respondam às necessidades dos clientes”, aponta o head of smart mobility da empresa, recordando que “está presente na rede pública quer como operadora de postos de carregamento quer como comercializadora de electricidade para a mobilidade eléctrica”. “A empresa desenvolveu também soluções para carregamento em casa, que incluem uma wallbox que permite a gestão das cargas dos veículos e um tarifário para clientes de mobilidade, e está ainda a desenvolver uma solução para condomínios e edifícios comerciais que vai permitir a individualização dos consumos e o balanceamento de cargas, permitindo que famílias que vivam em apartamentos possam carregar o seu veículo eléctrico de forma eficiente”, exemplifica.

É nesse mesmo sentido que Joana Garoupa considera que “definir a Galp como ‘uma marca do sector dos combustíveis’ é redutor”. “A Galp é hoje uma empresa integrada de energia, com um portfólio robusto, consistente e resiliente – na electricidade, gás e combustíveis líquidos – e focada na construção de um futuro sustentável e na criação de valor para os seus stakeholders e para a sociedade”, esclarece a directora de marketing e comunicação da energética. Com esse posicionamento, explica Joana Garoupa, “a nossa estratégia para o futuro é clara, sermos um provider integrado de energia, activo em toda a sua cadeia de valor”. E aqui ressalva o facto de que, actualmente, “a energia pode ter muitas formas” pelo que “queremos ser um player activo e de referência na mudança do paradigma energético, antecipando tendências e adequando o nosso portfólio à evolução do mix energético e à procura de energia, maximizando as sinergias com o portfólio actual”. E essa diversificação terá, então, de abranger várias formas de distribuição, numa estratégia que deverá ir muito além da simples expansão de redes de abastecimento. Até porque, como chama a atenção Gonçalo Castelo Branco, “no futuro, o paradigma de mobilidade eléctrica será diferente daquele que hoje os clientes têm como realidade: a ida a um posto de carregamento rápido será a excepção, já que se antecipa que o cliente do futuro carregue a sua viatura, 90 por cento das vezes, em casa e no trabalho.”

Artigo publicado na edição 836 do M&P no âmbito de um dossier especial dedicado ao marketing no sector automóvel

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