“A graça está na provocação”

Por a 16 de Abril de 2019
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Os 9 anos do Canal Q e o lançamento do Q Play foram o ponto de partida para a conversa com Nuno Artur Silva, dono do canal e das Produções Fictícias. O consumo de televisão, a indústria audiovisual, a publicidade, o papel das agências de meios e os anunciantes foram alguns dos temas abordados, num contexto em que se vive a “tempestade perfeita”. Quase um ano após ter saído da RTP, é também explicado como é que passou de “figura proscrita” a administrador, bem como a sua não recondução pelo Conselho Geral Independente

Meios&Publicidade (M&P): Pegando no hino do canal – Inquietação, de José Mário Branco-, nove anos depois ainda é possível manter a inquietação?

Nuno Artur Silva (NAS): A inquietação já estava, antes do canal, nas Produções Fictícias (PF). Tem a ver com a vontade de querer sempre fazer qualquer coisa de novo. Em vez de repetir a receita, procurar o que ainda não foi feito, com todo o risco que implica. O próprio nome… “Isto é o Q? É televisão ou é o Q? É um canal ou é o Q?”. Quando escolhemos o Q sabíamos que estava implícita a pergunta, que acho que cada acto de criatividade transporta: “O que é que é isto que estamos a fazer?”. A inquietação está na base.

M&P: Lançaram agora o Q Play, uma plataforma de streaming, e o Q, canal linear, é definido como uma Talk TV. Começando pelo Q Play. Porquê? Quais as expectativas?

NAS: Já estava a ser pensado e quando regressei foi concretizado. A própria definição do que é a televisão já é discutível mas, optando por uma definição ampla, televisão é a produção total de vídeo. Então, acho que há dois movimentos. Um, que cresceu imenso, é o movimento do ver quando se quer à hora que se quer.  E há os canais, os lineares, e dentro deles os canais do directo, é essa a força do linear. Canais informativos, de desporto, coisas que estão a acontecer agora e que estamos a seguir. Os canais generalistas entram nessa definição, porque cada vez mais são televisão de companhia. Ou seja, é qualquer coisa que está ligada e há ali umas pessoas que nos estão a fazer companhia.

M&P: Falamos dos programas da manhã e tarde ou também de novelas, por exemplo?

NAS: Os canais generalistas portugueses, todos eles, são uma espécie de day time que se prolonga pela noite fora. São programas em que as pessoas estão ali a falar, os próprios telejornais ganham uma dimensão magazinesca.

M&P: As peças sobre destinos, gastronomia,…?

NAS: Destinos, restaurantes, a presença de figuras do entretenimento, entrevistas light, reportagens sobre a própria estação, autopromoções dentro de espaços informativos… Há uma confusão geral, esta ideia de que os canais generalistas se estão a tornar um gigantesco day time e o próprio formato de telenovela é ficção de companhia. Isto é, aqueles personagens estão ali todos os dias e é como se fosse a vizinhança. Uma vizinhança com umas vidas atribuladas, com irmãos que não sabiam que tinham e casos, que se vai vendo como que acompanhando.

M&P Como “cusquice”?

NAS: Como cusquice, é um pouco isso. Portanto, os canais generalistas têm este ritmo e estão a tornar-se nisto. Gigantescos day time. Isto explica a força de uma contratação como a da Cristina Ferreira, o impacto que teve e o que mudou.

M&P: Mudou as lideranças.

NAS: Mudou. E mudou o jogo publicitário, o que restava. E isso é interessante. Por outro lado, os conteúdos premium televisivos, os formatos mais prestigiados, como as séries, os filmes, os documentários, passam para uma lógica cada vez mais on demand, de subscrição ou de “vou lá buscar e vejo quando quero”. E são vistos em 1001 ecrãs. Estes dois movimentos de televisão fizeram com que tivéssemos necessidade também, à nossa pequeníssima escala…

NAS2M&P: Mesmo em timeshift, os programas mais vistos são novelas…

NAS: Sim, são as novelas. Não é surpresa que aconteça, porque o consumo televisivo é feito por pessoas que vêem muita televisão. As outras estão fragmentadas por 1001 coisas e acabam por não ter uma expressão tão grande. Tem a ver também com os hábitos portugueses. Ou, dito de outra maneira, a revolução que houve nos meios não foi acompanhada pela revolução dos conteúdos, dos formatos. Mas, voltando um pouco atrás, tivemos necessidade no de pensar “ok, o Q linear, dentro desta lógica do que está a acontecer, então deveria ser sobretudo conversa”. Há sempre umas conversas, idealmente com novos protagonistas. Isso tem a ver mais com a lógica do linear e, em certo sentido, com esta lógica de “deixa lá ver do que é que estão a falar”. Outra coisa é percebermos que, face aos conteúdos todos novos que queremos desenvolver…  A nossa enorme limitação é obviamente, como em todo o lado, mas nós mais do que todos, o capital, o investimento. Temos falta de dinheiro para investir, aquilo que conseguimos é um pequeno milagre de produção low cost. Mas essa produção low cost é um bocadinho a marca tanto do Q como das PF, e é os novos talentos, os novos valores. Revelar não só formatos como pessoas.

M&P: Apesar de tudo têm muitas pessoas de primeira linha, algumas que eventualmente nasceram no Q.

NAS: São pessoas que às vezes vêm aqui fazer coisas que sabem que não podem fazer em outro lado. Sabem que há uma margem de liberdade, de experimentação e de risco que mais nenhum canal neste momento oferece. O Q mantém, por um lado, essa abertura para os novos e, por outro lado, para os que já são conhecidos fazerem aqui loucuras. E isso vai ser potenciado pela app, que acho que é um meio muito mais lógico para tal acontecer. O que é que a app traz de muito forte, creio eu, e que aponta um caminho de futuro? Acho que é esta relação directa, em que as pessoas podem subscrever. Continuamos em linear no Meo, na NOS e na Vodafone.

M&P: No Meo também com o Q Play, gratuito. 

NAS: E queremos estar também com o Q Play, gratuito, em todos. Aconteceu simplesmente que a Meo respondeu primeiro. Os outros, espero que se sigam. Agora, há também a possibilidade de ter a app directa e é isso que acho interessante e cria uma relação mais directa com as pessoas que vêem.

M&P: Um serviço de susbcrição, uma OTT.

NAS: Sim. Quem não tiver nenhum dos serviços de que falamos, poderá aceder directamente, o que me parece mais um passo no caminho… Nós somos, e aí sim o canal Q, no meio de todos os transatlânticos, é o nosso barco à vela, que vai furando… Somos de facto a primeira empresa portuguesa a fazê-lo.

M&P: A primeira com uma OTT com subscrição.

NAS: Sim. Também fomos a primeira empresa portuguesa que não é das grandes a ter um canal próprio. Porquê? Porque da mesma maneira como achamos que faz sentido inovar nos conteúdos, também achamos que é preciso inovar na forma como se faz chegar esses conteúdos. Vamos também lançar uma coisa nova, que posso dizer em primeira mão, e que é ligada ao Q Play: queremos lançar o que vamos chamar Q de Novo, que é a possibilidade de o Q agregar uma startup de conteúdos. Para quem tiver produzido conteúdos e quiser colocá-lo numa aplicação poder fazê-lo, directamente. Se os colocar no YouTube terá eventualmente a possibilidade de chegar a mais pessoas, mas se os colocar na nossa app poderá ter uma remuneração melhor e uma relação mais próxima, não só com o seu conteúdo mas também com as pessoas que o vêem.

M&P: Mal comparando, uma espécie de Netflix, em que a produção não vem dos grandes estúdios mas de criadores independentes.

NAS: É a formiga face ao elefante, mas é um pouco isso. É dizer que queremos com esse Q de Novo abrir uma área para que qualquer criador audiovisual possa negociar connosco um modelo de negócio directo, em que ele põe um conteúdo novo, o pode monetizar, perceber o perfil de quem vê e como o vê, de uma maneira que lhe será certamente mais rentável.

M&P: Do que publicidade no YouTube?

NAS: O YouTube pode trazer muitas visualizações, mas ninguém vive dos vídeos que publica no YouTube.

M&P: Vive. Se tiver muitos muitos seguidores.

NAS: Mesmo assim, a remuneração é ridícula.

M&P: Como é que vão monetizar os conteúdos e remunerar os criadores?

NAS: Estamos a fazer o que sempre fizemos com o canal Q. Pensamos, formatamos e lançamos.

M&P: Quanto é que investiram no lançamento do QPlay?

NAS: Muito pouco. Não vou revelar números, mas não é difícil imaginar. Estivemos quase a fazer a parceria da nossa vida, quando estivemos em negociações com a HBO há uns anos…

 M&P: Depois veio a Troika e não aconteceu.
NAS: Exactamente. Quando não aconteceu, ficamos à procura de uma nova possibilidade. Depois fui para a RTP e agora, no regresso, percebemos que tínhamos que fazer qualquer coisa. Um canal destes, no linear, faz menos sentido, numa época em que as pessoas consomem cada vez mais numa lógica de conteúdo a conteúdo. Tirando aqueles exemplos que fazem sentido no linear, o directo, o que faz sentido hoje é ter uma plataforma. Julgo que todos estarão a ter esta leitura, simplesmente antecipámos, precisamente porque somos mais ágeis e, se calhar, mexemos. NAS3

M&P: O consumo do Q Play virá sobretudo do cabo ou as pessoas vão mesmo pagar por conteúdos, que é a guerra de todos os media?

NAS: Estamos no meio da tempestade perfeita. Todos. A imagem que tenho é que nós todos, os pequeninos como Q e os maiores como a SIC e a TVI, e por cima disso a Nos e a Meo, e por cima disto os outros… Estamos numa enorme tempestade, que é basicamente como é que vai sobreviver a indústria de conteúdos, numa altura em que o jogo a nível mundial está a ser tomado pelos gigantes. Desde logo a publicidade. A maior parte da publicidade vai para os googles e facebooks. Numa segunda fase os conteúdos. Se não fosse a RTP e uma linha de subsídios do ICA, não havia produção nacional, a não ser de novelas. Isto mostra a fragilidade da nossa indústria audiovisual. Não existe, tirando no campo da novela. Agora, se não se fizer qualquer coisa, como é que isto tudo vai sobreviver? No meio disto tudo, o canal Q é uma casca de noz, a graça está na provocação. O canal Q não vive das audiências, nunca viveu.

M&P: O canal é sustentável?
NAS: É. Tem sido sempre para mim condição de sobrevivência, nem as PF nem o canal Q têm a mais pequena divida, não há nenhum passivo. Sempre vivemos, como se diz, do pêlo do cão, e continuamos a viver do pêlo do cão. No momento em que não for possível, fechamos sem drama. Agora, há uma coisa que nunca fecha, que é a possibilidade de nos sentarmos a uma mesa ou num escritório a ter ideias. A história das PF, 26 anos, e do canal Q, nove anos, é uma história de projectos que sobrevivem da capacidade que têm de angariar negócio e de se pagarem. Nós não somos subsidiados por nada.

*A entrevista completa será publicada na próxima edição do M&P

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