Privacidade, liberdade e responsabilidade

Por a 7 de Fevereiro de 2019
Pedro Norton

Pedro Norton

Não será seguramente segredo para ninguém que a pegada digital que todos os dias deixamos (ao fazer pagamentos, ao usar aplicações móveis, ao enviar mensagens, ao tirar partido das comodidades da Via Verde, ao trocar mensagens profissionais ou pessoais, ao ler o nosso site de informação preferido…) é de uma tal envergadura que é muito fácil reconstituir ao milímetro cada instante das nossas vidas e o perfil de cada um de nós.
Por outro lado, também não será exactamente uma novidade dizer que as brechas na segurança das infraestruturas em que são guardados todos os detalhes das nossas vidas digitais são mais que muitas. Os escândalos deste último ano (basta citar o da Cambridge Analytica) foram aliás a demonstração cristalina disso mesmo.

Ora, quantidades massivas de informação muito detalhada sobre cada um de nós e uma insegurança tremenda sobre a forma como esta é guardada são ingredientes bastantes para fazer da privacidade um bem em vias de extinção. Digo mais. É hoje tecnologicamente possível acabar, nas nossas sociedades, com o próprio conceito e, por conseguinte, com a própria ideia do “eu”. De repente, sem que dediquemos a devida importância ao tema, está o caminho aberto para fazer reais todas as distopias orwellianas e para acabar com um dos alicerces mais importantes das nossas sociedades demo-liberais (historicamente centradas, precisamente, no indivíduo por oposição ao colectivo marxista)

Dou um passo atrás. Sempre fui – e continuo a ser – um defensor radical da liberdade de expressão (aliás muito para além daquilo que é hoje maioritariamente aceite). Sei bem que é nela que se funda a liberdade que é o valor que mais prezo. Sempre fui, na mesma linha, um defensor radical não só do direito mas também do dever de informar. Sei bem que não há escolhas democráticas substantivas sem informação sólida sobre as ideias e projectos em confronto na sociedade. E, por tudo isto, sempre defendi (por vezes em acaloradas discussões) que existem circunstâncias, naturalmente muito especiais, em que se justifica a violação da privacidade em nome de um interesse público premente. Situações em que informação obtida através de métodos ilegais pode e deve ser usada num trabalho jornalístico.

Mas isto dito, sou obrigado a reconhecer que, quanto mais fácil é o acesso a informação privada, quanto mais completa é essa informação, mais cuidados devem ser tidos relativamente à sua utilização, mais devem ser reafirmados os limites da inviolabilidade da privacidade. No mundo de privacidade ameaçada, num mundo em que se diluem as fronteiras da individualidade, é tempo de os jornalistas fazerem um aggiornamento dos seus códigos deontológicos para os adaptar à nova realidade tecnológica. Caso contrário arriscam-se a tornar-se cúmplices (senão principais agentes) de uma transformação totalitária das nossas sociedades em que a esfera sagrada de liberdade em torno de cada um de nós é substituída por uma vigilância permanente, obsessiva e integral das vidas de cada um de nós.

Se fosse jornalista, punha a mão na consciência. E se não a tivesse, perguntar-me-ia se a liberdade não tem sempre a responsabilidade por contraponto. Esqueçam a segunda e acabam por ficar sem a primeira. Nem toda a gente acha (e bem) que o nosso futuro colectivo depende das tropelias sexuais do Ronaldo, dos mails do Benfica ou mesmo das escutas feitas no âmbito dos grandes processos mediáticos. Muita gente começa a achar (e mal) que perante tanto despautério é melhor cercear a liberdade de informar.

Infelizmente não é por aí que as coisas caminham. A menos que entendamos que o nosso futuro colectivo depende das tropelias sexuais do Ronaldo.

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