“Em Portugal pode haver uma Autoeuropa de estúdios de televisão”

Por a 13 de Fevereiro de 2019

Pedro Boucherie MendesPedro Boucherie Mendes, director de planeamento estratégico da SIC e director da SIC Radical, lançou o livro Ainda Bem Que Ficou Desse Lado, que tem como subtítulo “Como ser um melhor espectador de televisão na era das séries, da Netflix e da escolha infinita” (edição Escritório). Um pretexto para o ouvir enquanto espectador e profissional da televisão.

Meios & Publicidade (M&P): O Netflix tem ajudado à explosão das séries, um género que em Portugal não tem grande expressão em termos de audiências nos canais generalistas.
Pedro Boucherie Mendes (PBM): Uma série normal do Netflix com qualidade, bem filmada e com bons actores custa meio milhão de euros por episódio. Isso é impensável para a televisão portuguesa, não temos esse dinheiro. Temos de ser mais engenhosos. Acredito que dentro de um, dois, cinco anos teremos mais séries na televisão portuguesa. A RTP já começou esse caminho. Fizemos um estudo há pouco tempo sobre outro tema em que uma das informações que saiu é que a maior parte das pessoas que viu A Casa de Papel em Portugal viu em pirataria, apesar de o Netflix ser relativamente barato. Essa é uma grande ameaça. O elefante na sala são aqueles aparelhómetros, aqueles media centers em que há sempre um amigo que tem um código. O director da Sport TV terá muito a dizer sobre o assunto. É uma coisa que afecta o negócio, a indústria e a criatividade.

M&P: Até agora o Netflix não anunciou qualquer produção portuguesa. É algo que beneficia os canais de televisão?
PBM: Não. Será sempre bom para a indústria se o dinheiro americano for investido na produção portuguesa, mas não me surpreende. Portugal não é um mercado prioritário para o Netfilx. O espanhol também não era mas o sucesso de A Casa de Papel, uma série da Antena 3 que não teve boas audiências, fez com que o Netflix decidisse fazer um hub de produção em Espanha. Perceberam que eles sabiam fazer séries.

M&P: Mas Portugal sabe fazer bem televisão, em comparação com os outros países?
PBM: Sim, mas o espectador do Netflix, apesar de querer um local flavour, quer uma bitola internacional: bons actores, um protagonista forte, texto complexo e ao mesmo tempo simples de perceber.

M&P: “Nunca a televisão foi tão boa como agora”, escreve no livro. A mesma afirmação aplica-se a Portugal?
PBM: Sim, mas se for jantar a minha casa uma vez e for servido um prato de sonho fica convencido que em minha casa se come muito bem. Se for a minha casa jantar 60 vezes em dois meses, a dada altura vai-se cansar. Tem a ver com a abundância de escolha. Os nossos canais de notícias são bons, motivados e engenhosos. Podemos criticar, mas não é fácil estar à porta de um ministério estar a encher sobre os grevistas e o ministro.

M&P: É um tipo de directos que não se vê nos canais de informação internacionais.
PBM: Se calhar não. A televisão portuguesa expõe-se mais. Um americano rebolava-se a rir meia hora se tivesse de fazer uma novela com as verbas com que nós fazemos. Mas nós fazemos e até conseguimos vender para outros países. Devíamos reconhecer que fazemos as coisas bem.

M&P: Outra frase retirada do livro e que parece que se enquadra no momento que se está a viver: “É facílimo perder audiências e dificílimo recuperá-las. O espectador quer a mesma coisa, mas jura que quer coisas novas e por isso (regra geral) canais que mudam constantemente de oferta é porque a gestão está em sarilhos e tentam subir as audiências.”
PBM: Quanto mais estável for a grelha de programação de um canal, mais audiências tem. Em equipa que ganha não se mexe. Se o programa x está no ar há 15 anos na RTP é porque o resultado de audiências satisfaz. A televisão, e não é uma frase minha, é uma indústria de fracassos. Se há uma série de hospitais, vou fazer uma série de hospitais para bater aquela série porque se percepciona que as pessoas estão interessadas em séries de hospitais. A televisão segue tendências e quando muda radicalmente é porque as coisas não estavam bem. Se tenho um programa que faz 25 por cento às sete da tarde é evidente que não o vou mudar. As pessoas podem estar fartas do Preço Certo, mas funciona.

M&P: Tem um discurso muito positivo em relação à situação do meio televisão. Não há nada que critique, que mereça ser alterado ou que mereça reflexão por parte da indústria?
PBM: A indústria compreende mal a televisão e o seu poder. A indústria adora youtubers e instragramers, não quer a SIC Radical mas quer um post da Sofia com um pacote de fiambre. Se calhar, se eu fosse marca faria a mesma coisa mas não consigo entender bem porque não se fazem mais coisas em televisão. É difícil a televisão convencer as marcas a estarem onboard connosco. Temos de explicar tudo. Não consigo entender porque há tanta pós-graduação em digital e em apanha da azeitona, sempre com os mesmos formadores, que são pessoas de agências que no ano passado tinham outro nome. Nunca há formações sobre ser melhor espectadores de televisão. Ninguém se lembrou mas também ninguém se inscreveria numa pós-graduação em séries. Ninguém me convida ou aos meus colegas para irmos a uma empresa explicar o comportamento dos públicos. Não há nada mais bem medido do que a televisão. Ninguém conhece melhor os públicos do que um decisor de televisão. Já disse antes numa entrevista que fui eu que trouxe o Shark Tank para Portugal. Achei que tinha o lado curioso dos negócios e os jurados que eram críticos. A ideia não era ajudar o país e tecido económico. O programa foi um sleeper, demorou a arrancar na SIC Radical, mas quando o pus diário explodiu. Nunca fui convidado por nenhuma associação empresarial ou de startups. Não me estou a queixar, mas para as pessoas era óbvio que o Shark Tank, o Anthony Bourdain ou o Ramsay tinham de estar na televisão portuguesa. Não é nada óbvio. A televisão portuguesa tem defeitos, mas não tem assim tantos defeitos. Esta indústria portuguesa não compreende a televisão, não a valoriza e não nos diz como podíamos melhorar.

M&P: O que podia fazer o Estado para apoiar a indústria?
PBM: Um dia teremos de olhar para a televisão como uma actividade industrial, como os sapatos, o azeite, o vinho ou o têxtil. Israel ou Holanda exportam formatos de televisão em barda. Em Inglaterra uma das indústrias ameaçadas pelo Brexit é a do audiovisual, porque eles vendem formatos, talentos e programas. Vendem tal como nós nos orgulhamos do azeite ou da Autoeuropa. Estou disponível para ir almoçar com um ministro para explicar que em Portugal pode haver uma Autoeuropa de estúdios de televisão. Da mesma forma que montamos os carros dos alemães, também podemos montar as séries dos alemães. Temos clima, situação geográfica ímpar, entre a Europa e a América, as pessoas sabem falar inglês e são desenrascadas, que nesta actividade é fundamental. Não há sindicatos, não há paralisações.

M&P: Recentemente houve uma greve na Plural. 
PBM: Sim, mas quando há uns anos houve a greve dos argumentistas na América as séries pararam. As pessoas perguntavam porque é que não se punha outras pessoas a escrever. Há regras do sindicato. Só se pode escrever para a série se se estiver inscrito no sindicato dos argumentistas. Era nesse sentido que estava a dizer. Portugal é um país seguro, tem bons acessos, tem boa luz e os nossos jovens podem ter empregos em que ganham mais de mil euros.

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