Nomadismo digital: Um ano depois

Por a 11 de Fevereiro de 2019

SofiaEste mês faz um ano que entreguei a chave de minha casa de Berlim a outra pessoa e saí de mochila às costas em direcção aeroporto.
Um ano depois, a mochila está bem mais leve e eu (quero acreditar nisso) um bocadinho mais rica.
Quando no ano passado deixei a minha casa em Berlim, isto de ser freelancer ainda não tinha arrancado a sério. O meu negócio (ainda me dá vontade de rir quando uso esta expressão) não estava estabelecido, nem o conceito bem trabalhado. Não sabia como iria conseguir clientes, nem se teria capacidade de ser auto-suficiente e de me sustentar, sem precisar de recorrer às poupanças. Por isso também, apenas havia planos para um ou dois anos nesta vida. Desde o dia em que saí de casa, muita coisa mudou. O negócio, por seu lado, está bem e recomenda-se, com as coisas a correr bem melhor do que algum dia poderia ter imaginado.
Se bem que sempre que tenho de lidar com questões burocráticas, como impostos, taxas, facturas, seguros (a minha conta de freelancer está registada na Alemanha), a minha vontade continua a ser a mesma: a de me atirar ao chão e chorar desalmadamente, em posição fetal.
Ao contrário da maioria dos nómadas digitais e freelancers que eu conheço e que só falam das maravilhas deste estilo de vida, eu consigo ver as suas faltas. Obviamente que os afectos importam, assim como lado social do trabalho; contudo o que mais sinto falta é da capacidade de desconectar.
Sempre fui dessas que depois das seis, “adeus trabalho e até amanhã”. De férias, não abria um email e até rosnava, se algum colega me escrevia para perguntar algo.
Como freelancer, isso é impossível. Mais ainda quando o conseguir e manter clientes se deve apenas e exclusivamente ao nosso trabalho. Se não trabalhamos não recebemos; se não encontramos novos clientes, não entra mais dinheiro; se não trabalhamos, os clientes que temos, vão-se embora.
Depois há ainda a facilidade com que uma relação de trabalho se quebra quando somos freelancers – “olha, antes que me esqueça de te dizer, para a semana já não preciso mais.”
Aprender a viver com esta ansiedade, fez parte do meu crescimento, pessoal e profissional, durante este ano. É preciso ser consciente e aceitar que haverá sempre meses melhores e outros menos bons.
Contudo há também muitas coisas boas.
Ganhei uma liberdade incrível e a possibilidade de gerir os meus horários, sem ter de estar pendente de ninguém. Pelo meio, conheci gente, locais, comidas e culturas, ouvi histórias e sinto que vivi mais. Neste último ano, comecei esta jornada em Madrid (onde vivi durante cinco anos). Vivi em Itália, na região do Veneto, onde ganhei uns cinco quilos. Voltei a morar em Portugal – um mês em Lisboa, com direito a ir aos fins-de-semana, comer a casa da minha mãe! Fora da Europa: vivi dois meses no Japão – um deles a dormir numa casa com tatami. Estive ainda um mês no norte do Vietname que jamais esquecerei – quer pela comida, quer pelos três dias de mota pelo loop de Ha Giang. Esta foi, sem dúvida, uma das mais incríveis experiências de viagem da minha vida. Seis anos depois, regressei às praias da Tailândia, à paz do Laos e ao bem-disposto e bonito Camboja. Agora mesmo, comemoro um ano de nomadismo na Malásia.
Em Março, regresso à Europa, para umas semanas depois dar início a uma nova fase, mas desta vez pela América do Sul.

Artigo de Sofia Macedo (Sofiamacedo.com). Sofia Macedo tem partilhado com os leitores do M&P a sua experiência como nómada digital.

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