“O mercado nacional tem orçamentos muito limitados”

Por a 16 de Fevereiro de 2019

MadeInLisbonO destino Portugal também virou moda na área da produção de filmes publicitários. João Holbeche Beirão, vice-presidente da AP – Associação Portuguesa de Produtoras de Filmes de Publicidade com o pelouro da área de service e responsável pela Made in Lisbon, explica a diferença entre o quotidiano das produtoras de service e as exclusivamente nacionais: “Além de ter mais dinheiro para produzirmos e de ter outros desafios em termos de produção, o mercado nacional tem orçamentos muito limitados, não crescem. Depois há outras situações no mercado nacional: os pagamentos, os atrasos, etc., etc…”

Meios & Publicidade (M&P): Até Março deverá arrancar o Portugal Film Comission, que será gerida pelo ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual. É uma boa notícia para o sector?
João Holbeche Beirão (JHB): Existe já um site, o Picportugal.com. Não sei como é que a Portugal Film Comission irá funcionar. As entidades públicas não gostam muito de andar de umas áreas para as outras, do governo para as autarquias e das autarquias para o governo. Temos de ver como é que vai funcionar. Lutamos há vários anos para ter uma facilidade de abertura com a Câmara de Lisboa que não conseguimos. Não me parece que seja de repente que tudo isto vai mudar. Temos muitas restrições e dificuldades de autorizações e de pedidos de parqueamento. Com alguma luta vamos conseguindo e vamos fazendo o nosso trabalho. Vai haver agora na Câmara de Lisboa uma reunião para que não nos dificultem tanto as coisas.

M&P: No caso da capital portuguesa e da já existente Lisbon Film Commission, o que podia ser melhorado?
JHB: Mesmo para a Lisbon Film Commission, que é só uma pessoa, não é fácil ultrapassar as burocracias, mas o service vai crescendo. Contornamos e encontramos soluções para fazer o nosso trabalho, às vezes apoiados em privados e em localizações que não careçam de autorizações camarárias ou de juntas de freguesia.

M&P: Já perdeu trabalho por questões de burocracia ou atrasos?
JHB: Quando ganhamos um trabalho não temos estas questões fechadas, elas só surgem depois. Normalmente evitamos passar isso para o lado dos clientes. Dificulta-nos o trabalho interno porque a polícia não é marcada sem uma licença da Câmara, a licença da Câmara chega tarde e a polícia não pode ser marcada… Tudo encadeia. Temos de andar à procura de lugares para os carros porque não temos lugar para estacionar. Somos multados porque temos as coisas fora do sítio. Já fui multado por ter um tripé fora da área que estava reservada para mim. Aparecem os fiscais da Câmara, não se identificam, fotografam de longe e vão-se embora. Não há contra-argumentação. Se preciso de montar mais uma tenda porque está a chover, sou multado. Normalmente filmamos com produtoras que vêm de fora, que são iguais a nós, mas também vêm com clientes e às vezes com VIP. Nesse dia em que fui multado por causa do tripé tinha uma tenda para o David Beckham.

M&P: Estamos a falar ao nível de Lisboa, mas como funciona se, por exemplo, quiser filmar na ponte 25 de Abril?
JHB: As pontes têm alguns requisitos e cuidados, o que é normal. Tem de ser bem estruturado e pensado. A Associação de Produtoras tem um acordo com a Infraestruturas de Portugal em que temos uma via mais aberta para pedir autorizações para estradas, pontes, viadutos e alguns monumentos.

M&P: Quanto se paga para poder usar a imagem de um monumento nacional?
JHB: Depende do que vamos filmar. Alguns fazem-se pagar caro. Já me pediram 20 mil euros e um milhão e meio para filmar na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra.

M&P: Por um anúncio?
JHB: Nos dois casos eram anúncios. Um filmei e paguei 20 mil euros. Mais tarde quis filmar outra vez e pediram-me um milhão e meio. A justificação que me deram era que se em Versalhes tinham determinado valor, ali também podiam pedir esse valor. Disse que eu também estava no direito de recusar e aí perdi o filme. O cliente não ia pagar um milhão e meio para filmar na biblioteca de Mafra. Foram para outro país. Agora como há mais trabalho, as coisas tornaram-se caras. Pede-se mais dinheiro do que há uns três ou quatro anos. Mafra foi um dos exemplos. Às vezes quero filmar num palácio, num bar ou noutra coisa qualquer e disparam logo os preços. Disparam porque não querem mesmo disponibilizar os espaços ou então porque acham que estão no direito de pedir esse valor. Nós estamos no direito de aceitar ou não. Normalmente o que fazemos é arranjar outras soluções e outros sítios para filmar. Em última análise, como já aconteceu, construímos em estúdio. Temos cá bons directores de arte, bons construtores e bons estúdios.

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