“Estamos muito treinados para questões que têm a ver com a rentabilidade, se for com a liderança ainda melhor”

Por a 18 de Fevereiro de 2019
Daniel Oliveira e Ricardo Costa, directpores gerais de entretenimeno e informação do grupo Impresa

Daniel Oliveira e Ricardo Costa, directores gerais de Entretenimeno e Informação do grupo Impresa

“Não é um começar de novo, mas é um começar”. É assim que Ricardo Costa encara a nova fase da Impresa, agora com Expresso e SIC a partilharem o mesmo espaço e os jornalistas, literalmente, a mesma redação. “Parece uma coisa menor, mas não é”, diz o director-geral de Informação do grupo, numa entrevista conjunta com Daniel Oliveira, director-geral de Entretenimento

Meios&Publicidade (M&P): Bruno Santos, director geral de antena e programas da TVI, disse em Outubro, em entrevista ao Público “nunca encarámos a Cristina Ferreira como o rosto mais importante da TVI”. É sem dúvida o rosto mais importante da SIC?

Daniel Oliveira (DO): Não comento declarações dos meus homólogos dos outros canais. A Cristina Ferreira tem provado que é um rosto fundamental para a estratégia que definimos para a programação da SIC, tem-se provado nestes primeiros dois meses. Veio somar valor aos valores que já tínhamos. Obviamente que ela é um fenómeno, não só naquilo que é visível para o espectador, mas também na forma como pensa todos os conteúdos que estão no programa e como tem a capacidade de os desenvolver e de ter vários registos no mesmo programa. A Cristina é uma peça-chave da nossa estratégia, mas estes resultados são também fruto de um trabalho conjunto ao longo destes meses e que é visível nos restantes espaços em grelha.

 

M&P: O que está a acontecer é semelhante ao que aconteceu em 2000, com o Big Brother?

Ricardo Costa (RC): Sinceramente acho que não. O BB, quer se queira ou não, é um dos programas mais importantes da história da televisão mundial. Espalhava-se na grelha, nem sei quantas horas de emissão fazia por semana, e obviamente que a TVI jogou bem, alinhou várias coisas em simultâneo em cima do BB e mudou muito o jogo. Aqui é uma coisa completamente diferente. É uma contratação/transferência de peso, mas mais uma série de peças que foram mexidas, sobretudo na grelha de programas. Uma parte que já vinha do último trimestre do ano passado, que já estava a correr, em termos de resultados, de outra maneira. Acho que é mais um alinhamento de estrelas do que uma só coisa. Independentemente do mega peso que tem a Cristina, não é isso. Acho é que são coisas diferentes, as pessoas têm a tendência a achar que são coisas rigorosamente iguais, não são.

 

M&P: O BB serviu também para chamar a atenção para a grelha, que nessa altura passou a ter uma nova informação, futebol e já tinha a ficção.

RC: Sim, disso não há qualquer dúvida, a Cristina chama a atenção. E chama a atenção de pessoas que se calhar não olhavam para a SIC.

DO: E traz uma dinâmica que não é tangível pelos resultados que o programa da manhã tem. De qualquer modo, se recuarmos a Julho, quando esta direcção de programas começou a trabalhar, a diferença para a TVI estava em 4.6 pontos. Em Setembro em 3.6, em Outubro em 3.1, em Novembro em 2.1, em Dezembro em 0.9 e em Janeiro ficou em 0.3. Há uma subida sustentada, consolidada. O programa Casados à Primeira Vista teve muita força nesse resultado e outros movimentos, também da direcção de informação,foram também muito importantes para a dinâmica de antena e para a força da SIC. A própria estreia da nova tarde, com a Júlia (Pinheiro) e com uma novela da Globo também ajudou e liderou desde o arranque, em Outubro. Não são elementos desgarrados entre si, olhamos para a grelha como um todo, de uma forma integrada.

 

M&P: Esperava uma mudança tão imediata, logo no início desta grelha, que agora é reforçada com o Baião? A SIC já não liderava há 14 anos. O mês ainda não fechou, mas ‘correm o risco’ de voltar a liderar.

DO: Esperávamos que estes passos tivessem alguns resultados práticos. Sempre dissemos que o objectivo era sermos relevantes e competitivos em todos os horários. Obviamente que os resultados que estamos a ter na manhã são acima das melhores expectativas que existiam no mercado, mas não são fruto do acaso. O facto de termos esperado para estrear a Cristina numa altura em que a grelha estava mais consolidada, termos trabalhado o programa com antecedência, termos criado condições para que o programa fosse aquilo que é, não é fruto do acaso. Mesmo o trabalho que todos os dias fazemos, nesse programa e nos outros, tem uma consequência prática nos resultados. A Cristina é um pouco como aqueles jogadores que são as estrelas da equipa e aos quais procuramos criar condições para que tenham espaço para explanar o seu futebol.

M&P: O que é que preside à nova grelha? Como é que a define?

DO: Acho que há um conjunto de premissas que estão nos elementos fundacionais da SIC, que têm a ver com a diversidade, com a inovação, capacidade de ter uma grelha que seja ágil, viva, que não seja monotemática. A SIC hoje, podemos dizer com muita segurança, é a televisão que tem mais diversidade na sua antena, mesmo a oferta que temos nos programas de day time rompe com tudo o que existia. Essa diversidade, ter outros géneros, que são disruptivos, até na própria informação – a Rede, por exemplo -, está na matriz da SIC e agora tem tido uma presença mais notória em antena.

M&P: Na informação, o que é que destaca?
RC:
Tratou-se sobretudo de um trabalho de evolução. Muito alinhados com a lógica de grelha, estamos a fazer os jornais um pouco maiores, faz sentido em termos de grelha e faz sentido porque hoje em dia, também por mérito das concorrências, as televisões generalistas estão a fazer mais trabalhos de fundo, muita grande reportagem, média reportagem. Já tínhamos esse investimento há algum tempo, agora carregamos um pouco mais no acelerador e acho que estamos a fazer coisas muito distintivas e faremos mais, quer ao nível da grande reportagem, da investigação, reportagens intermédias e um ou outro tipo de formato, como o Vidas Suspensas ou A Rede. Já tínhamos uma grelha competitiva no ano passado e os números que o Daniel referiu não aconteceram por acaso. Qual é o problema destas coisas? É que nunca param. Sabemos que mesmo que possamos ser líderes este mês, e esperamos que sim, teremos que fazer exactamente o mesmo trabalho no mês seguinte e no outro e no outro. A chamada “obsessão da liderança”… Na SIC estamos muito treinados para questões que têm a ver com a rentabilidade da empresa, a sustentabilidade da empresa, se for com a liderança ainda melhor.

M&P: A conta não é directa, mas quanto é que pode valer um ponto de share?
RC:
Não sei dar a resposta, também não é linear. Mas há uma questão que é muito importante e, aí sim, houve mesmo um alinhamento interno de estrelas incrível, que foi o facto de o final do ano passado já estar a correr muito bem, termos mudado de edifício e estarmos literalmente todos juntos. Parece uma coisa menor, não é.

M&P: Porque?
RC:
As pessoas têm uma sensação de pertença diferente. Quando estamos num edifício novo e depois com a inauguração dos novos estúdios… Tudo isto encadeou-se muito bem para termos a cabeça mais arrumada do ponto de vista de trabalho, de organização, de oferta e do ponto de vista de rapidez de decisão, que é absolutamente critica. Numa área de produção de conteúdos temos de ter capacidade de decisão e de mudança, rapidez e termos um time to market bom. Todo este alinhamento correu muito bem. Acho que o que está a acontecer a nível de audiências, de público e de mercado publicitário é fruto desse trabalho. Agora, não é um fim. Como sabemos, e já cá andamos todos há muitos anos, as coisas vão alterando e é preciso ter uma capacidade de inovação permanente, até mais na área dos programas do que na da informação. O Casados à Primeira Vista é um programa completamente novo, o Programa da Cristina também e outros vão surgir. A grande questão, que se sente hoje no grupo Impresa e na SIC em particular, é um alinhamento que era muito mais difícil de existir quando estávamos todos mais dispersos. Agora é quase como “desembrulhaste uma coisa”… Não é um começar de novo, mas é um começar.

 

M&P: Em Junho de 2016, após assumir a direcção de informação do grupo, cargo que não existia até então, dizia, em entrevista ao M&P, “é uma estrutura que surge à frente do seu tempo. Ainda não estamos no edifício conjunto, estaremos algures em 2018. (…) Qual é a desvantagem? É termos uma estrutura criada um bocadinho o antes de todo o edifício por baixo estar integrado ou aproximado. A grande vantagem é que começamos já a fazer uma série de coisas e seguramente que, quando for altura de nos mudarmos para o novo edifício, já estaremos muito mais preparados”. Na altura falava-se também em convergência entre os meios, em tentar aproximar as redacções no novo edifício, tentar ter algumas zonas comuns, sobretudo na área digital. E a sua resposta foi “daqui a 2 ou 3 anos falamos”. Passaram dois anos e meio…

RC: Exactamente. Estamos aqui há três semanas, no momento em que estamos a gravar a entrevista, e a redacção da SIC e do Expresso está junta no mesmo espaço. Parece uma coisa menor mas não é.

M&P: O que é que vai significar, na prática?

RC: Primeiro, o que é que significa agora? Não há, que conheçamos, nenhum caso no mundo igual. Em que esteja uma televisão grande e um jornal grande a partilhar o mesmo espaço, literalmente no mesmo open space. E não há porquê? Porque são marcas diferentes

M&P: As redacções estão juntas?
RC:
Juntas, completamente. Chegámos a 51 ou 52 versões de como é que as pessoas se sentavam, era uma coisa dificil, como é que as pessoas se deviam sentar e organizar.

M&P: É um tema sensível.

RC: Sensível, difícil e sobre o qual há várias verdades, não há uma verdade. Sentámos junto o secretariado e a agenda, depois cruzámos três áreas: as áreas digitais do Expresso – a Tribuna está junta ao desporto da SIC, o Blitz está junto à Cultura da SIC e a Economia da SIC está junto à do Expresso. Depois há áreas do Expresso que estão junto aos estúdios da SIC – paginação, fotografia, etc – e as salas de reunião são cruzadas. E está a correr bem, as pessoas circulam, conhecem-se. Em que é que isso já se materializa agora? Em praticamente nada, a não ser estarmos todos muito mais próximos e conversarmos muito mais. Estas coisas para correrem bem nem é ao nível da direcção, tem que correr bem a todos os níveis. Tem que haver jornalistas que falam uns com os outros, os fotógrafos falam com os repórteres de imagem e aí por fora. Ideias que fluam e que apareçam no dia-a-dia?

M&P: Mas, neste momento, um jornalista de economia do Expresso e da SIC podem estar exacamente a fazer a mesma história?
RC
: Podem, mas agora conversam. Caso queiram conversar, naturalmente. Foi um processo complexo, houve plenários, muitas reuniões, havia muitos medos. O que é normal. Muita gente dizia “como é que vai ser?”. Está a correr bem e isso é absolutamente evidente. Agora, as pessoas já conversam mais umas com as outras, há ideias depois que vão ser partilhadas, há projectos conjuntos que podemos fazer… Acho que o primeiro salto que podemos dar, e que não demos ainda, de facto, é em termos digitais. É aí que acho que o Expresso precisa mais da SIC e a SIC do Expresso. Como é que isto se faz? Não há uma receita única.

*A entrevista a Daniel Oliveira e Ricardo Costa, directores de entretenimento e informação do grupo Impresa, pode ser lida na próxima edição do M&P. A nova fase da Impresa, agora com Expresso e SIC no mesmo espaço, os objectivos para o canal FTA, cabo e digital, os grandes desafios para os media, os players internacionais e plataformas de distribuição ou a monetização de conteúdos são alguns dos temas abordados. 

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