É perguntar ao Bolsonaro

Por a 4 de Dezembro de 2018
Pedro Norton

Pedro Norton

As eleições no Brasil, muito mais do que a eleição de Trump há dois anos, consagraram definitivamente a centralidade das redes sociais no panorama político-mediático. Bolsonaro não foi, evidentemente, o primeiro a usá-las para fazer campanha. Essa primeira experiência tê-la-á feito Howard Dean no ano já longínquo de 2004. Mas Bolsonaro passará – para o bem e para o mal – a esta história. Nunca antes um candidato tinha dispensado de forma tão ostensiva tempo de antena nos meios tradicionais. Nunca antes alguém tinha demonstrado com tanta violência a irrelevância política da televisão num grande combate eleitoral.

O facto tem preocupado, e muito justamente, políticos e politólogos um pouco por todo o mundo. A nossa democracia liberal, herdeira das experiências fundadoras do século XVIII, sempre foi pensada como representativa e sobretudo como mediada. As derivas direitistas – por mais sedutoras que possam parecer – subvertem-na em vez de a reforçarem. Mas esse é um debate para outro tempo e para outro espaço.
O meu ponto aqui é que o facto devia preocupar, tanto ou mais, os media tradicionais e em particular as televisões de todo o mundo. A irrelevância política é apenas a brigada avançada da irrelevância “tout court”. É uma forma cruel de dizer que o rei vai nu. Porque sem relevância não há, bem entendido, eficácia comunicacional. E sem esta não há, bem entendido, modelo de negócio.

Acontece que dizer isto não é necessariamente ser catastrofista, muito menos é descrença no futuro. Porque esta história tem um reverso. Senão, vejamos. Nunca como hoje houve também uma consciência tão aguda do “lado negro desta força”. Nunca como hoje estivemos tão conscientes do poder subversivo para as nossas democracias e para as nossas sociedades de uma comunicação não mediada, não editada. Nunca como hoje se percebeu os efeitos nefastos da lenta erosão de um espaço público em que todos nós possamos ser expostos a opiniões e mundividências antagónicas. Nunca como hoje se entendeu o perigo dos discursos maniqueístas e binários tão naturalmente adaptados ao meio digital. Nunca como hoje, por outras palavras, foi tão importante resgatar o conhecimento, o “mercado de ideias” diverso, a mediação informada, a edição responsável. Nunca como hoje foi tão importante o jornalismo como classicamente sempre o entendemos. Nunca como hoje foi tão importante – porque necessário – regressar às origens.

Dir-me-ão que confundo desejos com realidade. Que tenho um discurso moralista. E eu respondo – algo arrogantemente é certo – que bem pelo contrário. Que é uma questão de não ter vistas curtas. E respondo ainda que falo de mercado, de oportunidades de negócio, não falo (aqui e agora) de gostos nem de ética. A necessidade existe e a consciência da necessidade alastra-se. Só não vê quem não quer. Onde ontem havia meia dúzia de curiosos, hoje há uma gigantesca plateia de millennials a aplaudir o Presidente Marcelo no Web Summit. Não é ainda “o” mercado, insistirão. Pois não, hei de responder, teimoso. É o futuro do mercado.

Ora o que é dolorosamente absurdo – e aqui chego ao meu ponto – é que o momento em que se torna cada vez mais evidente que o futuro dos meios tradicionais é o de um regresso descomplexado aos seus valores de sempre coincide com o momento de uma notória aceleração da deriva do jornalismo português (há evidentemente honrosas excepções) em direcção da tabloidização superficial e ignorante. Sendo que para cumprir esse papel há meios muito mais eficazes. É perguntar ao Bolsonaro.

*Por Pedro Norton

Deixe aqui o seu comentário