“O problema do algoritmo é que nos fecha numa bolha de uma só perspectiva”

Por a 8 de Novembro de 2018
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Michael Peters, CEO da Euronews (à esquerda), em conversa com Andy Serwer (Yahoo Finance)

É cada vez mais difícil aos media cumprirem o seu papel na sociedade numa altura em que vários factores convergem para limitar a diversidade de perspectivas. Quem o diz é Michael Peters, CEO da Euronews, que, durante a sua intervenção na Web Summit esta quinta-feira, considera que os media enfrentam “um grande problema já que o seu papel na sociedade é ajudar as pessoas a formar a sua própria opinião, a pensarem por elas próprias, e isso é muito difícil de fazer hoje em dia porque as pessoas não têm tempo para ver notícias ou ler notícias, muitas dedicam três ou quatro minutos por dia às notícias”.

“Acabaram de sair os resultados das eleições intercalares norte-americanas mas quem é que sai realmente vencedor? Como é que explico às pessoas um tema tão complexo como as intercalares em três ou quatro minutos?”, questiona. “Simplesmente não podemos fazer isso porque o nosso papel é dar perspectivas diferentes, novos pontos de vista e isso não é possível no tempo que as pessoas estão dispostas a despender para a informação”, conclui.

E este é apenas um dos factores que torna difícil esta função dos media. Esta ambiente de perspectivas limitadas é ajudado também pelo facto de que, acrescenta, “a maioria das empresas de media são detidas por accionistas que acabam por tentar impor uma determinada perspectiva das notícias, dos acontecimentos”. “Mas o nosso papel não é esse, o nosso papel é dar todas as perspectivas e não uma só”, alertou o CEO da Euronews, estação que assumiu a assinatura All Views Matter, sublinhando que “a diversidade é a chave, o nosso papel é mostrar o que o outro pensa, como é o outro, para nos podermos compreender melhor, todas as perspectivas importam para a discussão”.

Apesar de apontar a responsabilidade dos media e da mudança de hábitos de consumo para a dificuldade em cumprir este papel, Michael Peters reconhece ainda que aquilo a que se tem assistido com o crescente peso das redes sociais como forma de acesso à informação tem contribuído para acentuar esta cultura da perspectiva única. “O problema do algoritmo é que nos fecha numa bolha de uma só perspectiva, lemos só aquilo que vai ao encontro do que pensamos, partilhamos as mesmas opiniões com pessoas que têm a mesma perspectiva do que nós e vivemos numa bolha”. E como evitar que os leitores caiam nessa bolha quando nem os próprios jornalistas lhe escapam: “Em 2016, com as eleições a aproximarem-se, o meu correspondente em Washington disse-me que era impossível que Donald Trump fosse eleito.”

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