Eleições brasileiras: fenómeno de comunicação. A perspectiva de um português no Brasil

Por a 19 de Outubro de 2018

Luís RasquilhaPela primeira vez na história do Brasil uma eleição (pelo menos a primeira volta, uma vez que escrevo este artigo antes da votação que decidirá na segunda volta o Presidente do Brasil para os próximos quatro anos) foi pautada, não pelos meios de comunicação tradicionais como imprensa, rádio ou televisão, mas pelas redes sociais. O Brasil é um dos países mais conectados do mundo, considerando internet e smartphone mais importantes que alimentação ou saúde por exemplo, com uma pirâmide demográfica, ainda, equilibrada e uma população, de modo geral, consumidora compulsiva de internet. O Brasil tem actualmente mais assinantes de Netflix do que todas as operadoras de TV cabo juntas, é o segundo país que mais utiliza WhatsApp, tem a sua própria Amazon (mercado livre), o seu Paypal (mercado pago) e cresce anualmente vinte pontos percentuais acima do crescimento médio mundial de internet users. Além de ser amplamente reconhecido como uma das referências em comunicação (não me escuso aqui a recordar os tempos de trabalho enquanto sócio do Washington Olivetto, uma lenda da publicidade).
Não é de estranhar, por isso, alguns fenómenos que assistimos nesta volta eleitoral onde a comunicação foi decisiva.
1. Todas as candidaturas tinham equipas dedicadas à construção de conteúdos para plataformas digitais. Algumas candidaturas apenas utilizaram estas plataformas e tiveram os seus momentos de fama (recomendo uma pesquisa e estudo semiótico ao Cabo Daciolo por exemplo, conhecido pelo seu slogan – Glória a Deuxxxxx);
2. A velocidade de comunicação vídeo para as redes (Facebook, YouTube) foi avassaladora respondendo em tempo real a toda a qualquer postagem ou colocação do adversário, nem sempre com o conteúdo mais verdadeiro. Assistimos a bastantes polémicas e processos de fake news;
3. As estruturas dedicaram mais recursos aos lives no Facebook do que aos debates em si;
4. E todas, mas todas, as previsões e pesquisas de mercado erraram redondamente.

O país está polarizado entre um candidato de direita, Jair Bolsonaro, capitão do exército e deputado com 30 anos de vida pública, do PSL, e Fernando Haddad, ex-presidente da Câmara de São Paulo, candidato do PT, de Lula, com orientação mais à esquerda. Se o primeiro se posiciona como uma marca de mudança, o segundo tenta a todo o custo, desvincular-se da marca que há 20 anos governa o Brasil e se viu envolvida no maior escândalo de corrupção à escala planetária, que culminou com mais de 120 prisões de políticos e empresários, incluindo o ex-presidente Lula (condenado no primeiro de doze processos a que responde como réu, a 12 anos de prisão), a conhecida operação Lava Jato.
Os media estão perdidos pois não conseguem pautar a agenda diária, uma vez que o que publicam (com ou sem viés político) encontra resposta imediata nas redes sociais dos movimentos digitais.
Recuperando lentamente da maior crise económica da sua história, cujo auge em 2016 ditou a saída da então presidente Dilma Roussef (do PT) por impeachment, o Brasil deu mais uma vez uma lição de cidadania ao mundo, provando que a mudança é para valer. O Congresso e o Senado tiveram na primeira volta a maior mudança da sua história, com 84 por cento dos crónicos candidatos a todas as posições do estado a não conseguirem reeleger-se(Jucá, Farias, Dilma, Elcidio e tantos outros) e, com isso deixando no colo do juiz Sérgio Moro (magistrado da operação Lava Jato) um conjunto enorme de políticos que perderam o foro privilegiado, incluindo a ex-presidente Dilma.

Estamos em plena campanha da segunda volta e assiste-se a um acentuar da comunicação:
1. Mudança estratégica completa de Haddad: mudou da cor vermelha para as cores da bandeira do Brasil, tirou Lula das imagens de campanha e eliminou as visitas semanais à prisão (que lhe valeram até hashtags como #marmitadecorrupto, #paumandado ou #fantochedepresidário) com um discurso mais flexível e moderado, afastando-se da imposição esquerdista;
2. Coerência e manutenção estratégica de Bolsonaro: apontando baterias ao combate à corrupção e à violência, segurando a liberalização económica e a reforma do estado e ainda lidando com a hashtag #elenão e com o estigma de ser homofóbico e racista (embora o seu partido tenha eleito a deputada Janaina Paschoal, autora do impeachment de Dilma, com a maior votação dada a uma mulher, sucedendo o mesmo com o deputado negro Hélio, o deputado negro mais votado da história) e ganhando na primeira volta, na maioria das cidades do Brasil, com especial destaque para os resultados obtidos junto das comunidades LGBT, favelas do Rio e sexo feminino, do seu directo adversário;
Foram duas semanas intensas de luta digital, lives de rua e troca de argumentos para escolher aquele que liderará uma das maiores economias do mundo. Bolsonaro, o Trump Brasileiro (que se recorde sofreu um atentado tendo sido esfaqueado e quase morrido), ou Haddad, o Maduro Ditador, (nicknames criados, acredito, pelas máquinas de campanha) um deles vai assumir os destinos do Brasil.
Uma coisa eu sei. Tudo a que temos assistido dá-nos uma verdadeira aula de como a comunicação pelos novos meios digitais é critica para os destinos de um país e até do mundo. Desejo que quem ganhar (tenho logicamente a minha opinião e desejo, mas irrelevante aqui neste artigo) possa devolver ao Brasil a alegria, a segurança, a saúde, a educação e o crescimento económico que ele merece e que os brasileiros (e todos os que no Brasil vivem) desejam. Que o berço esplêndido, citado no hino, continue esplêndido e que as crianças (onde se integra o meu pequeno Luís Guilherme com dois anos e meio) possam viver nele com orgulho e harmonia.

Artigo de opinião de Luís Rasquilha, CEO da Inova Consulting e da Inova Business School. Professor convidado da FIA (Business School da USP, Universidade de São Paulo) e da Fundação Dom Cabral. Colunista da Rádio CBN Brasil

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