Mudar de vida

Por a 24 de Agosto de 2018

RICARDO MIRANDAQuando decidi ir para a universidade, não me passava pela cabeça escolher publicidade, branding (nem existia) ou sequer marketing.
Estávamos nos anos 80 e aquilo não eram cursos, eram cenas esquisitas.
Este preconceito não se tratava de snobeira. Tinha a ver com ‘family brand’: a história da minha família, os valores que recebi, aquilo que eram as minhas referências.
O meu bisavô paterno havia sido 1º ministro na 1ª República e como homem da liberdade e do progresso, tinha garantido que todos os seus filhos (três rapazes e cinco raparigas) tirassem cursos superiores. Nos anos 20 e 30, não era suposto as mulheres licenciarem-se, mas para o meu bisavô a razão era mesmo essa. A minha tia Mariana tirou Filosofia; a tia Fernanda, Línguas; a tia Ajú, Física; a tia Maria Antónia, piano no Conservatório; a minha avó Casimira tirou Matemática em Coimbra. Do seu casamento com o meu avô, nasceram três raparigas e dois gémeos, um deles o meu pai. Todos se licenciaram: Geografia, Português, Germânicas, Medicina e o meu pai tirou Engenharia Mecânica.
Do meu lado materno, a história, valores e escolhas eram iguais: o meu avô formou-se na Escola Naval como oficial de Marinha e as duas irmãs da minha mãe formaram-se em Germânicas e Português; apenas a minha mãe optou por não se licenciar.
Isto, que mais parece o CV académico da família de um pavão, serve apenas para ilustrar que estas eram as histórias que me precediam. A marca que a minha família deixara em mim. Os valores que aprendera. Destas histórias decorria a minha. Não me passava pela cabeça fazer outra coisa que não fosse tirar uma licenciatura. E tinha de ser um curso “como deve ser”, como Medicina, Engenharia, Arquitectura, Física, História, Direito e outros do género.
Escolhi Direito. Tinha saídas, tinha letras e tinha prestígio. Não era um sonho, mas no meu catálogo mental, era o que tinha metido na cabeça que queria tirar. E tirei. A minha história ia ser pragmática e jurídica.
Só que a seguir ao curso, surgiu o sonho a sério. Três meses depois de me licenciar, ainda no começo dos começos de uma carreira como advogado, percebi que afinal havia outra. A advocacia cansava-me, a criatividade publicitária puxava-me. Cheguei ao momento “muda de vida”.
Problema: o que fazer a seguir?
O primeiro passo seria abandonar a minha carreira. Levou um ano. Queria confirmar que não estava a largar tudo por um capricho. Mantive-me como advogado para ter a certeza que não queria sê-lo.
O segundo passo era entrar na minha nova carreira.
Mas como é que isso se fazia?
O meu default seria tirar nova licenciatura. O preconceito contra cursos de publicidade, marketing ou design já se fora, mas mais quatro anos a estudar eram anos a mais.
Um amigo, criativo publicitário, aconselhou-me a ter ideias criativas e apontá-las. Fiz um portfólio de scripts, bati a umas portas, uma abriu-se e dei por mim nas indústrias criativas.
Tinha entrado, mas agora que estava lá dentro, o que era suposto fazer-se?
Diz-se que a melhor forma de aprender é a fazer. Melhor do que aprender a ser criativo, é começar a trabalhar num departamento criativo.
Quem disse isto nunca trabalhou numa agência. Ou está a repetir sem reflectir.
É que depende.
Depende da agência. Depende do momento em que a agência estiver. Depende da equipa com quem se trabalha. Depende dos clientes que se trabalha. Depende das oportunidades que se abrem. Depende do empenho com que trabalharmos. Depende da sorte. Depende de muita coisa.
Se estivermos numa grande agência com uma grande equipa, onde nos dão oportunidades, aprende-se bem. Mas a agência pode ser boa e ninguém nos ligar nenhuma, pelo que aprendemos menos. Ou podemos ir parar a uma agência que trata tudo o que mexe como lixo e aí aprende-se a ser maltratado.
Pôr todas as fichas na entrada numa agência, sem outro apoio, é um risco. Podem ser seis meses mágicos, mas também pode ser péssimo. É claro que há agências que são escolas, mas num mundo onde tudo muda, nenhuma agência “é uma ilha” e a grande agência onde se entrou pode estar em queda acelerada e aquela startup, a que ninguém liga nenhuma, pode vir a ser a agência onde toda a gente quer estar.
Entrar numa agência faz bem à carreira, à autoconfiança, ao bolso, ao CV, o que parece muito, mas não é. Houve demasiadas coisas a que não fui exposto, criativamente, de que só me apercebi quando as tive, mais tarde, e que teriam dado jeito. No começo dos anos 1990 ninguém me chamou a atenção para insights, nem conceitos, nem uma série de aceleradores cerebrais que teriam sido úteis.
Passei de um curso de Direito, demasiado teórico, para uma experiência de criação em agência, demasiado terra-a-terra. Na altura, faltavam cursos médios que ampliassem a experiência que estava a ter no meu departamento criativo. Que me pusessem em contacto com profissionais de agências diferentes. Até porque nenhum criativo de agência queria ensinar criatividade fora dela. Um curso de formação profissional teria sido um bom complemento à minha evolução. Não havia.
Felizmente, o mercado percebeu e mudou. Hoje, há mais consciência do que falta, mais escolas, mais cursos, mais alternativas. Mudar de vida continua a ser tão assustador e tão possível como antes, mas as formas de lá chegar são muitas. É uma questão de querer, escolher e empreender.

Mas a agência pode ser boa e ninguém nos ligar nenhuma, pelo que aprendemos menos. Ou podemos ir parar a uma agência que trata tudo o que mexe como lixo e aí aprende-se a ser maltratado

Artigo de opinião de Ricardo Miranda, coordenador do curso de Brand Storytelling da Restart e creative partner na agência Wonder\Why

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