Por que devemos acompanhar o fenómeno Fortnite

Por a 7 de Agosto de 2018
Fernanda Vasconcelos, directora de marketing da Impacting Digital

Fernanda Vasconcelos, directora de marketing da Impacting Group

O Fortnite acaba de festejar um ano de existência e já tem 125 milhões de jogadores. O meu filho é um deles, por isso quis perceber os segredos por trás deste sucesso.
Há cerca de meio ano, o meu filho de 11 anos descarregou para a consola um jogo gratuito por recomendação de um amigo. Na altura, eu nunca tinha ouvido falar no Fortnite, mas depressa percebi que esta nova paixão do meu principezinho se iria tornar numa tormenta, pois os ingredientes viciantes do jogo foram pensados de forma exímia.
Efectivamente, a paixão é tal que, hoje em dia, até a irmã de 8 anos participa de forma activa nas jogadas, ajudando a detectar inimigos, para garantir muitas “kills” que podem resultar numa “win”… e também nós -adultos- fomos arrastados para esta loucura, pois tanto eu como o pai aprendemos a dançar “emotes”. A nossa sala é invadida de vozes de pré-adolescentes que chegam a nossa casa através da playstation para jogarem em equipa com o nosso filho, cedendo armas ou materiais uns aos outros para dar cabo dos inimigos.
Mas objectivamente quais são os ingredientes que tornam este jogo tão apaixonante?

Viver mil aventuras de forma segura sem sair de casa
Sentado no sofá da sala, o meu filho consegue saltar de para-quedas de um balão para aterrar numa das cidades do jogo, entrar em casas desertas para descobrir armas e materiais, jogar golfe e basquete, conduzir um buggy, fazer vários tipos de construções, matar inimigos com diferentes armas, subir aos telhados de casas e armazéns, descobrir tesouros escondido em baús, morrer e logo de seguida renascer, dançar e até voar.
A adrenalina que estas actividades trazem a um pré-adolescente é brutal! Tendo em conta a protecção excessiva que damos aos nossos filhos (convencidos que o mundo é muito mais perigoso do que quando éramos miúdos… será?) e o pouco tempo de lhes sobra para actividades de exploração e aventura (entre o colégio, a natação, o futebol e a língua estrangeira extra que lhes impomos), o Fortnite acaba por fornecer o entusiasmo e a magia que nós próprios sentíamos quando, com idades semelhantes, saímos à rua e entrávamos numa casa abandonada para descobrir o que havia lá dentro.

Objectivos claros e desafiantes | recompensas fortes e constantes
O jogo Fortnite Batalha Real consiste numa competição pela sobrevivência que envolve 100 jogadores. A tempestade aproxima-se a pouco e pouco, restringindo o espaço de jogo e obrigando assim a que haja um único vencedor: o sobrevivente. Ganhar significa ser o mais resistente entre 100, o que é algo extremamente desafiante.
Durante cada jogada, são proporcionados momentos regulares de premiação, já que os jogadores descobrem baús com tesouros (que contêm armas, materiais de construção, kits de sobrevivência, etc) e recolhem os pertences dos inimigos que conseguem eliminar.
Regularmente são lançadas missões que, ao serem completadas com sucesso, dão direito a prémios: mochilas para os avatares, xp para subir de nível, novas personagens e acessórios.
Jogar significa sempre ganhar algo… mesmo que não sejamos o sobrevivente vencedor!

Vertente social do jogo
É possível jogar Fortnite em equipa, o que gera momentos de diversão com os amigos de sempre e, também, com os desconhecidos que estiverem online. Como os nossos filhos passam mais tempo em casa do que na rua, os jogos electrónicos em equipa são uma forma conveniente de passar mais tempo a brincar com outras crianças e até proporcionam novas amizades além-fronteiras (o que acaba por ser uma excelente oportunidade de treinar o inglês).
Quem adora jogar Fortnite, também gosta de assistir a jogos. Assim, para além de quererem passar horas a jogar, os nossos meninos também passam horas a ver vídeos de outros anónimos ou youtubers famosos que têm records de “kills”, como por exemplo o Ninja que já tem mais de 14 milhões de subscritores. Esta vertente do jogo confere-lhe uma visibilidade enorme (mais canais de divulgação geram mais fãs o que resulta em mais jogadores) e prolonga os momentos de ligação ao mesmo.

Quem adora jogar Fortnite, também gosta de assistir a jogos. Assim, para além de quererem passar horas a jogar, os nossos meninos também passam horas a ver vídeos de outros anónimos ou youtubers famosos

Multiplataforma
O jogo está disponível para PlayStation 4, Nintendo Switch, Microsoft Windows, Xbox One, iOS, Mac OS e, brevemente, será lançado para Android.
Esta multiplicidade de plataformas permite não só que o jogo fique acessível a muitos potenciais jogadores, mas também facilita que possam jogar todos juntos, em equipa, um dos factores de sucesso de Fortnite e que lhe permitiu atingir a dimensão que tem hoje.

Modelo freemium
O jogo em si é gratuito. Assim, há um incentivo enorme a começar a jogar: é grátis… não se perde nada em experimentar. E rapidamente os nossos meninos ficam apaixonados, de tão fortes que são os ingredientes de sedução deste jogo. A factura vem a seguir. As receitas da Epic Games, empresa produtora do jogo, são obtidas sabiamente com compras efectuadas dentro do próprio jogo.
O que se pode comprar?
É possível adquirir itens estilosos, como por exemplo avatares originais, roupas, danças e acessórios (picaretas, para-quedas, etc). Há também o “battle pass”, que custa 10 € e dá acesso a diversões (jogar golfe ou basquete), efeito especiais, missões e personagens exclusivas, teletransporte e, também, moedas gratuitas para comprar os restantes itens à venda.
Um amigo meu descobriu no outro dia que cerca de uma centena de euros tinham sido gastos no cartão de crédito associado à consola em pouco mais de um mês (ups!). Nada surpreendente: não se pode jogar Fortnite sem estilo. É preciso andar bem vestido e conseguir dançar de forma original. E isso paga-se.
Este modelo de negócio, tão típico do digital, tem ajudado diversas empresas a fazer fortuna. Dar conteúdo, oferecer serviço, proporcionar entretenimento sem pedir nada em troca gera milhões. O Fortnite não é excepção: estima-se que gere 2 mil milhões de dólares este ano.

Um amigo meu descobriu no outro dia que cerca de uma centena de euros tinham sido gastos no cartão de crédito associado à consola em pouco mais de um mês (ups!). Nada surpreendente

Personalização | estilo
O Fortnite já não é apenas um jogo. É uma forma de estar e de se afirmar.
Quem joga gosta de partilhar as suas vitórias nas redes sociais, mas não só: há muitos motivos de afirmação para além desta forma tradicional de sucesso que é vencer. Um avatar estiloso, com uns acessórios xpto, umas danças “emotes” originais ou a superação de um determinado desafio do jogo são motivos mais do que suficientes para exposição social e afirmação garantida.
Estes rituais e esta forma de estar definem quem os segue e são factores cruciais para a inclusão numa comunidade: jogar Fortnite é ser cool.
As danças e as expressões (“kills”, “wins”, “skin”, etc) são o expoente máximo deste fenómeno de cultura pop, pois tiveram um impacto tal que sofreram um efeito de ampliação e estão a gerar um fenómeno maior do que o próprio jogo. Efectivamente, são reproduzidos pelos jogadores fora do Fortnite, no mundo físico, contagiando indivíduos que nunca o jogaram.
A Epic Games está de parabéns. Demonstrou uma criatividade sem igual, reinventando os tradicionais jogos de guerra. Explorou da melhor forma o modelo de negócio de sucesso no digital, disponibilizando o jogo de forma gratuita e potenciando assim uma adopção rápida. Investiu fortemente na multicanalidade, o que levou a uma massificação da utilização. O mundo virtual que criou, as personagens, as danças e os rituais fazem parte de uma estratégia de marketing genial, pensada para garantir conversão (compras dentro do jogo), fidelização (novos desafios e recompensas constantes) e grande impacto de comunicação (publicidade gratuita e de recomendação genuína constituída pelas partilhas nas redes sociais da comunidade de jogadores).
Quanto a nós, pais, não nos restam grandes alternativas se não partilhar as vitórias dos nossos filhos, aprender a dançar como eles, dar-lhes dicas para vencerem, ajudá-los a escolher o avatar mais fixe…. mas também colocarmos plafonds nos cartões de crédito virtuais associados às consolas e impormos limites às horas de jogo para abrirmos espaço a outro tipo de actividades (como é difícil pô-los a ler ou jogar Catan depois da excitação do Fortnite!). Podemos igualmente explorar em conjunto e de forma divertida todas as oportunidades de aprendizagem que o jogo contém, como por exemplo explicarmos porque o seu sucesso foi o resultado de uma fabulosa estratégia de marketing, como funciona o modelo de negócio típico do digital, ou ainda alertarmos para o facto de -na vida real tal como no jogo- nem sempre ser o melhor a ganhar, mas sim o mais resistente e assim enaltecermos as virtudes do esforço, da táctica, da preparação e da resiliência.

Este artigo foi escrito pela Fernanda Vasconcelos, directora de marketing do Impacting Group, e uma aficionada de longa data pelo marketing e o comércio digital, com a preciosa colaboração do seu filho Afonso de 11 anos, nascido num mundo digital e numa família apaixonada pelo digital, que com 5 anos teve o seguinte desabafo: “Como era antes quando não havia internet? Eu nunca conseguiria viver sem internet!”

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