"O desporto é tratado de uma maneira talvez antiquada, conservadora e tradicional" - Meios & Publicidade - Meios & Publicidade

“O desporto é tratado de uma maneira talvez antiquada, conservadora e tradicional”

Por a 10 de Agosto de 2018

Pedro Mendonça Pinto1A Eleven Sports oficializa a entrada no mercado português com o arranque de dois canais de televisão e uma plataforma OTT, com uma equipa própria de 10 pessoas complementada por colaboradores e parcerias ao nível dos meios técnicos. Pedro Mendonça Pinto, director não-executivo, explica a estratégia do grupo que promete mexer com o mercado dos direitos desportivos em Portugal e aponta à liderança

“O objectivo é ser líder de mercado, mesmo sabendo que entramos num mercado que apresenta muitos desafios por ter um canal que deteve 90, para não dizer 100 por cento, dos direitos do desporto em Portugal”. É desta forma que Pedro Mendonça Pinto antecipa ao que vem a Eleven Sports, que dá o pontapé de saída para a operação no mercado português esta quarta-feira, dia 15 de Agosto, com o arranque de dois canais de televisão e uma plataforma OTT em dia de Supertaça Europeia. Nas palavras do director não-executivo da Eleven Sports Portugal, o grupo decidiu apostar no mercado português porque “identificou que o desporto é tratado de uma maneira talvez antiquada, conservadora e tradicional, em que pode verdadeiramente mexer com o mercado”. Para já, mexeu com o domínio da Sport TV sobre os direitos das principais competições de futebol ao adquirir a Liga dos Campeões e ligas nacionais de peso como a espanhola e a francesa. No futuro admitem ir a jogo por ligas como a inglesa e italiana e não descartam a hipótese de vir a competir até pela liga portuguesa.

A estratégia, os conteúdos, a concorrência ou as negociações para garantir a distribuição dos canais em todos os operadores de televisão são alguns dos temas abordados em entrevista ao M&P pelo ex-jornalista e ex-director de comunicação da UEFA. Fora de jogo ficaram os valores de investimento, quer ao nível da operação no terreno e constituição de equipa quer ao nível dos direitos adquiridos para Portugal, que o grupo se escusa a revelar. Tal como as expectativas ao nível do retorno financeiro e plano para atingir o break-even e rentabilidade dos canais ou o peso que pode vir a representar o negócio OTT nas receitas de subscrição, questões em que o M&P foi remetido para a estrutura do grupo em Londres mas que este “não responde por política da empresa de não revelar determinado tipo de dados”.

No que diz respeito à operação local, a Eleven Sports está a operar a partir das instalações da wTVision, empresa parceira ao nível dos meios técnicos e régie para a recepção dos sinais das transmissões, decorrendo neste momento a procura de um espaço próprio para escritório e redacção, que deverá ficar concluída até ao final deste ano, tal como a escolha do director-executivo para Portugal. No total, a Eleven Sports contará agora com uma equipa própria de 10 pessoas, estrutura de direcção e redacção, recorrendo a freelancers ao nível da narração dos jogos e comentários. A redacção, que será liderada por Pedro Maia, ex-Porto Canal, não deverá contar, para já, com mais dois profissionais.

Meios & Publicidade (M&P): A Eleven Sports entra em Portugal através da Nowo, operadora com menor quota de mercado, uma opção que justificam como sendo esta a única operadora independente no mercado já que as restantes são accionistas da Sport TV. De que forma consideraram que esta ligação à Sport TV enviesaria as negociações com NOS, Meo e Vodafone?

Pedro Mendonça Pinto (PMP): Não fiz parte dessas negociações, estou na Eleven há menos de um mês e essa decisão já tinha sido tomada pelo grupo em Londres. Foi a melhor decisão de acordo com a estratégia para o mercado português, no sentido de entrar com uma marca nova numa operadora que é independente e para certificar-se de que tinha os melhores interesses do público em mente. Sei que as negociações prosseguem e estamos confiantes de que a Nowo irá chegar a um acordo com as outras três operadoras. Não pensamos que seja realístico ou que faça sentido os adeptos de futebol ficarem privados da Liga dos Campeões, principalmente, mas também da liga espanhola, da liga francesa e de muitos outros conteúdos que iremos anunciar. Ainda há tempo, como sabemos, muitas das decisões no mercado português são tomadas em cima da hora. Percebemos que viemos chocalhar um bocado com o estabelecimento que dominava o mercado português há já muitos anos mas vemos isso como um desafio, não como um problema.

M&P: Antecipavam dificuldades numa negociação directa ou mesmo entraves à entrada da Eleven Sports em Portugal, fruto da ligação das outras operadoras àquele que será o vosso principal concorrente?

PMP: Como já referi, não fiz parte desse processo. O que posso dizer é que acho estranho que neste mercado seja possível as operadoras serem accionistas de um canal com esta estrutura sendo que têm garantido um monopólio no mercado português. Estaríamos sempre à espera de um desafio uma vez que há pessoas e estruturas que estão acostumadas a uma posição de poder e, entrando no mercado, iríamos sempre causar algum desafio também do outro lado para quem está habituado a dominar o mercado nacional.

M&P: É isso que está criar dificuldades nas negociações?

PMP: Acredito que não. Faz parte do processo de transição. Sempre que há uma novidade o status quo demora a ser quebrado. Não prevejo dificuldades mas sim um período de negociação que é normal e prevejo algum período de adaptação.

M&P: Em algum momento este impasse terá resultado de uma tentativa das outras três operadoras, que controlam em conjunto a Sport TV, no sentido de bloquear a entrada da Eleven Sports em Portugal?

PMP: Não sei, portanto não vou comentar.

M&P: A emissão dos canais da Eleven Sports na Nowo arranca a 15 de Agosto e o acordo com as restantes operadoras tarda em ser fechado. Foi noticiado que a Nowo terá rejeitado as propostas da NOS, Meo e Vodafone, enquanto a Nowo garante que estão apenas a ser resolvidas questões burocráticas. O que está a atrasar as negociações?

PMP: As negociações estão a ser conduzidas pela Nowo e não por nós directamente mas, tanto quanto sei, existiu uma, ou existiram mais, ofertas iniciais que não corresponderam às expectativas reais do mercado…

M&P: Em termos de valores?

PMP: Em termos de valores. Neste momento não sei mais nada. Estou à margem das negociações mas sei que a Eleven conta com um acordo. Também estamos num mês em que as pessoas andam um pouco desligadas. Garanto que a partir do momento em que as pessoas voltarem de férias e se aperceberem que podem ficar sem a Liga dos Campeões, se as suas respectivas operadoras não chegarem a acordo com a Nowo, vai existir bastante pressão sobre essas operadoras para chegarem a um acordo. Para mim não faz sentido um produto como a Liga dos Campeões não estar disponível para todos. Até haver acordo, a partir do dia 15 também, as pessoas vão poder subscrever um serviço OTT (over-the-top) onde podem ter acesso a todos os conteúdos. Portanto, vamos garantir que as pessoas possam ter acesso a esses conteúdos.

M&P: Estão a contar com essa pressão dos consumidores para fecharem o acordo?

PMP: Estamos a contar com essa pressão.

M&P: Apesar de, quer a Eleven Sports quer a Nowo, frisarem que o objectivo nunca foi o exclusivo, arrancou agora uma campanha da operadora em que os novos clientes até ao final de Agosto têm acesso aos vossos canais durante seis meses sem pagar qualquer subscrição. Nessa campanha, os canais Eleven Sports são anunciados como um exclusivo da Nowo a partir do próximo dia 15.

PMP: É um facto hoje.

M&P: Mas não será um facto nos seis meses de duração dessa campanha promocional? Há aqui uma tentativa de atrasar as negociações para ganhar algum tempo para a Nowo capitalizar este acordo com a conquista de novos clientes?

PMP: Não, nunca, a estratégia não é essa. O objectivo é a Eleven Sports ter a máxima penetração no mercado o mais depressa possível. Esse mais depressa possível tem a ver com a forma como o mercado reage à entrada da Eleven.

M&P: O acordo com a Nowo é apenas para a distribuição ou prevê a inclusão da operadora na estrutura accionista da Eleven Sports Portugal à semelhança do que acontece com as outras operadoras na Sport TV?

PMP: Não. É um acordo de distribuição.

M&P: Apesar de terem acordado com a Nowo que ficariam a seu cargo os direitos de distribuição dos canais de televisão da Eleven Sports, decidiram manter os direitos OTT convosco. Porquê esta opção?

PMP: Porque o modelo da Eleven relativamente à plataforma OTT é o mesmo em todos os mercados. Temos uma plataforma que é acessível aos consumidores em cada mercado mas toda a montagem dessa plataforma ao nível de tecnologia e de acesso é feita a partir de Londres. A única diferença que haverá em Portugal é que todo o conteúdo será traduzido para português. É um projecto que existe na Eleven desde o início, faz parte da estratégia a curto e a longo prazo, está em todos os mercados, portanto faz sentido que esteja centralizado na Eleven Sports.

M&P: A plataforma vai estar acessível exclusivamente através de acesso directo ou equacionam também acordos no sentido de a disponibilizar nas boxes dos operadores, à semelhança do modelo adoptado pelo Netflix para entrar no mercado português?

PMP: Teria de ser o Danny Menken [director-geral] a responder a essa questão. Estou na Eleven Sports como consultor e como director não-executivo, faço parte da equipa e estou a ajudar no lançamento do canal em Portugal, graças ao conhecimento que tenho não só ao nível de televisão mas também do mercado de desporto português. Mas há muitas destas questões estratégicas que não me compete estar a comentar porque tem mais a ver com o grupo. Não estou por dentro deste tipo de questões, sei dizer, por exemplo, que existe a ideia de negociarmos com marcas de Smart TV para termos a nossa aplicação OTT já incluída nos televisores quando são adquiridos pelo consumidor. Sei que poderá haver acesso à aplicação através de outros meios mas não posso dizer neste momento quais são.

M&P: Actualmente estão presentes em 11 países. Que importância esperam que venha a assumir o mercado português?

PMP: O objectivo é ser líder de mercado, mesmo sabendo que entramos num mercado que apresenta muitos desafios por ter um canal que deteve 90, para não dizer 100 por cento, dos direitos do desporto em Portugal. É definitivamente uma estratégia de longo termo, não viemos para Portugal para estar dois ou três anos e ir embora caso não sejam atingidos os objectivos a que nos propomos. Mas o objectivo é claramente esse, basta olhar para a estratégia nos principais mercados globais onde estamos presentes. O grupo Eleven Sports veio para Portugal porque é um mercado onde existe uma grande paixão pelo desporto, onde o grupo identificou que o desporto é tratado de uma maneira talvez antiquada, conservadora e tradicional, em que pode verdadeiramente mexer com o mercado.

M&P: Essa forma “antiquada” de tratar o desporto refere-se à Sport TV?

PMP: Não, estou a referir-me à forma um pouco pesada como o desporto e o futebol têm sido tratados em Portugal. Temos excelentes jornalistas e profissionais mas, ao nível da filosofia de tratar o desporto, é demasiado séria. Não no aspecto de seriedade e credibilidade profissional mas é tudo muito sério, muito polémico e complicado. O desporto é entretenimento. Eu estive fora durante muito tempo, só vivi em Portugal seis dos últimos 26 anos anos, e durante esses 20 anos fora adquiri um conhecimento do desporto e uma maneira de o ver que é diferente daquilo que muitas vezes se vê neste mercado. Aqui, por várias razões, fala-se em demasia das polémicas e dos escândalos. A filosofia da Eleven Sports pode ser uma lufada de ar fresco e, de acordo com o contacto que tenho com o mercado português, vejo que há uma necessidade que isso aconteça. Há muita gente que está farta de ver os mesmos temas tratados da mesma maneira, constantemente nos programas de debate da televisão portuguesa. Há espaço para outras coisas.

M&P: Quando diz que o objectivo é a liderança refere-se a essa competição pela detenção dos principais direitos desportivos e em ter mais conteúdos do que a Sport TV ou apontam já à liderança nas audiências?

PMP: Ter mais conteúdos do que a Sport TV vai ser difícil, pelo menos no curto prazo. Eles têm cinco canais, nós não temos necessidade de ter tantos canais 24 horas por dia. O que queremos é ser uma referência ao nível do conteúdo que produzimos, inicialmente, e depois temos uma grande vontade de sermos líderes de audiência nos próximos anos. Sei que isso não vai acontecer de um ano para o outro, mas estamos com uma grande motivação para ter impacto no mercado nacional.

M&P: Têm uma meta definida para assumir essa liderança?

PMP: Um ou dois anos é muito curto, especialmente tendo em conta que existe um player em Portugal que é líder há muito tempo porque não tem tido oposição. Mas vamos fazer os possíveis para que isso aconteça no mais curto período possível. Na Polónia havia um plano para ser líder de mercado em cinco anos e a Eleven assumiu a liderança ao fim do segundo ano no mercado.

Leia aqui a entrevista completa (acesso exclusivo para assinantes M&P Plus)

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