Dois por um e um por todos

Por a 9 de Julho de 2018
Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

Ricardo Tomé, director coordenador da Media Capital Digital

A primeira vez que me terão feito a pergunta terá sido no ano de 2009. Tê-la-ão repetido em 2010, 2011, 2012 e todos os anos depois em aulas, conferências ou workshops. “Todas as marcas devem estar presentes nas redes sociais?”. Não. Sobretudo as que prestam um mau serviço ou detêm produtos cuja diferenciação ou reputação é escassa. “Então quando avançar para uma estratégia digital?” Nunca.

Não estou a ser irónico nem provocador. Estou mesmo a ser realista.

Quando em 2011 o Turismo da Austrália revolucionou as redes sociais, apostando em aproximar visitantes que o tinham sido com visitantes potenciais que o queriam ser, não montou uma estratégia digital. Quando a Starbucks (que hoje tem só e apenas a app de pagamentos mobile mais usada nos Estados Unidos da América) resolveu ser quem é, o terceiro melhor lugar da vida dos seus clientes para tomar café (para além da sala e da cozinha) não o fez pensando numa estratégia digital. Quando a Red Bull se transformou na maior marca de branded content ao ponto de hoje licenciar conteúdo como um negócio em si, sempre assente na transposição dos limites, sem barreiras e com asas, não o fez pensando numa estratégia digital.
E o que irá a fabricante de azeite fazer? E o que irá a padaria local fazer? Tem o digital algo a ver com estes “pequenos” negócios, afinal? E a empresa hoteleira de gestão familiar?
Todos irão esbarrar na parede – esmagando o crânio, partindo o braço, deslocando o ombro se olharem o digital como “a” estratégia.
A estratégia está no serviço, o digital é apenas mais um caminho. Se o produto é mau ou o serviço é mau, de nada valerá à marca o digital. Mas acreditem todos, se o serviço for bom, o digital actua hoje como factor exponencial. Até mesmo para a padaria local ou o fabricante de 18 marcas de azeite vendidas em Portugal e além-fronteiras.
Mais de 5,5 milhões de portugueses acedem a redes sociais hoje em dia – de forma regular, todas as semanas. E longe vão os tempos onde nos ligávamos pelos pesados computadores de secretária duas vezes ao dia. Hoje desligamos o despertador e espreitamos o tempo que faz pelo The Weather Channel e logo a seguir as notificações chamam-nos. Nos transportes públicos espreitamos conteúdos. Na espera da consulta. No regresso a casa. Após o jantar enquanto vemos televisão. Quando nos deitamos e mentimos dizendo “apenas mais uns minutos” transformados em muitos mais.

Como avançar então?

Em primeiro, procure o total alinhamento interno. São incontáveis as empresas que acham que a estratégia está plenamente alinhada e a mobilização feita imaculadamente nas suas equipas. Não está. Certifique-se e cumpra as acções necessárias para que não falhe neste ponto. Tenho visto casos incríveis de equipas nos mais variados sectores onde todos dizem convictamente conhecer os objectivos e, quando colocados debaixo de alguns exercícios práticos, mostram afinal carecer de maior profundidade e alinhamento.

Em segundo, esqueça olhar para as redes sociais como caminho para obtenção de resultados a curto prazo. Vai frustrar as suas equipas internas e agências e não alcançará resultados satisfatórios. Estes são canais de relação, não de promoção ou auto elogio. Faça um exercício simples: espreite o seu mural no Facebook ou Instagram. Conte os últimos 10 posts. Quantos falam das características e benefícios dos produtos/serviços, quantos falam de como os produzem/o que os diferencia, quantos falam do que mobiliza a empresa e da sua visão, e quantos procuram estimular o contacto dos fãs entre si? Conseguiu um mix equilibrado entre os 4 vectores ou o primeiro dos quatro retém mais de 70 por cento dos posts?…

Em terceiro, rodeie-se de quem percebe de conteúdos e os sabe coordenar com os demais parceiros com quem trabalha a sua empresa. Esta é a verdadeira arte. Esqueça o eixo de comunicação e o conceito criativo para o mupi e o spot como grande preocupação para a campanha. O broadcast terminou como ferramenta única. Desde que a Forrester em 2009 nos avisou de que o “engagement” seria a palavra de ordem (e foi) que se tornou essencial pensar em conversação para além de difusão.

Estes são passos práticos que lhe partilho para que possa pensar e reflectir internamente se está a avançar bem no digital e em específico na web 2.0, onde as redes sociais imperam. Não se preocupe em exclusivo com elas, mas bastante mais com o produto e o serviço em primeiro lugar. A verdade absoluta é que nesta web já alguém fala do que você faz e oferece no mercado – seja no Booking, nas reviews do Google ou da Amazon ou nas estrelas com que marcou o produto no Vivino, no eBay, no AliBaba ou no Pinterest ou noutra plataforma qualquer. A sua pegada digital já está a ser escrita e sê-lo-á sempre pelos acérrimos defensores dos bons produtos. Acredite. Como seres humanos, amamos difundir e partilhar com o próximo quando encontramos algo absolutamente fantástico. Só não aposte todas as fichas em depender do que os outros falarão por si e procure também dar o seu empurrão. Afinal, dois por um tem sempre mais força do que um só… Sobretudo se o solitário estiver à solta e voltado para o acaso das circunstâncias.

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