mili | Uma história em 12 crónicas – #04

Por a 8 de Junho de 2018
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#RedCarpet

Desde criança que Mili se imaginava numa passadeira vermelha. Tantas vezes tinha sonhado com o mesmo vestido longo preto, o mesmo penteado e os flashes frenéticos apontados para ela. Imaginava-se consagrada. A estrela de uma série de sucesso a caminho do prémio de melhor atriz. Eternizada no seu vestido longo em redes sociais, jornais e revistas do mundo inteiro.

Agora que já tinha 25 anos, Mili finalmente ali estava, com os pés firmes na passadeira vermelha, ao lado dos seguranças e com uma lista de convidados nas mãos. Ainda não era uma estrela, mas sim Brand Manager Junior de um canal de televisão e, esta noite, fazia parte da equipa de organização do evento. Estava tão emocionada que sentia uma passadeira vermelha a sair-lhe do peito. Tudo rodopiava ao seu redor. Tantas coisas aconteciam ao mesmo tempo e tão rápido que às vezes sentia-se tonta. Tinha acabado de descobrir que nada passa mais rápido do que uma passagem pela passadeira vermelha. Há tantos anos que pensava em cada detalhe e agora tudo parecia esvair-se num flash. Os que passavam pela sua frente eram quase todos estrelas. Algumas eram grandes atores, realizadores, produtores e guionistas. Outras, apenas estrelas, cujo o brilho vem de algures no tempo e no espaço, mas ninguém sabe ao certo de quando, nem de onde.

Também ninguém sabia ao certo o que Mili estava ali a fazer. Na verdade, ninguém dava conta de que ela ali estava, parada, no limite do alcance das luzes. Mili esteve imóvel a maior parte do tempo. Sentia-se com excesso de base na cara, com o batom demasiado cor-de-rosa e o vestido demasiado H&M. Olhou-se ao reflexo do telemóvel e pensou que o alisamento do cabelo que lhe tinha custado uma fortuna agora dava-lhe um ar barato. Às vezes, quando alguma celebridade olhava para ela, sentia-se paralisada e forçava um sorriso nervoso. Quando a sua diretora chegou e lhe perguntou se tudo estava sob controlo, Mili respondeu com um sim que lhe saiu numa voz quase muda, abafada pelo burburinho.

Foi só no interior da sala que Mili conseguiu respirar aliviada. Tinha contribuído pouco, mas sabia que tudo tinha corrido como o previsto. Estava sentada, orgulhosamente, numa cadeira com o seu nome, que ela própria tinha colocado, assim como em todos os outros assentos reservados ao staff. A sessão começou e os olhos de Mili tornaram-se maiores. Era a estreia do episódio piloto de uma série dramática. Enquanto se imaginava no papel principal, a sua base já não parecia exagerada e o seu batom tinha a cor perfeita.

Poucos minutos antes do episódio acabar, saiu da sala discretamente e regressou à passadeira, que agora estava vazia. Quando notou que estava sozinha e que tinha a passadeira vermelha inteira para a ela, sentiu que este era o seu momento. Tirou o telemóvel da mala e apontou-o para a cara. Foi buscar felicidade em todos os seus recantos e colocou-a num sorriso.

#RedCarpet.

#Premiere.

#Happy.

Poucos instantes depois, a mãe de Mili que estava em casa, em Torres Vedras, viu o post e levou a mão à boca: “Oh, meu Deus, a minha filha na passadeira vermelha!”. Estava ali à sua frente, era a pequena Mili a avançar na carreira. Milimitricamente.


 

A Estrela do Making Of

 

Eram 7 da manhã e era dia de filmagens. Mili chegou mais cedo ao estúdio para aprovar o guarda-roupa, o penteado e a maquilhagem dos atores e figurantes. Tinha acordado às 5 da manhã para ter tempo de alisar o cabelo. Queria estar impecável para não correr o risco de que alguém questionasse o seu critério estético. Quando saiu de casa sentia-se plena, mas quando chegou ao estúdio e foi recebida pelos olhares entreabertos da equipa de produção, sentiu que talvez tivesse exagerado, talvez estivesse demasiado produzida para as 7 da manhã. Cumprimentou os seus colegas e ninguém comentou nada sobre o seu aspeto, o que a deixou aliviada. Devia estar ótima, ou pelo menos, apropriada.

Quando o assistente de produção disse que podiam entrar para a aprovação dos figurinos, Mili saltou da cadeira. Era a primeira vez que entraria num camarim. Quando lá chegou, olhou ao redor à procura dos típicos espelhos com lâmpadas na moldura, mas não havia nenhum. Era uma sala quase vazia, com algumas cadeiras de plástico, dois charriots, caixas com produtos de maquilhagem e sacos de roupa ainda com etiquetas de preço espalhados pelo chão. Os atores e figurantes estavam em pé no centro da sala, lado a lado, à espera da aprovação dos figurinos. Mili olhou minuciosamente para cada um deles e não gostou de nada do que viu. Pressentiu que o ambiente ficaria pesado. Nada combinava com nada, as roupas eram de mau gosto e tinham, em geral, um aspecto barato. Quanto ao cabelo e a maquilhagem, faziam-lhe lembrar os casamentos da província. Nada ali remetia ao glamour da televisão. Mili preparou-se para emitir uma opinião avassaladora. Levantou uma sobrancelha, inspirou fundo e, enquanto soltava a primeira sílaba, ouviu o Diretor de Programação a dizer: “Está tudo ótimo! Podemos filmar.”

Mili e os seus colegas regressaram para trás dos monitores enquanto os atores, figurantes e equipa técnica ocupavam os seus lugares no set de filmagens. Durante o resto da manhã, Mili deu alguns palpites, mas a única coisa que conseguiu alterar foi o casaco vermelho de uma figurante, pois todos concordaram que chamava demasiado a atenção. No início da tarde, Mili recebeu um e-mail da Directora de Marketing e teve de voltar ao escritório para rever um plano de meios que de repente tinha se tornado um tema urgente.

Uma semana depois, quando Mili já nem se lembrava do seu dia de filmagens, recebeu outro e-mail que a fez abandonar de imediato o que estava a fazer. Desta vez, trazia em anexo um vídeo de 3 minutos, o making of das filmagens. O seu coração disparou quando notou que nos primeiros 30” já tinha aparecido duas vezes. E quanto mais o vídeo avançava, mais Mili aparecia, sempre com um ar muito concentrado, ora a olhar para o monitor, ora a olhar diretamente para os actores em cena. Pensou que parecia muito profissional e que se destacava dos seus colegas. Afinal, tanta dedicação ao visual tinha valido a pena. Perguntou se podia postar o vídeo no Facebook e disseram-lhe que sim, que não era habitual postar o making of, mas que não havia problema nenhum. Durante o upload, pensava que talvez algum produtor de cinema a descobrisse. Se isso não acontecesse, pelo menos os seus amigos mais próximos certamente veriam o vídeo até ao fim e, portanto, veriam todas as 7 vezes em que Mili aparecia, duas em primeiro plano, cinco mais ao fundo. Pensariam que para aparecer tantas vezes Mili devia ter um cargo importante, que devia estar a avançar na carreira. E, de facto, estava. Milimetricamente.



A vida é um GIF

Todos os dias têm o mesmo começo: tomar banho, escovar os dentes, secar o cabelo, fazer a maquilhagem e escolher a roupa (que nunca pode se repetir). No entanto, para Mili, arranjar-se para ir trabalhar era mais do que uma rotina, era o começo de mais uma página da sua história. Cada dia era uma nova oportunidade para tornar a sua vida digna de uma história de cinema. Ainda mais uma quarta-feira como aquela, que começaria às 9 da manhã com uma reunião interna do departamento de Marketing. Mili sentia-se plena quando chegou ao escritório. Tinha toda a frescura e energia dos seus 20 e poucos anos a seu favor e, ainda assim, decidiu tomar uma dose reforçada de café.

Como Brand Manager Junior, tinha sempre um momento da reunião que era só dela, no qual fazia um breve relato sobre o que fez na última semana e o que previa fazer na próxima. Falava sobre alguns filmes e séries que tinham estreado e aqueles que estreariam em breve. O seu momento de brilho era quando explicava como pretendia promover cada estreia na rádio, na imprensa, em outdoor e, principalmente, no seu meio preferido, as redes sociais. Desta vez, dedicou uma explicação mais pormenorizada à campanha de um filme que iria estrear no domingo à noite. Mili tinha tido uma ideia para um post e pretendia investir a sério para promover este conteúdo, que chamou de “gif especial”. Estava convicta de que seria extremamente eficaz, que a comunidade do Facebook iria adorar e que o engagement seria brutal.

Quando Mili terminou a sua pequena performance, a Diretora de Marketing perguntou-lhe como tinha sido promovido o filme do último domingo. Mili respondeu que tinha sido com um gif. A Diretora perguntou como tinham sido promovidos os filmes de domingo nos últimos 2 meses. Mili respondeu que tinham sido promovidos com gifs, mas que este do próximo gif seria especial, mesmo especial. Em defesa da sua ideia, disse que o gif é um formato muito versátil que, apesar de não ser novidade, regressou com força nas redes sociais, tornou-se uma tendência e que permite inúmeras abordagens originais. Havia gifs que eram verdadeiras obras de arte e que tinham resultados muito mais eficazes do que alguns posts em vídeo. O gif que Mili tinha idealizado seria inovador e, com a ajuda de um web designer, seria uma peça que com certeza teria muito, muito impacto. A Diretora achava que Mili tinha alguma razão, mas já se sentia entediada com tanta repetição. Disse que não. Preferia fazer um carrossel (um formato mais interativo do Facebook).

Mili repetiu partes da sua teoria, mas a Diretora foi irredutível. A inspirada Brand Manager Junior do início da reunião, saiu da sala destroçada. À hora do almoço, quando refletia sozinha na cantina, decidiu que não iria desistir. Na próxima semana tentaria de novo, com uma ideia mais fresca. Não havia com o que se preocupar, afinal, para Mili a vida é um gif, as falhas repetem-se mas as oportunidades também. Continuamente. É por isso que Mili nunca perdia a fé. Sabia que não lhe faltariam ocasiões para brilhar.

No dia seguinte, acordou cedo, tomou banho, escovou os dentes, secou o cabelo, fez a maquilhagem e escolheu a roupa (sem repetir nenhuma peça). O dia anterior tinha sido duro, mas Mili via tudo como aprendizagem. Sabia que estava sempre a aprender e que isso bastava para que continuasse a avançar na carreira. Milimitricamente

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O primeiro autógrafo

Não eram todos os dias que o elenco de uma grande produção norte-americana vinha a Portugal. Há meses que Mili trabalhava na organização deste evento. Tinha perdido a conta dos e-mails trocados com os representantes dos atores, com a agência de viagens, com os responsáveis pela sala de cinema, enfim, tinha tratado de todos os detalhes e, mesmo assim, 3 horas antes do evento começar sentia como se ainda tivesse tudo por fazer. Centenas de fãs esperavam à entrada do cinema, enquanto Mili corria de um lado para outro tentando manter tudo sob controlo. As mensagens saltitavam do seu telemóvel. Vinham sobretudo dos seus colegas nos bastidores e da Directora de Marketing. Mais saltitantes que as mensagens, só mesmo o coração de Mili.

Há 2 meses que tinha começado a planear a roupa para esta ocasião. Escolheu um vestido preto discreto, que tinha visto pela primeira vez numa Vogue na sala de espera do dentista. Comprou um par de sapatos de salto alto que lhe custou quase metade do salário do mês anterior. Só o corte de cabelo lhe tinha levado mais do que o subsídio de alimentação do mês inteiro. Tantas semanas a planear cada detalhe não foram suficientes para que estivesse satisfeita. Como toda a equipa de segurança também estava vestida de preto, Mili não se destacava muito e questionou-se se o seu vestido não pareceria uma farda e se o seu investimento de tempo e dinheiro teria valido a pena.

Todo este esforço não tinha sido apenas para impressionar os seus colegas, Mili tinha planos bem maiores. Eram atores de Hollywood que, em poucos instantes, estariam ali à sua frente, em carne e osso. Talvez um deles reconhecesse o seu perfil de atriz, o seu talento nato para a sétima arte. Ou então, podia ser o início de uma amizade que lhe levaria a dar os primeiros passos pela calçada da fama. Ou até a descoberta de um novo amor. Quem sabe? No mundo do cinema, tudo é possível.

Quando os carros pretos que traziam os atores despontaram na esquina, os gritos da multidão tornaram-se ensurdecedores. Dezenas de seguranças surgiram e começaram a criar um cordão humano que iria separar as celebridades inalcançáveis da massa de fãs eufóricos. Mili e os seus colegas da organização ficaram do lado inalcançável. Quando as portas dos carros se abriram e os atores surgiram, foi como se a barreira entre o mundo real e a ficção estivesse a desintegrar-se. Enquanto a multidão entrou em frenesim, na cabeça de Mili o mundo tornou-se silencioso e em slowmotion. Aqueles homens e mulheres altos e loiros pareciam deslizar sobre a passageira vermelha, salpicando a multidão com breves sorrisos, beijos e autógrafos. Alguns deles passaram a centímetros de Mili. Tudo aconteceu muito rapidamente. Em pouco tempo, a histeria abrandou e ficaram apenas lágrimas. Os fãs emocionados ainda pareciam não acreditar que os seus ídolos tinham passado por ali. Entre a multidão, quase ninguém entraria para a sessão, já que se tratava de um evento exclusivo para convidados.

O elenco já desparecia nas escadarias do interior do edifício, quando Mili sentiu um toque no braço que a fez despertar do transe. Infelizmente, não era um ator. Era uma adolescente lacrimejante que, ao esticar o braço entre a barreira de seguranças tentando tocar o lado inalcançável, só conseguiu chegar ao braço da Mili. O frenesim foi tão intenso que deixou a fã atordoada. Então, a rapariga disse:

– Dás-me um autógrafo?
Mili respondeu:
– Eu?
A rapariga:
– És da televisão, não és?
Mili sorriu como quem diz que sim.
E a rapariga a recomeçar o choro:
– Eles já se foram e eu não consegui…

Mili, hesitante, agarrou a folha de papel, a esferográfica e escreveu o seu nome. Sorriu para a rapariga e virou-lhe as costas. Não quis que vissem que estava a conter o choro. Não era um choro de tristeza, mas de emoção. Tinha acabado de realizar um sonho de criança. Era o seu primeiro autógrafo! Mili entrou para o teatro resplandecente. Sentia que o seu brilho estava a tornar-se cada vez mais forte. E isso notava-se. Milimetricamente.

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