Vinte.

Por a 14 de Abril de 2018
Jorge Teixeira, director criativo da Fuel

Jorge Teixeira, director criativo da Fuel

Sabem aquelas festas revivalistas “Anos 90”? Estou fora. Conversas que começam com “Eu sou do tempo que”? Adormeço. Não contem comigo para qualquer “Conta-me Como Foi”, seja a recordar como era fantástico ouvir discos importados ou como era divertido barrar o pão com Tulicreme.
Mas quando o M&P me convidou para falar de como era trabalhar em publicidade há 20 anos, aceitei com prazer. Porque é mesmo diferente e algumas pessoas ainda não perceberam exactamente porquê.
Há 20 anos, a escassez ditava o valor em tudo o que é comunicação: na publicidade, na TV, na música, no jornalismo… se tinhas uma ideia e a conseguias executar, isso valia ouro. Nos tempos da escassez (três ou quatro canais de televisão, meia dúzia de jornais, três majors a publicar música), conseguir fazer significava roubar o palco a outro. Por um ano. Por uma temporada. Até haver outra oportunidade de fazer outra coisa. Quando hoje falamos que a campanha tal é que era ou que o jingle tal é que ficava no ouvido estamos a referir-nos aos tempos de escassez: lembramo-nos muito porque havia poucos.
Nos tempos de escassez, o criativo (os Edsons, os Bidarras e outros de nós) era génio. Só ele sabia. As duplas eram fortes. Inseparáveis. Vendidas e compradas juntas. Directores criativos mudavam com o seu séquito junto. Porque aqueles eram os bons. Não havia mais.
A tecnologia veio trazer a abundância. A abundância de talento, de meios, de ideias, de técnicas, de problemas e de soluções.
De repente há mais comediantes que o Herman. Mais cronistas (bloguistas) que o MEC. Mais novelas que as da Globo. Mais senhores televisão que o Carlos Cruz. Mais pimbas que os pimbas. Mais estupidez que o Big Brother. Mais. E mais.
jorge teixera 1998Hoje há menos génios a apontar simplesmente porque há mais génios: agora estão por todo o lado.
Na publicidade há mais formatos que o 30 segundos. Mais écrãs do que pessoas. Mais categorias em Cannes do que leões na Terra. Que bom!
As salas fechadas onde se produzia, protegia e escondia a escassez dão lugar à partilha. À publicação. À cloud. À exposição. À vista.
As ideias dão-se ao escrutínio. Os bons têm voz. Os maus também, claro que sim, mas agora os bons têm voz! Podemos encontrá-los, amá-los, contratá-los, aprender com eles.
A sociedade do “Eu tive uma ideia” ou do “Eu cheguei lá” deu lugar a mais ideias e a mais protagonistas em cima do palco.
Duas coisas eu sei que mudaram nos últimos 20 anos: que há mais formatos criativos que o binómio director de arte/copy.
E que, trabalhando juntos, somos todos mais génios que o génio que éramos.

*Por Jorge Teixeira, director criativo da Fuel

O Meios&Publicidade faz 20 anos. A data é assinalada nesta edição, na qual – entre outros artigos – partilhamos reflexões sobre o presente e o futuro escritas por uma série de profissionais, que foram notícia em 1998 e/ou em 2008.

 

 

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