Querida televisão

Por a 16 de Abril de 2018
Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão

Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão

Há 20 anos, era eu presidente da recém-criada Associação de Produtores Independentes de Televisão (APIT), em representação da Valentim de Carvalho, a maior preocupação era conseguir aumentar o tempo dedicado pelos canais à exibição de produção portuguesa e, em simultâneo, conseguir proteger os produtores na área dos direitos de autor e conexos. Por junto criar mais possibilidades de trabalho regular para os produtores portugueses em condições mais justas. É inegável que felizmente muito mudou nestas duas décadas.
Hoje o prime-time das duas estações privadas é ocupado maioritariamente por produção nacional e a produção de ficção, na vertente de novelas, desenvolveu-se de forma assinalável. Em muitos casos a produção é integralmente nacional, nalguns há guiões adaptados de originais de outros países, mas o trabalho de incorporação de talento nacional – quer na área técnica quer na artística – é incomparavelmente superior. Na produção de entretenimento continuam a dominar as adaptações de formatos estrangeiros e aí ainda há bastantes passos para dar. Mas um dos pontos focado já nessa altura – o papel da RTP no desenvolvimento de uma indústria audiovisual em Portugal e o seu posicionamento como uma referência nesta matéria – andou mais devagar do que o resto do mercado. Formatos como documentários e séries de ficção de inspiração nacional têm tido altos e baixos e uma inconstância e falta de continuidade preocupantes – que na minha opinião radica na falta de definição clara de uma política concertada entre os organismos do sector – como o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) e o operador de serviço público, ou seja, a RTP.
falcao 1998Para falar de casos reais exemplares, há duas décadas a Espanha e os países nórdicos estavam em termos de produção audiovisual local em situação sensivelmente semelhante à portuguesa. Esses países criaram linhas de acção e políticas para o sector e foi a persistência da defesa e aplicação de um modelo de desenvolvimento da indústria do audiovisual em Espanha e nos países nórdicos que lhes permitiu atingir o grau de qualidade – e capacidade de exportação – de séries como “Borgen”, “Ocupados” ou “A Casa de Papel”. O caso dos nórdicos, onde os Institutos oficiais e os operadores de serviço público trabalharam de mãos dadas, é esclarecedor. Esse passo, em Portugal, perdeu-se nestes 20 anos. Hoje em dia um país sem produção audiovisual perceptível em termos internacionais tem uma presença cultural diminuida. Não chega ganhar prémios em festivais de cinema. É preciso bem mais que isso.
A terminar uma palavra especial para o Meios & Publicidade – nos tempos que correm, 20 anos de vida é obra na área da imprensa. Parabéns!

*Por Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão

O Meios&Publicidade faz 20 anos. A data é assinalada nesta edição, na qual – entre outros artigos – partilhamos reflexões sobre o presente e o futuro escritas por uma série de profissionais, que foram notícia em 1998 e/ou em 2008.

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